(artigo escrito há algum tempo mas perfeitamente actual)
Ética e touradas
O Boletim da Ordem dos Advogados, dando largas a uma surpreendente "aficion", publicou no seu último número quatro artigos sobre tauromaquia em que, com excepção do primeiro, da autoria de Silvério Rocha Cunha, que é imparcial, os três restantes, escritos por óbvios aficionados, procuram esforçadamente justificar a festa brava. Mas o entusiasmo do Boletim pelo espectáculo de touros é tal que foi ao ponto de acolher nas suas páginas um panegírico da tourada da autoria de um conhecido aficionado cuja profissão é de médico veterinário (!).
O elogio da festa brava num boletim da Ordem dos Advogados parece-me totalmente deslocado e desqualifica a revista. O Boletim fez-se para debater assuntos que possam interessar os advogados mas nunca para apoiar o lobby dos touros num debate que divide a sociedade portuguesa mas que não interessa particularmente aos advogados (com excepção de alguns aspectos jurídicos que praticamente não foram abordados).
De qualquer modo, para que não fiquem sem resposta os principais argumentos dos aficionados, vou tentar comentá-los nas linhas que se seguem.
O movimento universal de protecção dos animais corresponde a uma exigência ética e cultural universal, consagrada na Declaração Universal dos Direitos do Animal (1978), em numerosas convenções internacionais e em centenas de leis, incluindo leis constitucionais, dos países mais adiantados.
Nas suas diversas formulações todos esses diplomas têm um denominador comum: a preocupação com o bem-estar dos animais envolvendo antes de mais, a condenação de todos os actos de crueldade; mas além dessa preocupação, um número cada vez maior de correntes zoófilas defende o reconhecimento aos animais de autênticos direitos subjectivos.
O debate sobre esses temas, iniciado aquando do arranque da era industrial, na segunda metade do séc. XIX, ampliou-se a partir da criação, após a última grande guerra, das grandes instituições europeias e mundiais (Conselho da Europa, União Europeia e UNESCO) e actualmente trava-se em várias universidades onde se ministram cursos sobre os direitos dos animais (é o caso das Universidade de Harvard, Duke e Georgetown nos Estados Unidos e de Cambridge, na Inglaterra). Numerosos e qualificados autores têm intervindo nesse debate, iniciado com as obras pioneiras dos já clássicos Tom Reagan e Peter Singer. Em Portugal a discussão tem decorrido sobretudo na Faculdade de Direito de Lisboa graças designadamente aos contributos de António Menezes Cordeiro e Fernando Araújo e ainda nas Faculdades de Direito da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Coimbra. Como nota Fernando Araújo em A Hora dos Direitos dos Animais, a bibliografia sobre este tema compreende actualmente cerca de 600 títulos (!).
Não se trata, portanto, de um assunto esotérico cultivado por uns tantos iluminados vegetarianos mas sim — tal como os direitos do homem — de uma componente muito importante da cultura ocidental; a tal ponto que a obrigação para os Estados da União Europeia, de garantirem o bem-estar animal está hoje formalmente consagrado em protocolo vinculativo anexo ao Tratado de Amesterdão.
Não há tempo, neste artigo, que tem como tema as touradas, para entrar no debate sobre os direitos dos animais. Partamos, por isso, de uma conclusão em que todos esses autores — mesmo os que não aceitam a atribuição de direitos aos animais — convergem: a de que são absolutamente contrários à ética os actos de crueldade gratuita para com os animais.
Esta é sem dúvida uma conclusão pacífica não só para os zoófilos mas também para o homem comum em geral e até para os próprios aficionados. Com efeito, se se perguntar a qualquer pessoa (incluindo aficionados de touradas, organizadores de combates de cães e de tiro aos pombos, etc.) se concordam que se torturem animais, é praticamente certo que responderão pela negativa. E no entanto, contraditoriamente, torturam ou organizam a tortura de touros, de cães e de pombos.
O óbvio sofrimento dos touros
É óbvio que os touros sofrem quer antes, quer durante, quer após as touradas. A deslocação do animal do seu habitat, a sua introdução num caixote minúsculo em que ele se não pode mover e onde fica 24 horas ou mais, o corte dos chifres e as agressões de que é vitima para o enfurecer; ao que se segue a perfuração do seu corpo pelas bandarilhas que são arpões que lhe dilaceram as entranhas e lhe provocam profundas e dolorosas hemorragias; e finalmente, na tourada à portuguesa, o arranque brutal dos ferros; e tudo isto já sem se referir a tortura das varas e do estoque na tourada à espanhola — representam sem quaisquer dúvidas sofrimento intenso e insuportável para um animal tão sensível que não tolera as picadas das moscas e as enxota constantemente com a cauda quando pasta em liberdade.
A SIC exibiu há tempos um documentário sobre o que se passa na retaguarda das touradas. Quando chegou à fase final do arranque das farpas o funcionário da praça não permitiu a filmagem por a considerar demasiado impressionante. Mas pudemos ouvir os horrendos uivos de dor que o animal emitia do seu caixote exíguo e que eram de fazer gelar o sangue dos telespectadores.
Na tourada à espanhola com picadores o quadro ainda é mais cruel: o touro é perfurado ainda mais profundamente pela comprida e afiada ponta da "puya" que lhe rasga a pele, os músculos e os vasos sanguíneos, provocando-lhe intencionalmente uma dor intolerável e uma abundante hemorragia, enquanto um cavalo, de olhos vendados, é corneado pelo touro enraivecido e com frequência derrubado e ferido — e tudo isto para gáudio de uma multidão que a cada novo ferro cravado e a cada nova e mais profunda perfuração da vara, vibra com um gozo em que a componente sádica é óbvia.
Perante a evidência de que o touro sofre — e sofre intensamente — ao ser toureado, os aficionados desdobram-se em atabalhoadas tentativas de justificação que não obedecem a um mínimo de razoabilidade, atingindo algumas vezes as raias do surrealismo.
É o que faz Joaquim Grave no artigo publicado no Boletim ao afirmar que "só se pode pronunciar sobre os aspectos éticos da tourada quem conhece o espectáculo". Conclusão esta que, salvo o devido respeito, é completamente absurda, certo como é que os aspectos cruéis acima referidos são óbvios para quem quer que os presencie não sendo necessário estudar tauromaquia para chegar à conclusão de que o touro é objecto de grande sofrimento ao ser farpeado e estoqueado.
Ética e tortura dos touros
Afirma ainda Joaquim Grave que "na corrida existe uma certa ética na relação homem/animal, ou, por outras palavras, e contrariamente ao que afirmam os que a não conhecem, na corrida o touro não é tratado como uma coisa, já que não se lhe pode fazer qualquer coisa indiscriminadamente".
Falar em ética para justificar a cruel agressão, com perfuração por ferros, a um animal abruptamente arrancado ao seu habitat é um absurdo, um "nonsense". Absurdo esse que atinge os limites do surrealismo ao sustentar-se que, no domínio do tratamento cruel, haveria crueldades que a ética permite (as farpas, a puya, o estoque) e outras que a tal ética não autorizaria. Como não se exemplifica de que crueldades se trata suponho que o autor se queria referir, por exemplo, às bandarilhas de fogo ou a cravar farpas nos olhos do touro.
Tudo isto é absurdo. A ética exige que não se inflija qualquer sofrimento cruel ao touro, ponto final. Se esse sofrimento resulta dos ferros cravados ou de qualquer outra coisa "que não é costume executar nas touradas", é um aspecto completamente irrelevante à luz da ética e insustentável em face da razão e do bom senso.
Tentando de novo invocar a ética para justificar a barbárie da tourada, Joaquim Grave mais adiante afirma que "a ética touromáquica é pois a seguinte: respeita-se a natureza do touro, combatendo-o, pois é um animal de combate".
Uma vez mais estamos perante um falso argumento em que a má-fé é evidente: o touro é um animal inofensivo quando no seu habitat; mas é evidente que tem, como todos os animais, o instinto de defesa que o leva a atacar quando agredido. Ele é vítima de uma maquinação cruel de quem o retira do seu habitat, o encerra numa praça e depois o agride cravando-lhe ferros.
A conclusão do artigo está à altura da argumentação: "sendo o touro um ser por natureza bravo, ele realiza o seu grande bem lutando, ele realiza a sua natureza de lutador na luta e ele realiza-se plenamente a ele próprio na corrida e pela corrida".
Lê-se e não se acredita: o infeliz touro, que é levado à força de seu habitat e depois perfurado com farpas, com a "puya", ou estoqueado, que quando não é morto acaba a tourada com feridas profundas e pastas de sangue a escorrer pelo lombo, esse sacrificado animal seria afinal uma espécie de bombista suicida, que se realizaria plenamente pelo seu próprio sofrimento e morte em combate...
Estamos aqui uma vez mais no reino do absurdo. Como é óbvio, ao contrário do bombista suicida, que procura alegremente a morte, o pobre touro, se pudesse falar, diria com certeza que o seu único desejo era nunca sair da lezíria e continuar a pastar pacificamente.
O toureiro — grande defensor dos touros!
Também o Dr. João Vaz Rodrigues, num artigo com pérolas de poesia surrealista, como aquela em que "repudia a hipocrisia de quem sacrifica de bom grado a vida de uma singela flor para preencher emocionalmente um desígnio de vaidade e verbera veementemente o sangue de um animal cujo o destino é exactamente o de morrer na arena", acrescentando "bem sei que a flor não se manifesta da mesma maneira mas morre igualmente sacrificada à emoção", remata com esta frase lapidar: "quem defende o touro é o próprio toureiro e os demais que respeitam a festa. Sem este aquele sofre sérios riscos de extinção".
Ao longo de todo este artigo, além da nostalgia do autor "por já não conseguir assistir à caça à baleia ou aos banhos de espuma sanguinolenta da "copejada" do atum de Tavira" (Freud poderia dar aqui um contributo importante para a explicação de tal "nostalgia") o único argumento que sobressai é o do receio da extinção da espécie taurina caso as touradas acabassem.
Tal como os outros, este argumento não procede, certo como é que, se necessário, se poderia facilmente criar reservas de touros, tal como existem reservas de búfalos.
Resta a pasmosa afirmação de que "quem defende o touro é o próprio toureiro". Na mesma linha de argumentação pode afirmar-se que quem defende a vítima da tortura é o torcionário. Ora aqui está um bom argumento para uso dos advogados defensores dos réus que no Tribunal Internacional de Haia e noutros tribunais são acusados de crimes contra a humanidade: ao torturarem e executarem barbaramente milhares de muçulmanos na Bósnia os torcionários estavam afinal a defender as suas vítimas! É claro que não vale a pena discutir nestes termos de irracionalidade.
Em conclusão, o certo é que nenhum dos aficionados autores dos textos publicados no Boletim da Ordem dos Advogados — como nenhum aficionado em qualquer parte do mundo — conseguiu ou conseguirá jamais demonstrar, de boa-fé, que os touros não sofrem ao serem lidados. Sofrimento esse que não tem qualquer justificação a não ser o prazer sádico e emotivo de quem a ele assiste.
E a confirmação desse sadismo está nesta atitude: quando se propõe a um aficionado que as farpas em vez de terem arpões de ferro tivessem ventosas — como já aconteceu nos Estados Unidos — a sugestão é logo afastada com indignação. O que o aficionado sobretudo quer é ver o sangue, é deliciar-se com o sofrimento do touro.
As touradas ofendem por isso um princípio fundamental da ética que impende sobre qualquer pessoa que se preocupe em pautar os seus actos pelos ditames da moral e da ética.
As touradas foram proibidas em Portugal por Decreto de 1836, da iniciativa do então primeiro-ministro Passos Manuel, por já então, conforme se lê no Decreto, "serem consideradas um divertimento bárbaro e impróprio das nações civilizadas, que serve unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade".
De então para cá, e apesar do retorno das touradas, o certo é que cada vez mais se acentua a repulsa dos países civilizados por esse barbarismo medieval. Em Portugal, segundo sondagem recente, a percentagem de portugueses que não gosta de touradas é de 74,5 % contra 24,7 que ainda gosta (cf. Público, 26.08.2002).
Tal como os autos de fé, os suplícios e as execuções públicas e outros barbarismos próprios de séculos de obscurantismo — também, a médio prazo, as touradas estão condenadas a desaparecer dos raros países onde ainda são toleradas.
(Massacre de Lisboa de 1506, também conhecido como Pogrom de Lisboa ou Matança da Páscoa de 1506)
Era na Primavera de 1506. A irregularidade das estações nos dois anos antecedentes, irregularidade que se protraiu até o ano seguinte, deu em resultado a fome. Ainda naquela época a falta de subsistências trazia, em regra, por companheiro um flagelo, então trivial, não só por esta, mas também por outras causas. Era a peste. Já no Outono de 1505 se manifestavam em Lisboa os sintomas do terrível mal. A corte, fugindo ao perigo à medida que ele se aproximava, passara sucessivamente para Almeirim, Santarém e Abrantes. Dali el-rei, atravessando o Tejo, dirigia-se a Beja, onde então residia a infanta D. Beatriz, sua mãe, quando ao chegar a Avis vieram salteá-lo novas tão espantosas como inesperadas. Um motim popular contra os cristãos-novos rebentara em Lisboa, e esse motim fora assinalado por cenas horríveis. Tomadas as providências mais urgentes, e passando rapidamente por Beja, D. Manuel veio fixar a sua residência em Setúbal, resolvido a proceder severamente contra os habitantes da capital. Eis os factos que, suscitando a indignação de el-rei e exigindo exemplar castigo, resultaram dos inquéritos a que se procedeu, logo que foi possível conter o tumulto e restabelecer a paz.
Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos. Faziam-se preces públicas, e a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da Igreja de S. Estêvão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas, o povo implorava em gritos a misericórdia divina. No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada. No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha. Espalhou-se logo a voz de milagre. Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente.
Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira apenas nas imaginações escandecidas. Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor. No domingo seguinte ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores. Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre. A indignação dos crentes, excitada, provavelmente, pelos autores da burla, comunicou-se à multidão. O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado, e queimado o seu cadáver. O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia! O rugido do tigre popular não tardou a reboar por toda a cidade. As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada. Seguiu-se um longo drama de anarquia. Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo.
O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação, se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que, desgrenhada, implorava piedade. Os dois frades enfureciam as turbas com seus brados, e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo lavor. O grito da revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos.
A ebriedade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite. Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas. Acima de quinhentas pessoas tinham perecido na véspera: neste dia passaram de mil. Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança covarde, a calúnia, a luxúria, o roubo. As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e muitos cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus. Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente diante dos assassinos que não eram circuncidados. As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés, esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo. Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta ou cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras. Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e imagens dos santos. Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas às chamas.
Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque, além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina. A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombas eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas. Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda vários deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas. Até a terça-feira à tarde o número dos mortos orçava por dois mil indivíduos. A medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão asserenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.
(Retirado de “História da Inquisição em Portugal” de Alexandre Herculano. Ed. Círculo de Leitores. Lisboa. 1987)
Crónica escrita em 2010 sobre o tema da tradição nacional da “cunha” e a estória dos submarinos
A corrupção e a luta política
Acaba de ser publicado um estudo sobre a corrupção e que apenas viu a pequena corrupção, que, ao que parece, se concentra mais nas autarquias e envolve, para além dos ditos autarcas e funcionários locais, e mais estes do que aqueles, os agentes de autoridade, que se deixam aliciar por pequenas quantias de dinheiro. As causas são atribuídas ao excesso de burocracia e a uma certa cultura, e as luvas que se dão são uma espécie de óleo que faz funcionar a máquina administrativa local. Sobre a grande corrupção, a que envolve os responsáveis pela máquina perra nada se diz, contudo, o caso dos submarinos, entre outros, está aí a dizer quem são, afinal, os verdadeiros corruptos.
Não custa nada apontar o dedo à pequena corrupção, à “cunha” que se mete para que o processo ande mais depressa em qualquer departamento do estado emperrado pela burocracia, esta também intencional, ao pequeno funcionário público, que recebe o cabrito ou o garrafão de azeite, mas não ao dirigente político nacional ou regional, e à corrupção no mundo dos negócios, essa até parece que é lícita, já que não há qualquer legislação que a enquadre. O sucateiro de Ovar foi preso porque estão envolvidas figuras públicas e empresas com participação do estado, e talvez seja condenado porque a burguesia não gosta dos novos ricos feitos à pressão, os ditos emergentes, e porque há um sector da imprensa que tem os olhos postos nos homens de Sócrates, e no próprio, a fim de o derrotar pessoalmente, já que o não consegue fazer no campo da política.
O caso dos submarinos
O denominado caso dos submarinos pode ser o caso paradigmático da corrupção dentro do estado, pelas pessoas envolvidas, pela natureza do negócio, pelo montante elevado de dinheiro que irá sair dos cofres públicos e pela inutilidade dos objectos adquiridos. São dois submarinos que não irão servir para nada, excepto para as brincadeiras de guerra dos senhores almirantes (foi patético ouvir os argumentados do almirante, chefe do estado-maior da Armada, no jornal do canal 2), não é com submarinos que se fiscaliza a nossa zona marítima (ZEE), mas irão custar muitas centenas de milhões de euros.
O negócio das contrapartidas, a intermediação por empresas (empresários) muito pouco idóneas, as luvas eventualmente distribuídas por altos funcionários do estado e políticos, com comportamentos e honestidade mais que dúbios, com especial relevo para quem protagonizou o negócio, o ex-ministro da Defesa Paulo Portas, que terá ido para ministro possivelmente para fugir ao escândalo do caso da Universidade Moderna, mostra o que é, na realidade, a corrupção dentro do estado, que se deve caracterizar como burguês e capitalista – o estado não é neutro nem está acima das classes –, também ele agente corruptor.
Os falsos nacionalismos
Outro aspecto a considerar é os grandes países capitalistas da UE e produtores de material de guerra quererem impor estes produtos inúteis a países mais pobres e, paradoxalmente, em crise financeira e económica grave. A compra dos submarinos a uma Alemanha, que saiu derrotada da Segunda Guerra Mundial, mas que já é um dos maiores produtores de armamento do mundo, pode ser entendida como uma imposição vexatória a Portugal, como a que aconteceu com a Grécia que, com a corda ao pescoço do endividamento público, foi obrigada a adquirir submarinos e fragatas à Alemanha e à França, ao mesmo tempo que os juros da dívida eram aumentados.
O nacionalismo de um Paulo Portas, e do sector mais ultramontano da burguesia portuguesa que representa, cai por terra facilmente, porque a compra dos submarinos torna ainda maior a subordinação de Portugal à grande potência que é a Alemanha, a renascer das cinzas e a mostrar as garras.
O mundo do capitalismo é um mundo da corrupção, e não há volta a dar-lhe, por muito boa vontade que tenham os Cravinhos da nossa terra.
Escrito em 2021 e a propósito das ditas “alterações climáticas”
A outra agenda do capitalismo, para além da pandemia covid-19, são "as alterações climáticas provocadas pela acção humana", apresentadas como se todos os humanos fossem responsáveis, e não pela economia capitalista que é a realidade sempre ocultada, ou as alterações climáticas não fossem uma constante no planeta desde a sua origem.
Este ano de 2021 parece ir contrariar um pouco os defensores da agenda do aquecimento global, apesar de ter havido uma intensificação da actividade solar, é que já entraram em erupção nada menos do que oito vulcões: nas Caraíbas (La Soufrière na ilha de S. Vicente), na Costa Rica (Rincón de la Vieja), na República Democrática do Congo (Monte Nyiragongo), na Indonésia (Monte Merapi e Monte Semeru e onde há 130 vulcões activos), na Islândia (Monte Fagradalsfjall, estando em actividade há mais de seis meses!) e agora nas Canárias (Cumbre Vieja)e na Sicília (Etna, que está em actividade intermitente desde o princípio do ano). E no mês de Dezembro de 2020 tinham entrado em erupção três: Fuego e Pacaya, no sul da Guatemala, e White Island na Nova Zelândia.
Esta actividade está a produzir uma enorme quantidade de cinzas e de gases que ficarão na estratosfera, levando à formação de um “chapéu” que impedirá a passagem dos raios solares e, assim, conduzindo ao arrefecimento do planeta. Ou seja, um pouco como a Fundação Bill e Melinda Gates pretende fazer com o lançamento através de balões de carbonato de cálcio a fim de provocar o arrefecimento, mas de forma artificial e de consequências imprevisíveis.
Afirmar-se, como temos ouvido à imprensa corporativa, que os meses de Julho e de Agosto, foram os meses mais quentes na Europa nos últimos anos, embora não tenhamos dados, parece-nos um exagero propagandístico, porque em Portugal este Verão está bem longe de ser um dos Verões mais quentes dos últimos anos, bem pelo contrário. E será devido à erupção pouco vulgar de vários vulcões em curto período de tempo e em quase simultâneo que este Inverno possa vir a ser um Inverno particularmente frio e rigoroso. E não tendo nada a ver com a concentração do CO2.
Vem agora a agenda das alterações climáticas, escondendo-se o facto que as alterações climáticas no planeta Terra são a constante e não a excepção. Foi graças a uma grande alteração no clima, provocada pela queda de um meteoro e de muito provavelmente de simultâneas movimentações e choques de placas tectónicas, que os grandes répteis desapareceram e se criaram as condições para que os mamíferos, pequenos animais nocturnos, se pudessem desenvolver; e entre eles, os primatas, grupo a que nós, humanos, pertencemos e que vieram a dominar.
E foi também graças à formação da cordilheira do Rifte, provocada pelo deslocamento de placas tectónicas, que, impedindo a passagem dos ventos, levou à substituição da floresta pela savana na região oriental de África, que os primatas foram obrigados a saltar das árvores e a deslocar-se na posição bípede, e um deles terá sido o nosso ancestral há cerca de 7 a 8 milhões de anos. E foi esse antepassado que terá dado origem aos hominínios, dos quais o único sobrevivente é o homo sapiens sapiens, ou seja, os humanos modernos, que somos nós. Se não fossem as alterações climáticas profundas, não existiríamos. Simples.
As presentes alterações climáticas, embora tenham uma componente humana na sua génese, são provocadas principalmente pelas alterações da actividade do sol e que poderão durar uns 20 a 25 anos, como já aconteceu no passado. Mas há um outro factor que já ocorreu há 75 mil anos e mais recentemente há cerca de 200 anos, mais precisamente em 1815, com a erupção do vulcão do monte Tambora, na ilha de Sumbawa, na Indonésia, que, pela grande quantidade de gases, cinzas e de poeiras, provocou um Inverno durante todo o ano seguinte, em que praticamente não houve sol em quase todo o planeta, levando à destruição das colheitas e originado uma vaga de fome generalizada.
Temos de perceber o porquê da agenda climática neste momento, é que a pandemia do sars-cov-02 está a esgotar-se e, antes que se descubra o logro e o povo se revolte, é preciso criar outra “pandemia”, a das alterações climática vem a calhar. A razão é económica: a taxa de lucro chegou a zero e há uma crise de superprodução. Como a guerra tem sido a receita habitual para o capitalismo se poder relançar, então, arranjam-se outras “guerras”, porque uma guerra mundial à semelhança das duas anteriores é agora empreendimento mais do que arriscado, na medida em que há o perigo de não ficar cá ninguém para contar o que se passou.
As novas guerras ou são “pandemias” ou “transições”. A transição energética é para ser feita à custa de mais impostos e não por capitais próprios das grandes empresas privadas. Culpabilizar os cidadãos pela poluição dá jeito para que estes se disponibilizem pacifica e voluntariamente a deixarem-se explorar mais um pouco, porque para o grande capital o resultado terá de ser sempre mais riqueza e lucros a crescer imparavelmente.
A revolta dos “coletes amarelos” em França teve na sua origem o aumento incomportável do preço dos combustíveis e a população que mais atingida foi exactamente a população das pequenas cidades da província. Revolta que foi apenas colocada em modo pausa pela pandemia covid-19; tendo sido esta criada exactamente com esse objectivo: o controlo social e o apaziguamento da luta de classes. A revolução seguirá sempre dentro de momentos, no planeta e na humanidade.
*
O ANO SEM VERÃO (Texto interessante do paleontólogo Juan Luis Arsuaga)
A maior erupção vulcânica de que temos um registo histórico amplo foi a do ano de 1815, quando entrou em atividade o vulcão do monte Tambora (na ilha de Sumbawa, na Indonésia). Os efeitos dos gases produzidos pela erupção na atmosfera alargaram-se a todo o planeta. Como se fosse pouco, a erupção ainda coincidiu com uma quebra na atividade solar e tudo isto aconteceu, além disso, num período muito frio da História recente conhecido como Pequena Idade do Gelo, em que os glaciares se expandiram. No ano seguinte, 1816, já não houve verão na Europa. Choveu durante quase todos os dias e não houve sol. As colheitas perderam-se, a fome alastrou e o mal-estar social fez-se sentir em muitas regiões da Europa, da Ásia e da América do Norte.
Em junho de 1816, numa villa em Genebra, nas margens do lago Leman, estava a passar férias um grupo de intelectuais ingleses, entre os quais se encontravam lorde Byron, o poeta Percy Shelley e Mary Shelley (que ainda não eram casados) e o médico John Polidori. Entediados com tanta chuva e frio, passaram o tempo a contar histórias assustadoras, tão escuras como a cor do céu. Dessas conversas saiu a inspiração para o famoso romance Frankenstein, de Mary Shelley (nessa altura, uma jovem de 19 anos), e para O Vampiro, de Polidori, que foi a origem das histórias de vampiros aristocráticos que mais tarde apareceram.
Porém, esta famosa erupção vulcânica foi muitíssimo menor do que aquela que ocorreu uns 75 mil anos antes em Sumatra (o vulcão de Tobal) e que há de ter afetado os seres humanos - e todos os restantes mamíferos -, porque a redução da luz solar foi muito marcante. É possível que tenha diminuído drasticamente o número de pessoas vivas, embora tenhamos conseguido sobreviver como espécie. Recentemente foi publicado um trabalho sobre dois núcleos arqueológicos sul-africanos (em Pinnacle Point) em que há vestígios da vida humana durante esses anos. Apesar da catástrofe, parecem ter conseguido viver muito bem. Contudo, também pode ter acontecido que o facto de ser uma zona de costa, com uma grande variedade de recursos, os tenha ajudado a sobreviverem, por a região ser menos afetada do que o interior do continente pela megaerupção vulcânica.
In “A Vida, a grande história” de Juan Luis Arsuaga. Temas&Debates, 2021
A propósito da eleição de Marcelo no primeiro mandato
O afilhado do último presidente do conselho de ministros do fascismo, na sua tomada de posse como o 20º presidente da República Portuguesa, eleito por cerca de um quarto do eleitorado nacional, quis ser diferente ao romper com o dito protocolo, teve um concerto por artistas conceituados da nossa praça, incluindo o da canção que manda “foder”, foi popularucho, abriu as portas do Palácio onde deu beijinhos a rodos e, ainda antes, deslocou-se à cidade "geradora de elites", onde teve um "banho de multidão” (cerca de 200 pessoas), foi bem recebido pelo povo do Bairro do Cerco, moradia de gente que vive do rendimento mínimo, pobre em tudo, irá em breve a Roma ver o Papa, passará por Madrid onde beijará a mão de Filipe VI de Espanha e VII de Portugal, aliás, o chefe de estado mais importante que teve a honra de assistir à não menos importante cerimónia, para além, como é óbvio, do emissário pessoal da fürher, o "amigo" Juncker. E já disse, ou alguém por ele, já não nos lembramos bem, que quer ser como o presidente-rei Sidónio.
Também há alguém disse na imprensa de referência, ou coisa semelhante (a nossa confusão é grande com tanto mediatismo), que "começa uma nova fase da democracia portuguesa" – segundo nós, deve ser a fase final. E, para fazer jus às palavras do presidente da Comissão Europeia, o homem é "o homem certo no local certo", mas por outras razões; para além das que perpassaram pela cabeça do luxemburguês, amigo das multinacionais e outros notáveis cidadãos especialistas em branqueamento de capitais e de fuga ao fisco.
Não sabemos se foi gafe ou intencional que o jornal da direita espanhola tenha anunciado a tomada de posse do novo presidente português, pelo menos devido ao local de nascimento, "Marcelo Caetano". Contudo, não deixa de ser estranho atendendo a que os nuestros hermanos andam bem informados sobre o que se passa nesta “piolheira” à beira-mar plantada, para utilizar um termo tão caro ao monarca português que teve o azar de apanhar uma fatal indigestão quando regressava de férias. O homem é "patriota", por isso quer imitar o Sidónio (fazemos votos que o não imite em tudo), razão pela qual querer comemorar o Dia da Raça, perdão, o Dia de Portugal, em Paris.
O Silva de Boliqueime deixa-nos alguma mágoa, perdemos um labrego que, embora sendo uma figura sinistra e de alguma tristeza, fazia-nos rir, antes deveria ter sido substituído pelo pateta de Rans, assim ficaria mais explícita a imagem do país no estrangeiro. No entanto, este Caetano, perdão!, Marcelo, é bem possível, que nos venha ainda a divertir, apesar de esperarmos coisas mais graves do que aquelas que o patego algarvio nos ofereceu, um pouco à semelhança das anedotas que se contavam por toda a Lisboa sobre a rainha francesa D. Amélia, pessoa também muito popular.
Depois deste mandato, esperemos pelo segundo e veremos um apoio ainda mais encarniçado à formação de um governo de direita pura e dura que venha substituir o actual PS/Costa. Como igualmente alguém já afirmou (somos pouco originais), o Portugal (das nossas elites) é isto: "Fugiu de Alcácer Quibir, El-Rei Rei D. Sebastião, E uma lenda nasceu, Entre a bruma do passado, Chamam-lhe o desejado, Pois que nunca mais voltou, El-Rei D. Sebastião". Voltou a monarquia, nem que seja por já termos um Filipe.
Marcelo (ainda não tem o "I" porque é o primeiro, os reis são só numerados a partir do segundo) é um homem de Fé, vai todos os domingos à missa, fez questão de incluir na cerimónia de tomada de posse uma performance com os representantes de todas as correntes religiosas em Portugal, nem sabíamos que havia tantas (dezoito!), e de tolerância. Não é por acaso que irá ser construída uma nova mesquita em Lisboa, no bairro popular da Mouraria, o que poderá levar ao regresso do projecto da nova Sé-Catedral de Lisboa para o alto do parque Eduardo VII, tão acalentado por João Soares quando presidente da câmara da capital.
Fé, Tolerância e Mediatismo, as três virtudes cardeais ou teologais, farão do novo ocupante do palácio de Belém, lembra-nos o local de nascimento do outro salvador, a pessoa indicada, ou seja, o homem certo no local certo" para gerar "consensos" à esquerda e à direita, à frente e a atrás, e instituir a "estabilidade" tão necessária ao regime, num verdadeiro espírito, não verbalizado, social-democrata. Social-democracia, sempre! – como já dizia o outro que foi eleito por 95% do seu eleitorado.
Na verdade, começou um outro período da democracia portuguesa, há um presidente eleito pelas televisões, levado ao colo por toda a imprensa falada e escrita de referência; toda ela, por sinal, propriedade de grandes grupos económicos, que velam para o regresso ao fascismo seja coisa certa e útil, claro que nada de golpes militares, somente um fascismozito soft, tipo democracia musculada, onde as eleições são feitas não para o Parlamento mas para o cargo do presidente (conselho de ministros ou da dita república, tanto faz) que, por sua vez, nomeia os ministros e quem os secretaria pelo tempo que achar necessário.
Ah! houve quem, num jornal da provinciana cidade lusa Atenas, tenha já defendido alteração da Constituição para que vigore um regime presidencialista, com eleições de apenas de sete em sete anos; mas o homem que foi eleito em Janeiro passado já jurou, não sabemos se foi com os pés, que irá respeitar a Constituição da República. Quem é que irá duvidar?!
Os psicólogos evolucionistas Martin Daly e Margo Wilson dão a conhecer no seu livro “A Verdade sobre Cinderela – Uma Visão Darwiniana do Cuidado Parental”, e com base em trabalhos exaustivos de investigação, que as crianças com um dos pais seja adoptivo, em variados países ocidentais desenvolvidos, sofrem de uma maior incidência de maus tratos e de uma mais elevada taxa de mortalidade, verdades que se podem extrapolar para os filhos indesejados na globalidade. Este comportamento agressivo e, no extremo, assassino tem uma explicação plausível em termos de evolução humana e animal. Não queremos deixar passar a oportunidade para aconselhar a leitura deste pequeno livro, em especial aos que defendem o “não” à despenalização do aborto. (Introdução escrita aquando da primeira publicação deste texto que foi em altura do referendo sobre a despenalização do aborto)
O primeiro teste: relatórios de abusos a crianças nos EUA
A nossa primeira tentativa para medir o impacto das relações de adopção na incidência de abusos a crianças fez uso de um arquivo de dados mantido pela Associação Americana (AHA). Esta organização assumiu o papel de repositório central dos relatórios de abusos a crianças sob ordem judicial na maior parte dos Estados Unidos, e tinha um ficheiro de computador contendo dezenas de milhares de casos. Para cada criança vitimada, os dados incluíam factos básicos demográficos sobre a vítima e o (alegado) autor de crime, detalhes da natureza do abuso, a relação entre a vítima e as pessoas in loco parentis , e se o caso tinha sido 'validado' em algum tipo de investigação seguinte para além do relatório inicial.
Para calcular as taxas específicas da idade de abusos de crianças adoptadas versus outras, precisávamos também de dados sobre as condições de vida das crianças na população em geral. Esta informação era elusiva. O censo da população nos EUA não distinguia entre paternidade genética e adoptiva, e tudo o que conseguimos encontrar foram estimativas baseadas em estudos limitados, que quase de certeza exageraram a prevalência de relações de adopção por causa de algumas suposições não realistas que têm sido feitas para obter as estimativas. Mas nós usámo-las de qualquer modo, uma vez que elas tornavam as nossas comparações 'conservativas': uma sobre-estimação do número de famílias adoptivas numa população deve levar-nos à sob-estimativa das suas taxas de maus tratos tornando mais difícil de demonstrar um aumento. Mas a elevação do risco foi dramática na mesma: de acordo com os nossos cálculos, uma criança com menos de três anos de idade que vivesse com um pai genético e um adoptivo nos Estados Unidos, em 1976 tinha sete vezes mais probabilidade (as odds ratio em linguagem epidemiológica) de se tornar num caso de abuso a criança validado nos registos da AHA que uma que vivesse com os dois pais genéticos.
Existem várias razões para ser cauteloso na interpretação deste tipo de comparações. Uma é a possibilidade de uma detecção ou relatório desviado. Suponha que vivia perto de uma criança que exibia equimoses recorrentes e suspeitas, e que você (como toda a gente) estava familiarizada com o estereótipo da crueldade dos pais adoptivos. Não seria possível que a sua probabilidade para assumir o pior e chamar uma agência de protecção a crianças fosse influenciada pelo facto de saber que o homem em casa era um pai adoptivo? Este tipo de ideias preconcebidas podem causar o aparecimento de riscos diferenciais onde na realidade não existe nenhum. Contudo, existiam fortes evidências de que isto não era o que estava a acontecer nos dados da AHA. Nós pensamos que como a severidade dos abusos em crianças aumentam, até ao extremo da agressão letal, deveriam ser cada vez mais evidentes, logo as distorções devidas a detecções e relatórios tendenciosos deviam diminuir. Mas como nós fizemos os nossos critérios de abusos cada vez mais rigorosos e restringimos a amostra aos casos mais óbvios, a sobre-representação das famílias adoptivas não diminuiu. Antes, pelo contrário. Quando nós reduzimos os casos em consideração de um ficheiro de 87.789 relatórios de maus tratos validados para 279 casos de abusos fatais a crianças, as taxas estimadas em famílias com um pai adoptivo e um genético cresceu para aproximadamente cem vezes mais que em famílias com os dois pais adoptivos.
Não podiam existir dúvidas que o excesso de risco em famílias adoptivas era ao mesmo tempo genuíno e enorme. Mas se isto tinha realmente alguma coisa a ver com relações de adopção per se não estava necessariamente resolvido. Talvez viver com um pai adoptivo estivesse associado com alguns outros factores de relevância mais directa.
Um candidato óbvio para tal factor 'perturbador' é a pobreza. Se uma paternidade adoptiva é especialmente predominante entre os pobres (o que parecia plausível, uma vez que a estabilidade marital se sabia estar correlacionada com o rendimento) e se os pobres também têm elevadas taxas de abusos a crianças detectados (o que é verdade), então diferenciais do tipo dos que temos observado podem ser de esperar mesmo se lares com pais adoptivos e pais genéticos fossem identicamente perigosos dentro de qualquer nível de rendimento. Mas esta hipótese inicialmente plausível foi rejeitada, visto que se veio a saber que a distribuição dos rendimentos familiares em casas de pais adoptivos nos Estados Unidos era virtualmente idêntica aos rendimentos em casas com dois pais genéticos. Famíias com rendimentos reduzidos estavam de facto sobre-representadas no conjunto de dados da AHA, mas a associação entre abuso e pobreza era independente da (era 'ortogonal' para a) associação entre abuso e relação de adopção.
Investigações posteriores no Canadá
Nós publicámos os nossos resultados dos EUA num breve artigo de jornal, em 1980, e com mais detalhe em 1981, e virámos as nossas atenções para outros assuntos. Mas nunca ficámos completamente satisfeitos com o nosso estudo inicial, por várias razões. As estimativas da população em geral eram questionáveis; os 'critérios' de abuso não eram necessariamente consistentes de estado para estado; e os dados eram inadequados para testar hipóteses 'perturbadoras' adicionais para além da pobreza. Então alguns anos mais tarde, tendo voltado ao Canadá, decidimos conduzir um estudo local, mais bem controlado e em pequena escala, sobre as mesmas questões.
A municipalidade regional de Hamilton-Wentworth, onde vivemos, é o centro da indústria do aço do Canadá e a casa de quase meio milhão de pessoas. As agências locais de protecção à criança forneceram-nos informações sobre todos os casos suficientemente graves para terem garantido o preenchimento de um relatório com o registo provincial de abuso a crianças, e nós fizemos o levantamento da população em geral Aproximadamente uma em cada 3000 crianças na idade pré-escolar em Hamilton residindo com ambos os pais genéticos fazia parte do registo de abuso de crianças de Ontário em 1983. A taxa correspondente para crianças vivendo com um pai adoptivo e um genético era aproximadamente uma em setenta e cinco, logo quarenta vezes maior. Esta odds ratio era mais pequena que a que tínhamos encontrado para casos de abusos letais nos Estados Unidos, mas maior que a taxa para todos os casos de abusos a crianças, talvez porque o critério dos casos no nosso estudo de Hamilton era de severidade intermédia.
As odds ratio de risco de abuso em famílias adoptivas versus famílias com pais genéticos em Hamilton era substancial para crianças de todas as idades, mas diminuía com regularidade de quarenta, para crianças na idade pré-escolar para aproximadamente dez para vítimas na adolescência. Uma tendência similar aparecia no nosso estudo dos EUA, e nós vimos uma implicação importante. A maior parte dos que escreveram sobre conflitos em famílias adoptivas acreditavam aparentemente que os problemas são principalmente criados por adolescentes rebeldes que rejeitam os novos companheiros do progenitor que ficou com a custódia; mas isto dificilmente poderia estar correcto se a elevação do perigo dos pais adoptivos fosse máxima para as crianças. A nossa hipótese de que o problema mais básico é a má-vontade em relação às obrigações pseudo-parentais encaixa muito melhor nos factos.
Um outro resultado consistente de ambos os estudos foi que o risco excessivo em famílias adoptivas alcançou toda a gama de 'abusos' desde repetidas agressões a bebés até molestação sexual de crianças mais velhas. Isto também reforçou a nossa convicção de que estávamos a olhar para o que se poderia chamar uma 'análise inversa' do amor parental. Uma escassez de sentimentos, preocupação individualizada pelo bem-estar de uma criança ao seu cuidado poderia parecer provável que aumentasse a incidência de qualquer tipo de abuso.
Ainda outro resultado consistente foi que o impacto da paternidade adoptiva tinha sido estatisticamente independente dos efeitos adicionais da pobreza. Tamanho de família, a que nós não pudemos aceder no estudo nos EUA, demonstrou ser outro factor de risco independente. Mães jovens foi ainda outro. As teorias evolucionistas de investimento maternal tinham-nos sugerido que mães mais velhas poderiam ser mais generosas que as mais novas. Com o aproximar da menopausa, investir na criança que já se tem tem menos e menos impacto negativo na sua futura reprodução esperada. É de esperar que evoluídas psicologias maternais reflictam esta característica fidedigna das histórias de vida das mulheres. Nós no entanto, antecipámos que o risco de abuso diminuiria com regularidade como função da idade da mãe na altura do nascimento da criança, e esta perspectiva foi sustentada. Considerando bem as coisas, apesar de terem sido identificados vários factores de risco adicionais, o parentesco adoptivo manteve-se como o mais importante indicador, e sua influência foi pouco ou nada diminuída quando os impactos estatísticos de todos os outros factores de risco foram controlados.
Justifica-se repetir que mesmo um severo abuso a uma criança é vulnerável à detecção de desvios, mas que estes desvios provavelmente diminuem quando o critério do caso se torna mais extremo. No máximo da tolerância, podemos ser razoavelmente confiantes que os assassinatos de crianças são normalmente detectados e registados. Reconhecidamente, algumas falhas para ajudar um recém-nascido a viver podem escapar à detecção e alguns sufocamentos deliberados podem ser disfarçados com sucesso como 'síndrome da morte súbita', mas não existe nenhuma razão para se supor que estes casos são numerosos, e de nenhuma forma os homicídios brutais, resultantes de agressões motivadas por acessos de raiva ou ódio, poderão ser disfarçados desta forma. Assim depois de completar o nosso estudo de casos registados de abusos a crianças em Hamilton, nós ocupámo-nos de análises de homicídios, usando um arquivo oficial do governo que continha dados de todos os homicídios conhecidos em todos os departamentos da polícia canadiana. Uma vez mais, exactamente como tínhamos encontrado nos Estados Unidos, a sobre-representação dos pais adoptivos como perpetradores de assassínios de crianças no Canadá demonstrou-se ser ainda mais extremo que a sua sobre-representação como perpetradores de abusos não-letais a crianças. Como relatamos num artigo na Science em 1988, era aproximadamente setenta vezes mais provável que um pai adoptivo co-residente matasse uma criança com menos de dois anos de idade, que um pai genético co-residente, e esta odds-ratio ainda era quinze para vítimas adolescentes.
As evidências emergentes de varias nações
Nós agora sabemos que a história na Grã-Bretanha é mais ou menos a mesma que na América do Norte: os pais adoptivos estão extremamente sobre-representados como perpetradores de abusos a crianças registados e ainda mais como assassinos de crianças. De acordo com um relatório produzido pela Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade às Crianças, intitulado Child Abuse Trends in England & Wales 1983-1987, trinta e dois por cento das 4.037 vítimas de agressões físicas intencionalmente infligidas nesse período de cinco anos viviam com um pai natural e um pai substituto, enquanto que uma amostra de crianças com a mesma distribuição de idades, tirada ao acaso da população em geral, teria produzido somente três por cento. Ao contrário da situação na América do Norte, as famílias adoptivas no Reino Unido tendem a ter rendimentos ligeiramente menores que famílias com os dois progenitores genéticos, portanto o excesso de pais adoptivos pode neste caso ser parcialmente um artefacto das diferenças económicas. Contudo, quando o rendimento familiar foi controlado, as crianças em famílias adoptivas permaneceram dezanove vezes com maior probabilidade de serem registadas como vítimas de agressões não acidentais infligidas por pessoas que as têm ao seu cuidado do que crianças em casas com os dois progenitores genéticos.
No caso de assassínio de crianças, existia um relatório pertinente datado de antes de começarmos a nossa própria investigação. Em 1973, o psiquiatra forense P. D. Scott resumiu a informação numa amostra de “casos de bebés agredidos fatalmente” cometidos sob um acesso de cólera por homens britânicos in loco paternis , e, apesar do facto das vítimas terem em média somente quinze meses de idade, quinze dos vinte e nove assassinos – cinquenta e dois por cento – pais adoptivos. Scott não tentou converter estes números em proporções ou odd ratios , mas informação pertinente da população em geral pode agora ser derivada de um estudo maior de um grupo nascido em 1970, e resultou que seria de esperar que menos de um por cento de uma amostra de crianças com a mesma distribuição de idades que os bebés fatalmente agredidos tivesse um pai adoptivo. Neste caso, as odd ratios para este tipo particular de agressão letal praticada pelos pais adoptivos versus genéticos era aproximadamente 150.
Parecia provável, a partir de ambas as evidências destas agressões a bebés e da nossa hipótese com propensão para a evolução sobre a relutância e ressentimento dos pais adoptivos, que o excesso de risco dos pais adoptivos pode ser especialmente severo em relação a acessos de fúria. As crianças pequenas são afinal aborrecidas: elas choram e sujam-se e por vezes recusam ser consoladas. Uma pessoa que cuida de crianças com sentimento, amor individualizado para com um bebé que grita é motivado a aliviar afectuosamente a sua angústia, mas uma pessoa que cuida de crianças que está simplesmente a desempenhar um papel sem cometimento emocional – e que pode preferir que a criança nunca tenha nascido – está apto a responder de outra forma.
Filicídios por pais genéticos certamente ocorrem. Em números absolutos, na realidade, eles excedem os casos perpetrados por pais adoptivos, no entanto, os últimos ocorrem em proporções per capita mais elevadas. Mas os casos não são semelhantes. O Serviço do Lar (Nome Office) mantém um arquivo de dados sobre homicídios em Inglaterra e no País de Gales, caso a caso, semelhante ao arquivo canadiano mencionado acima. Apesar da informação nestes arquivos ser escassa, consistindo somente de códigos numéricos de um número de variáveis padrão, esta ainda se mostra reveladora com respeito às características de assassínios por pais genéticos versus adoptivos. Limitando a nossa pesquisa a casos nos quais as vítimas tinham menos de cinco anos de idade, para excluir toda e qualquer possibilidade de combate mútuo ou defesa própria por parte do assassino, nós encontramos um padrão semelhante em ambos os países: sabe-se que aproximadamente oito por cento dos pais adoptivos homicidas bateram repetidamente eram pontapés ou mocadas nas suas vítimas até à morte. Enquanto a maioria dos que mataram a sua descendência genética fizeram-no por meios menos agressivos. Além do mais, no decorrer de dezassete anos de dados canadianos e catorze anos de dados britânicos, setenta e três dos 390 homens que mataram os seus próprios filhos fizeram-no no contexto de um suicídio completo bem sucedido, quando comparados com os somente três dos 197 que mataram os filhos adoptivos. Existem também evidências que condições psiquiátricas diagnosticadas são prevalecentes entre aqueles que matam os seus filhos genéticos, mas não nos que matam os filhos adoptivos. Resumindo, pais genéticos filicídas de ambos os sexos estão frequentemente em estado de depressão profunda, têm maior probabilidade de matar os seus filhos enquanto eles dormem, e podem ainda explicar o assassínio-suicídio como um acto humano de salvar do mundo cruel, enquanto que os pais adoptivos homicidas raramente são suicidas e manifestam tipicamente a sua antipatia para com as suas vítimas na brutalidade relativa dos seus actos letais.
Nos últimos anos, várias linhas de evidência de uma variedade de países têm mostrado que os maus tratos a crianças por parte de pais adoptivos está amplamente distribuído. No Novo Sul do País de Gales, Austrália, por exemplo, tem-se descoberto que os pais adoptivos estão ainda mais sobre-representados como perpetradores de repetidas agressões a bebés que no Canadá, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Na Finlândia, um relatório de 1966 de um estudo de questionário a 9.000 raparigas por volta dos quinze anos de idade indicou que 3,7 por cento delas, actualmente vivendo com um pai adoptivo reivindicaram que ele tinha abusado sexualmente delas, comparados com os 0,2 por cento das raparigas vivendo com os pais genéticos. (O único caso de contacto sexual 'mãe-filho' neste estudo, incidentalmente, envolveu um rapaz de quinze anos e a sua mãe adoptiva de 26 anos; em contraste com as raparigas, das quais todas consideraram o contacto sexual com os pais adoptivos ou pais eversivos, “o rapaz descreveu a experiência como positiva”). Crianças coreanas em idade escolar vivendo ou com um pai adoptivo ou com uma mãe adoptiva parecem ser vítimas de agressões em proporções muito mais elevadas que as com os dois pais genéticos. Estudos recentes em Hong Kong, Nigéria, Japão e Trinidade ilustram quadros semelhantes.
Tem-se também tornado claro que os riscos associados com o facto de ser um filho adoptivo não são produtos novos da idade moderna. Usando arquivos históricos do século XVII ao XIX, o antropólogo alemão Eckart Voland mostrou que as histórias da Cinderela eram mais que meros contos de fadas para os camponeses europeus. Voland descobriu que a mortalidade específica da idade das crianças frísias pré-modernas era elevada como consequência da morte de ambos os pais, e mais impressionante, que o risco de morte era ainda mais elevado se o pai sobrevivente tornasse a casar.
Nas sociedades dos nossos antepassados, uma poderosa autoridade central e serviços sociais para além da assistência a parentes não existiam, e a situação para as crianças adoptadas era provavelmente ainda pior que nas sociedades de camponeses. De acordo com um estudo sobre caçadores-recolectores sul-americanos contemporâneos, os Aché do Paraguai, quarenta e três por cento das crianças criadas pela mãe e por um pai adoptivo morrem antes de terem atingido os quinze anos de idade, comparados com os dezanove por cento das criadas pelos dois pais genéticos; aparentemente, mortes por agressão e mortes por deprivação dos cuidados adequados eram ambas elevadas. As sociedades de caçadores-recolectores fornecem o nosso melhor modelo das circunstâncias sociais nas quais o animal humano evolui e às quais a nossa psique está adaptada. Nós hipotetizamos que tem sido uma característica geral de tais sociedades que as crianças adoptadas estão de várias maneiras em desvantagem – como estão nos Aché – e não sabemos de qualquer evidência contrária.
(“A Verdade sobre Cinderela – Uma Visão Darwiniana do Cuidado Parental”, Martin Daly e Margo Wilson. Quarteto. 2001)
Em pleno início do século XX, Rafael Bordalo Pinheiro lançou o jornal “A Paródia” e, com ele, uma série de caricaturas zoopolíticas, em que os grandes vícios da política e das instituições nacionais eram transfigurados em animais. Não terá sido agradável o retrato implacável do caricaturista para os alvos de então, mas cem anos depois, Bordalo é aplaudido e alvo de efemérides. Justíssimas, convenhamos.
Cem anos depois, há quem também se tenha inspirado na caricatura zoopolítica para expressar a sua crítica e a sua revolta. E, cem anos depois, aqueles que certamente aplaudem Bordalo e apoiam efemérides, falam de mau gosto, de agressividade, de “bullying” – palavras do Ministro da Educação, João Costa, de “racismo” – palavras do Primeiro Ministro, António Costa. Louvar Bordalo, no presente, é fácil e fica bonito, não lhe sentiram as ferroadas… agora que as sentem, invocam o mau gosto e rasgam as vestes do moralismo. Eles e aqueles que deveriam ser os primeiros a reconhecerem as causas dessa agressividade e revolta… sim, Fenprof, falo contigo.
Os cartazes não são bonitos? Não, não são… mas também não acho a “A Grande Porca” do Bordalo bonita, nem esteticamente nem na mensagem: eu também não quero ver a política como a “Grande Porca”, antes não o fosse. Mas, então, atacam a forma, e não a substância? O que não é bonito é ouvir ambos os Costas a apresentarem medidas danosas para os professores e para o futuro da Escola em Portugal como se fossem rebuçados dados a crianças conflituosas. O que não é bonito é a revolta legítima de professores que, anos a fio, são maltratados pelo poder político, que muda constantemente regras de colocação, de progressão, de avaliação, retirando cada vez mais a dignidade de uma função que deveria ser das mais prestigiadas, para poder assim atrair bons alunos e garantir o futuro da Escola. O que não é bonito é o sofrimento dos professores e das suas famílias, idosos dependentes, filhos dependentes, a cada fim de semana de partida para longe, sem esperança à vista. O que não é bonito é o Primeiro Ministro falar de “racismo”, apelando à piedade de quem ouve, usando conscientemente o argumento polémico, sem sequer ter fundamento para o fazer, em vez de perceber que essa agressividade só se explica pelo desespero. Esse desespero é que não é bonito e só esse releva, só esse importa e só esse deve ser assunto.
A grande caricatura, tal como a grande literatura, tem a capacidade de se atualizar, porque afinal, e lamentavelmente, o Homem pouco muda. E há tempos de maior e menor liberdade para fazer caricatura. O Eça também falou de políticos e de fraldas, poderemos nós fazê-lo também? Ou será melhor começar já a cancelar estes inspiradores nefastos?
Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).
Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.
Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!
Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!
(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!
Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!
(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)
Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!
Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.
Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!
Londres, 1914 — Junho.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
* Três versos do poema “Ode Triunfal”, de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), contendo linguagem obscena, foram apagados do manual de português “Encontros” e substituídos por linhas a tracejado. No entanto, editora diz que "não há qualquer censura à obra de Fernando Pessoa, apenas e tão somente uma preocupação didático-pedagógica". Fonte
(A oposição reclamava a demissão do ministro…, mas do governo PSD/PP, estávamos em 2012. Miguel Relvas viu-se envolvido em polémica quando foi conhecido que a sua licenciatura foi conseguida através da concessão de 160 créditos; um segundo caso marcante foi o caso das “Secretas”, que foi espoletado por uma notícia do “Público”, onde o jornal avançava que Miguel Relvas teria recebido um “e-mail” do ex-director do SIED, Jorge Silva Carvalho, com propostas de nomes para as secretas. Outro caso foi o nome de Miguel Relvas ter sido associado a alegadas pressões ao jornal “Público”, ameaçando com boicote de todos os membros do Governo ao jornal e divulgação de detalhes da vida privada da jornalista Maria José Oliveira).
A crónica era a seguinte:
Demissão ou não demissão, eis a questão. A esta, por exemplo, o secretário-geral da CGTP, em vez do PCP e não só, exige a demissão do ministro Relvas, porque o “caso Relvas/Público” é um "mau sinal" para a democracia portuguesa. Assim a dita “oposição de esquerda” sintetiza o “tão polémico” caso de ingerência e pressão, quanto à liberdade de expressão, sobre a pessoa da jornalista do jornal que é propriedade de um dos maiores capitalistas nacionais e que, apesar de dar prejuízo, o tem mantido a fim de “fazer” opinião.
Quanto ao governo não se trata de demitir este ou aquele ministro mais mafioso ou mais ignorante, mas de todo o governo pela razão da sua política. Substituir o ignorante e desastrado ministro do pastel de nata, ultimamente também conhecido pelo ministro do “coiso”, e/ou prescindir dos préstimos mafiosos do ministro Relvas, e/ou demitir ou diminuir os poderes do Gasparzinho, super-ministro das Finanças e apontado como um novo Salazar já que o percurso é bastante semelhante, não vai alterar o caminho ou a política deste governo fascista, que tem sido o melhor comité dos negócios dos banqueiros e o mais vendido aos interesses estrangeiros até hoje constituído.
O problema resolve-se com a demissão, ou, melhor ainda, com o derrube de todo o governo e realização de novas eleições. A política de austeridade contra ao povo irá intensificar-se, estando aí os comissários da troika a aplaudir o que se tem feito, mais o Conselho das Finanças Públicas (CFP) a alertar que as previsões feitas pelo governo “parecem basear-se em hipóteses excessivamente optimistas” (o défice do subsector estado atingiu, em Abril, os 3059 milhões de euros, mais 600 do que no mesmo período de 2011, por força da diminuição da receita fiscal e aumento da despesa), e mais as previsões pessimistas da OCDE que adiantam que Governo terá de implementar novas medidas de austeridade, para além, como é obvio, das que já estão previstas no programa da troika. O caminho que estamos agora a trilhar será o mesmo seguido até ao momento pelo povo grego, levamos apenas algum tempo de atraso, contudo não demorará muito para o alcançar e até para o ultrapassar. Dêem tempo ao tempo, como se costuma dizer.
Por outro lado, pouco interessa saber quem pressiona quem. Se, de um lado, se encontra um ministro mafioso, considerado o homem forte do governo na medida em que aparente ser o mais influente, com ligações à maçonaria e ao mundo dos negócios; do outro, temos uma imprensa ao serviço do grande capital económico privado, que constantemente falsifica a realidade, nomeadamente quanto à natureza e responsabilidade da presente crise económica e financeira, que sempre cala a voz dos mais explorados e que é, quanto muito, objecto de tentativa de controlo por parte do governo que, à semelhança dos anteriores “socialistas”, não gosta de vozes discordantes.
Este caso, bem como o outro “caso das secretas” com que está relacionado, apenas revela as contradições e as disputas entre as diversas facções da classe dominante que se digladiam entre si pela repartição do bolo, resultante da exploração dos trabalhadores e do saque dos bens públicos, utilizando no conflito os próprios meios e instrumentos do estado, como são os diversos serviços secretos de espionagem que, por serem perfeitamente dispensáveis numa perspectiva dos interesses do povo português, há muito que deveriam ter sido extintos.
Nenhum dos contendores se interessa pelos problemas dos que trabalham e nem pela verdade dos factos, estes são quase sempre “adaptados” aos interesses ou do poder económico, ou do poder político. Perante esta realidade, não deixa de ser curioso que pessoas, como o secretário-geral da CGTP e outros que pululam pela área da opinação de capa mais “democrática”, se preocupem com esta democracia que nunca deu nada aos trabalhadores e por tricas que, em termos mediáticos, visam distrair a atenção dos que verdadeiramente são obrigados a pagar a crise e pela qual não são responsáveis nem contribuíram minimamente.
A única responsabilidade destes últimos é ainda não terem espatifado com este sistema de exploração e terem acreditado nesta democracia do faz de conta, que serve para encobrir uma realidade bem mais crua, a vida dos que sofrem os baixos salários, a precariedade, as reformas de miséria, o desemprego e a terminal exclusão social, ou seja, todos os deserdados de uma sociedade em profunda convulsão.
24 de Maio 2012
Sinopse dos casos de Miguel Relvas:
Miguel Relvas viu-se envolvido em polémica quando foi conhecido que a sua licenciatura foi conseguida através da concessão de 160 créditos, ou seja, teve equivalência a 32 das 36 cadeiras, o que significa que teve equivalências a 90% das cadeiras do curso de Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Lusófona, em 2006;
Um segundo caso marcante foi o caso “Secretas”, que foi espoletado por uma notícia do “Público”, onde o jornal avançava que Miguel Relvas teria recebido um “e-mail” e algumas mensagens escritas do ex-director do Sistema de Informações Estratégicas e de Defesa (SIED), Jorge Silva Carvalho, com propostas de nomes para as secretas. Estas propostas foram enviadas depois das eleições legislativas de 2011, altura em que Jorge Silva Carvalho já pertencia à empresa Ongoing.
O nome de Miguel Relvas ficou também associado ao caso das alegadas pressões ao jornal “Público”. O ministro demissionário terá ameaçado promover um boicote de todos os membros do Governo ao jornal e divulgar detalhes da vida privada da jornalista Maria José Oliveira. Em causa estaria a publicação de uma notícia que detalhava algumas contradições de declarações proferidas na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias sobre o caso das “secretas”.
Uma das mais recentes polémicas que envolveu o “braço direito” de Passos Coelho foi quando o jornal “Público” noticiou que a empresas Tecnoforma, gerida pelo actual primeiro-ministro, teria beneficiado de financiamentos através do programa Floral, que era da competência de Miguel Relvas – na altura secretário de Estado da Administração Local no Executivo liderado por Durão Barroso.
LA COGIDA Y LA MUERTE A las cinco de la tarde. Eran las cinco en punto de la tarde. Un niño trajo la blanca sábana a las cinco de la tarde. Una espuerta de cal ya prevenida a las cinco de la tarde. Lo demás era muerte y sólo muerte a las cinco de la tarde.
El viento se llevó los algodones a las cinco de la tarde. Y el óxido sembró cristal y níquel a las cinco de la tarde. Ya luchan la paloma y el leopardo a las cinco de la tarde. Y un muslo con un asta desolada a las cinco de la tarde. Comenzaron los sones del bordón a las cinco de la tarde. Las campanas de arsénico y el humo a las cinco de la tarde. En las esquinas grupos de silencio a las cinco de la tarde. ¡Y el toro, solo corazón arriba! a las cinco de la tarde. Cuando el sudor de nieve fue llegando a las cinco de la tarde, cuando la plaza se cubrió de yodo a las cinco de la tarde, la muerte puso huevos en la herida a las cinco de la tarde. A las cinco de la tarde. A las cinco en punto de la tarde.
Un ataúd con ruedas es la cama a las cinco de la tarde. Huesos y flautas suenan en su oído a las cinco de la tarde. El toro ya mugía por su frente a las cinco de la tarde. El cuarto se irisaba de agonía a las cinco de la tarde. A lo lejos ya viene la gangrena a las cinco de la tarde. Trompa de lirio por las verdes ingles a las cinco de la tarde. Las heridas quemaban como soles a las cinco de la tarde, y el gentío rompía las ventanas a las cinco de la tarde. A las cinco de la tarde. ¡Ay qué terribles cinco de la tarde! ¡Eran las cinco en todos los relojes! ¡Eran las cinco en sombra de la tarde!
ESTE É O PRÓLOGO Deixaria neste livro toda a minha alma. este livro que viu as paisagens comigo e viveu horas santas.
Que pena dos livros que nos enchem as mãos de rosas e de estrelas e lentamente passam!
Que tristeza tão funda é olhar os retábulos de dores e de penas que um coração levanta!
Ver passar os espectros de vida que se apagam, ver o homem desnudo em Pégaso sem asas,
ver a vida e a morte, a síntese do mundo, que em espaços profundos se olham e se abraçam.
Um livro de poesias é o outono morto: os versos são as folhas negras em terras brancas,
e a voz que os lê é o sopro do vento que lhes incute nos peitos - entranháveis distâncias.
O poeta é uma árvore com frutos de tristeza e com folhas murchas de chorar o que ama.
O poeta é o médium da Natureza que explica sua grandeza por meio de palavras.
O poeta compreende todo o incompreensível e as coisas que se odeiam, ele, amigas as chamas.
Sabe que as veredas são todas impossíveis, e por isso de noite vai por elas com calma.
Nos livros de versos, entre rosas de sangue, vão passando as tristes e eternas caravanas
que fizeram ao poeta quando chora nas tardes, rodeado e cingido por seus próprios fantasmas.
Poesia é amargura, mel celeste que emana de um favo invisível que as almas fabricam.
Poesia é o impossível feito possível. Harpa que tem em vez de cordas corações e chamas.
Poesia é a vida que cruzamos com ânsia, esperando o que leva sem rumo a nossa barca.
Livros doces de versos sãos os astros que passam pelo silêncio mudo para o reino do Nada, escrevendo no céu suas estrofes de prata.
Oh! que penas tão fundas e nunca remediadas, as vozes dolorosas que os poetas cantam!
Deixaria neste livro toda a minha alma...
Imagem de destaque: Auto-retrato de Federico Garcia Lorca em Nova York, anos 30.
Federico García Lorca, nasceu m Fuentevaqueros (Granada) em 5 de Junho de 1898 e morreu assassinado em Viznar (Granada), uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola, em 19 de Agosto de 1936. Foi dotado de uma personalidade extraordinariamente voltada para a arte. Além de ser um grande poeta, teve também alguns pendores musicais, tendo feito, ainda, alguns desenhos. É Garcia Lorca, com certeza, o poeta espanhol mais conhecido universalmente, só perdendo para Cervantes no número de edições e traduções de suas obras.