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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

Vietname: Conferência de Genebra de 1954 - Gloriosa Vitória da Diplomacia Vietnamita

20.07.24 | Manuel

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Por Li Hoa & Minh Châm

Há exactamente 70 anos, no dia 20 de Julho de 1954, foi assinado o Acordo de Genebra sobre a restauração da paz no Vietname. Pela primeira vez na história, a França e as grandes potências tiveram de reconhecer a independência, a soberania e a integridade territorial do Vietname, do Laos e do Camboja. Esta é a vitória da firme luta diplomática do Vietname, cheia de coragem e confiança para defender a justiça e os interesses da nação.

A Conferência de Genebra sobre a Cessação dos Combates e a Restauração da Paz na Indochina foi realizada a 8 de maio de 1954, imediatamente após a chocante vitória em Dien Bien Phu, de acordo com uma resolução adotada pelo Quarteto Internacional composto pelos Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha e França, sobre a questão da Coreia do Norte e a guerra na Indochina. O secretário do falecido vice-primeiro-ministro Pham Van Dong, chefe da delegação negociadora do governo da República Democrática do Vietname, Tran Viet Phuong, disse que a Conferência de Genebra sobre a Indochina é uma reunião de grandes países com interesses diferentes.

Grande pressão nas conversações

A jovem diplomacia vietnamita participou num fórum de negociações multilateral e complicado que incluiu 9 delegações oficiais, cada uma tentando alcançar os seus próprios objetivos. A delegação da República Democrática do Vietname enfrentou muitas pressões e dificuldades durante os 75 dias de negociações e contactos diplomáticos. Tran Viet Phuong recordou: “No processo de negociação, o chefe da nossa delegação, Pham Van Dong, trabalhou arduamente para alcançar a vitória.  Na última sessão, todos os delegados manifestaram a sua satisfação pelos resultados obtidos. Entreolharam-se na mesa de negociações. Apenas o Vice-Primeiro-Ministro Pham Van Dong olhou numa direcção diferente, mostrando o seu descontentamento porque a delegação do Governo vietnamita fez todos os esforços, mas apenas alcançou metade dos objectivos definidos. Ele sabia que a luta do povo vietnamita era ainda muito longa e árdua”.

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 O experiente diplomata e especialista militar, Ha Van Lau

O experiente diplomata Ha Van Lau, juntamente com o então vice-ministro da Defesa, Ta Quang Buu, foram encarregados de preparar projetos militares para pôr fim à guerra. Disse que no ambiente muito tenso destas negociações, a delegação vietnamita aproveitou todos os métodos para combater o inimigo. Com a vitória estrondosa no campo de batalha de Dien Bien Phu, para além da inteligência e firmeza de proteger a “independência, a reunificação e a integridade territorial”, o Vietname obrigou as partes a assinar o Acordo de Genebra. Ha Van Lau disse: “O momento mais importante e memorável no processo de negociação foi a 19 de julho, quando as partes debateram a questão da linha de latitude. O nosso objectivo ao participar nesta conferência foi acabar com a guerra, restaurar a paz e exigir que os países respeitassem a independência, a soberania e a integridade vietnamitas. Quando o acordo foi assinado, significa que conseguimos recuperar esses direitos.”

Vitória na batalha diplomática

Após 75 dias de negociações com 31 sessões e reuniões bilaterais e multilaterais, à meia-noite do dia 20 de julho de 1954, foi assinado o Acordo de Genebra sobre a paz no Vietname. A França e outros países participantes na Conferência reconheceram os direitos fundamentais do Vietname, incluindo a independência, a soberania, a reunificação nacional e a integridade territorial. No entanto, o Vietname foi temporariamente dividido em duas regiões.

 

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O então vice-ministro da Defesa do Vietname, Ta Quang Buu apresenta planos militares para acabar com a guerra

Com mais de 40 anos de experiência, o antigo vice-primeiro-ministro Vu Khoan afirmou que as conversações de Genebra representaram uma luta diplomática firme e persistente, mas também com métodos suaves e flexíveis, dependendo da correlação de forças. Nesta conjuntura, a República Democrática do Vietname decidiu optar por uma trégua e aceitar uma solução diplomática, facilitando assim a grande ofensiva e a revolta geral para libertar e reunificar o país 21 anos depois. “Lutamos com todas as nossas forças. Desde o início que não aceitámos o paralelo 17 como fronteira para dividir as duas regiões. Foi o vice-primeiro-ministro Pham Van Dong que fez várias propostas para negociar do paralelo 13, 14 ao 16, de forma a alcançar condições mais favoráveis ​​para a revolução. No entanto, devido à correlação de forças da época e à relação entre as grandes potências, tivemos de aceitar o acordo final para tomar temporariamente o paralelo 17 como a demarcação norte-sul.

Após a retumbante vitória de Dien Bien Phu, o Acordo de Genebra sobre a paz do Vietname é considerado o primeiro triunfo muito importante da diplomacia vietnamita que criou a premissa e a base jurídica para a longa resistência do povo. Esta vitória até agora mantém intactos os seus valores, pois demonstrou as aspirações de paz, amizade e hospitalidade do povo vietnamita, bem como a retidão do pensamento diplomático do Presidente Ho Chi Minh, segundo o qual a paz deve estar associada à independência, liberdade, soberania e integridade territorial do país.

Fonte

Mandela: um legado contraditório

18.07.24 | Manuel

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"Para muito além da santificação do grande líder, algum dia, uma África do Sul emancipada saberá reconhecer e superar os limites deste legado contraditório."

Publicado em 09/12/2013 

Por Ruy Braga.

O grande símbolo da resistência ao apartheid racial morreu no dia 5 de dezembro passado. Quando penso em Nelson Mandela logo me vem à mente a icônica imagem do dia de sua libertação. Após 27 anos de encarceramento, emergiu um sorridente herói do povo, cumprimentando com seu punho direito erguido a massa que o acolheu como o incontestável guardião dos sonhos de sua emancipação. É difícil descrever a sensação que tive quando assisti pela TV esta cena. Foi um momento glorioso daquilo que Walter Benjamin chamou de “tradição dos oprimidos”: subitamente, o caudaloso fluxo da dominação detém-se por um instante, deixando antever a ainda nebulosa fisionomia da liberdade vindoura.

Fora da prisão, Mandela liderou a negociação estabelecida com o Estado fascista que sepultou o apartheid racial. O empenho pacificador demonstrado durante a transição democrática garantiu-lhe o prêmio Nobel da Paz de 1993. Por isso, pode parecer fácil escrever sobre ele. Bastaria, por exemplo, elogiar sua sublime disposição de perdoar os opressores brancos. Aliás, é exatamente isso que tem feito toda a imprensa mundial. No entanto, gostaria de destacar um outro ângulo, ou seja, o projeto político que, ao sair da prisão, ele afiançou. No final dos anos 1980, tão logo o Partido Nacional, com o domínio dos africânderes no governo, percebeu que iria ser derrotado pela resistência mais ou menos inorgânica de toda a sociedade civil sul-africana, iniciou-se um processo de negociação entre os fascistas e o maior partido anti-apartheid, isto é, o Congresso Nacional Africano (ANC). Ao longo de alguns poucos anos, o pacto social que deu origem à nova África do Sul foi urdido.

Conforme os termos do acordo, as tradicionais classes dominantes brancas manteriam o domínio e a propriedade de todos os setores econômicos estratégicos, transferindo progressivamente para o ANC o controle do aparelho de Estado. Enquanto os ativos financeiros das principais empresas do país migravam para Londres em um avassalador movimento de fuga de capitais que acentuou a dominação econômica branca, o Partido Comunista Sul-Africano (SACP), o Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu) e o ANC formavam a coalizão conhecida como “Aliança Tripartite” que se transformou em uma poderosa máquina eleitoral, criando as condições para o estabelecimento de uma durável hegemonia alicerçada na “fusão” das principais forças anti-apartheid com o aparelho estatal.

Assim, sedimentou-se, em 1996, um modelo de (sub-)desenvolvimento capaz de combinar uma agenda neoliberal conhecida como “Growth, Employment and Redistribution” (GEAR) com algumas reformas pontuais cujo produto mais saliente foi a exacerbação das desigualdades de raça, de gênero e de classe social.1 A partir de então, privatizações, cortes de gastos estatais e moderação salarial, combinaram-se com, por exemplo, a incorporação dos negros ao sistema público de saúde… O apartheid racial foi substituído por um apartheid social alimentado pela exploração da maioria dos trabalhadores negros. Mandela foi o grande fiador desta “revolução passiva”. Apenas um negro educado vivendo em um país dominado por brancos, um príncipe xhosa vivendo em um país de maioria zulu, um líder mundialmente admirado vivendo em um país carente de aceitação internacional, poderia dirigir este processo.

Após a transição para a democracia parlamentar, o ANC lançou, no início dos anos 2000, o Black Economic Empowerment, programa conhecido como “BEE”. Tratava-se de um programa para diminuir as disparidades sócio-econômicas existentes entre os diferentes grupos raciais por meio da incorporação de negros e de não brancos ao staff administrativo das empresas sul-africanas. Com essa política, o país testemunhou o surgimento de uma afluente elite econômica negra, conhecida como “Black Diamonds”, que acumulou imenso poder e riqueza devido à intimidade com o governo. Assim, ex-militantes sindicais comunistas tornaram-se sócios de empresas de mineração e ex-lideranças do ANC transformaram-se em mega-investidores financeiros. Dispensável dizer que escândalos de corrupção envolvendo altos executivos e políticos tornaram-se usuais.

Uma expressão curiosa surgiu para descrever a atual estrutura classista da África do Sul: “sociedade cappuccino”. Trata-se de uma menção à existência de uma larga base negra sobre a qual repousa uma “espuma” branca encimada por uma finíssima camada de chocolate em pó. O resultado? Da 90º posição no ranking da desigualdade, em 1994, ano da eleição presidencial de Mandela, a África do Sul ocupa atualmente a 121º posição. Não admira que neste tipo de sociedade tensões étnicas e sociais descambem rapidamente para a violência xenofóbica: a taxa de criminalidade do país está entre as 15 piores do mundo e a expectativa de vida da população é de apenas 53 anos.2

Ano passado, ao trocar alguns dólares no aeroporto de Johannesburgo percebi que a efígie de Mandela estampava as novas cédulas de rands. O “Pai da Pátria” aparecia sorrindo discretamente em todas as notas, não importando o valor. “A revolução passiva sul-africana está concluída”, pensei… No caminho para o hotel, fui informado que 36 mineiros haviam sido barbaramente assassinados há pouco pela polícia no acampamento de Marikana, nas cercanias de Rustemburgo, durante uma greve. Também soube que, em uníssono, a Aliança Tripartite estava improvisando argumentos a fim de justificar o massacre. Separadas por apenas 180 km, a distância entre Marikana e Sharpeville não poderia ser maior…

Tudo isso faz parte da herança deixada pelo maior símbolo da resistência ao apartheid racial. Como decifrá-la? Em 1963, ao ser condenado à morte no Julgamento de Rivonia, Mandela era um homem disposto a arriscar a própria vida pela libertação de seu povo. Por ser o comandante em chefe da ala armada de seu partido ele ficou quase três décadas encarcerado e merece nosso mais profundo respeito. No entanto, é necessário reconhecer que, na atual luta contra o apartheid social, os trabalhadores negros sul-africanos enfrentam sozinhos uma hegemonia deletéria que Mandela não economizou esforços para fortalecer. Para muito além da santificação do grande líder, algum dia, uma África do Sul emancipada saberá reconhecer e superar os limites deste legado contraditório.

Notas:

1 Ver Patrick Bond, The Elite Transition: From Apartheid to Neoliberalism in South Africa, Pluto Press, 2000.
2 Ver Karl von Holdt et alii, The smoke that calls: Insurgent citizenship and the struggle for a place in the new South Africa, Society, Work and Development Institute, 2011. 

Fonte

O Velho Mal

15.07.24 | Manuel

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Por Chris Hedges

RAMALLAH, Palestina Ocupada: Regressa apressadamente, o fedor do esgoto bruto, o gemido do gasóleo, os veículos blindados de transporte de pessoal israelitas preguiçosos, as carrinhas cheias de ninhadas de crianças, conduzidas por colonos de rosto calcário, certamente não daqui, provavelmente de Brooklyn ou de algum lugar na Rússia ou talvez na Grã-Bretanha. Pouca coisa mudou. Os  postos de controlo  com bandeiras israelitas azuis e brancas pontilham as estradas e os cruzamentos. Os telhados vermelhos dos colonatos – ilegais ao abrigo do direito internacional – dominam as encostas acima das aldeias e cidades palestinianas. Cresceram em número e expandiram-se em tamanho. Mas continuam protegidos por barreiras anti-explosão, arame farpado e torres de vigia rodeadas pela obscenidade de relvados e jardins. Os colonos têm acesso a abundantes fontes de água nesta paisagem árida que é  negada aos palestinianos. 

O sinuoso muro de betão de 26 pés de altura que percorre os 700 quilómetros de extensão da Palestina ocupada, com os seus graffitis a pedir libertação, murais com a mesquita de Al-Aqsa, rostos de mártires e o rosto sorridente e barbudo de Yasser Arafat – cujas concessões a Israel no acordo de Oslo fez dele, nas  palavras  de Edward Said, “o Pétain dos Palestinianos” – dando à Cisjordânia a sensação de uma prisão ao ar livre. O muro dilacera a paisagem. Gira e rodopia como uma enorme cobra antediluviana fossilizada separando os palestinianos das suas famílias, cortando aldeias palestinianas ao meio, isolando as comunidades dos seus pomares, oliveiras e campos, mergulhando e subindo dos  wadis , prendendo os palestinianos na versão atualizada do Estado Judeu. de um  bantustão.

Já passaram mais de duas décadas desde que fiz reportagens a partir da Cisjordânia. O tempo entra em colapso. Os cheiros, as sensações, as emoções e as imagens, a cadência cadenciada do árabe e o miasma de morte súbita e violenta que espreita no ar, evocam o mal antigo. É como se nunca tivesse saído.  

Estou num Mercedes preto surrado, conduzido por um amigo de trinta e poucos anos, cujo nome não direi para o proteger. Trabalhou na construção civil em Israel, mas perdeu o emprego – como quase todos os palestinianos empregados em Israel – no dia 7 de outubro. Ele está a lutar. As suas economias diminuíram. Está a tornar-se difícil comprar alimentos, pagar eletricidade, água e gasolina. Ele sente-se sitiado. Ele  está  cercado. Ele tem pouca utilidade para a   Autoridade Palestiniana traidora . Ele não gosta do Hamas. Ele tem amigos judeus. Ele fala hebraico. O cerco está a oprimi-lo e a todos ao seu redor.

“Mais uns meses assim e terminamos”, diz, fumando um cigarro nervosamente. “As pessoas estão desesperadas. Cada vez mais pessoas passam fome.”

Seguimos pela estrada sinuosa que abraça a areia estéril e as encostas arbustivas que serpenteiam desde Jericó, subindo do Mar Morto, rico em sal, o ponto mais baixo da terra, até Ramallah. Encontrar-me-ei com o meu amigo, o romancista Atef Abu Saif, que esteve em Gaza no dia 7 de Outubro com o seu filho de 15 anos, Yasser. Estavam de visita a familiares quando Israel iniciou a sua campanha de terra queimada. Passou 85 dias a resistir e a escrever diariamente sobre o pesadelo do  genocídio. A sua coleção de entradas de diário assustadoras foi  publicada  no seu livro “Don’t Look Left”. Escapou  à carnificina através da fronteira com o Egito em Rafah, viajou para a Jordânia e regressou a casa, em Ramallah.  Mas as cicatrizes do genocídio permanecem. Yasser raramente sai do quarto. Não se envolve com os seus amigos. O medo, o trauma e o ódio são os principais produtos transmitidos pelos colonizadores aos colonizados.

“Ainda vivo em Gaza”, disse-me Atef mais tarde. “Eu não estou fora. Yasser ainda ouve bombardeamentos. Ainda vê cadáveres. Ele não come carne. A carne vermelha faz-lhe lembrar a carne que apanhou quando se juntou às equipas de resgate durante o  massacre  em Jabalia, e a carne dos seus primos. Durmo num colchão no chão, como fazia em Gaza, quando vivíamos numa tenda. Eu fico acordado. Penso naqueles que deixámos para trás à espera da morte súbita.”

Viramos uma esquina numa encosta. Os carros e os camiões estão a virar espasmodicamente para a direita e para a esquerda. Vários à nossa frente estão em marcha-atrás. À frente está um posto de controlo israelita com grossos blocos de betão de cor castanha. Os militares estão a parar veículos e a verificar documentos. Os palestinianos podem esperar horas para passar. Podem ser retirados dos seus veículos e detidos. Tudo é possível num posto de controlo israelita, muitas vezes erguido sem aviso prévio. A maior parte não é boa.

Nós recuámos. Descemos por uma estrada estreita e poeirenta que se afasta da auto-estrada principal. Viajamos por trilhos acidentados e irregulares através de aldeias empobrecidas.

Foi assim com os negros do sul segregado e com os indígenas americanos. Foi assim para os argelinos sob o domínio francês. Foi assim na Índia, na Irlanda e no Quénia sob o domínio britânico. A máscara mortuária – muitas vezes de origem europeia – do colonialismo não se altera. Nem a autoridade divina dos colonos que olham para os colonizados como vermes, que têm um prazer perverso na sua humilhação e sofrimento e que os matam impunemente. 

O funcionário da alfândega israelita fez-me duas perguntas quando atravessei a Palestina ocupada vindo da Jordânia através da Ponte Rei Hussein. 

“Possui passaporte palestino?” 

“Algum dos seus pais é palestiniano?” 

Resumindo, está contaminado?

É assim que  funciona o apartheid.

Os palestinianos querem as suas terras de volta. Então falarão de paz. Os israelitas querem a paz, mas exigem terras palestinianas. E é essa, em três frases curtas, a natureza intratável deste conflito.

Vejo Jerusalém ao longe. Ou melhor, vejo a colónia judaica que se alinha nas colinas acima de Jerusalém. As villas, construídas em arco no topo da colina, têm janelas intencionalmente estreitadas em retângulos verticais para funcionarem como aberturas para armas.

Chegámos aos arredores de Ramallah. Estamos retidos no congestionamento do trânsito em frente à extensa base militar israelita que supervisiona o  posto de controlo de Qalandia  , o principal posto de controlo entre Jerusalém Oriental e a Cisjordânia. É palco de frequentes manifestações contra a ocupação que podem  terminar  em  tiroteios.

Eu conheço o Atef. Caminhamos até uma loja de kebabs e sentamo-nos numa pequena mesa ao ar livre. As cicatrizes da última incursão do exército israelita estão ao virar da esquina. À noite, há poucos dias, soldados israelitas incendiaram as lojas que efectuam transferências de dinheiro do estrangeiro. São ruínas carbonizadas. Agora será mais difícil obter dinheiro do estrangeiro, o que suspeito ser o ponto principal.

Israel reforçou dramaticamente o seu domínio sobre os mais de 2,7 milhões de palestinianos na Cisjordânia ocupada, que estão rodeados por  mais de  700 mil colonos judeus alojados em cerca de 150  empreendimentos estrategicamente localizados  com os seus próprios centros comerciais, escolas e centros médicos. Estes  desenvolvimentos coloniais,  juntamente com estradas especiais que só podem ser utilizadas pelos colonos e pelos militares, postos de controlo, extensões de terra que estão fora dos limites dos palestinianos, zonas militares fechadas,  “reservas naturais” declaradas por Israel  e postos militares avançados formam círculos concêntricos. Podem interromper instantaneamente o fluxo de tráfego para isolar cidades e vilas palestinianas numa série de guetos cercados.

“Desde 7 de outubro que é difícil viajar para qualquer lugar da Cisjordânia”, diz Atef. “Existem postos de controlo nas entradas de todas as cidades, vilas e aldeias. Imagine que quer ver a sua mãe ou a sua noiva. Quer conduzir de Ramallah para Nablus. Pode demorar sete horas porque as estradas principais estão bloqueadas. É forçado a conduzir por estradas secundárias nas montanhas.”

A viagem deverá durar 90 minutos.

Soldados e colonos israelitas  mataram  528 civis palestinianos, incluindo 133 crianças, e feriram mais de 5.350 outros na Cisjordânia, desde 7 de Outubro, segundo o chefe dos direitos humanos da ONU. Israel também  deteve  mais de 9.700 palestinianos – ou deveria dizer reféns? — incluindo  centenas  de  crianças  e  mulheres grávidas . Muitos foram  severamente torturados , incluindo  médicos torturados até à morte nas masmorras  israelitas  e trabalhadores humanitários  mortos  após serem libertados. O Ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, apelou  à  execução de prisioneiros palestinianos para libertar espaço para mais.   

Ramallah, a sede da Autoridade Palestiniana, foi no passado poupada ao pior da violência israelita. Desde 7 de outubro, isso mudou. As rusgas e detenções  ocorrem  quase diariamente dentro e à volta da cidade, por vezes acompanhadas de tiros letais e bombardeamentos aéreos. Israel destruiu ou confiscou mais de  990  habitações e casas palestinianas na Cisjordânia desde 7 de Outubro, obrigando por vezes os proprietários a  demolir  os seus próprios edifícios ou a pagar multas exorbitantes.

Colonos israelitas fortemente armados levaram a cabo ataques assassinos em aldeias a leste de Ramallah, incluindo ataques após o  assassinato  de um colono de 14 anos, no dia 12 de Abril, perto da aldeia de al Mughayyir. Os colonos, em  retaliação,  queimaram e destruíram casas e veículos palestinianos em 11 aldeias, destruíram estradas, mataram um palestiniano e feriram mais de duas dezenas de outros. 

Israel  ordenou  a maior apreensão de terras na Cisjordânia em mais de três décadas, confiscando vastas extensões de terra a nordeste de Ramallah. O  Ministro das Finanças israelita, de extrema-direita,  Bezalel Smotrich, que vive numa colónia judaica e é responsável pela expansão colonial, prometeu  inundar  a Cisjordânia com um milhão de novos colonos. 

Smotrich prometeu destruir as  distintas áreas  da Cisjordânia  criadas  pelos acordos de Oslo. A área A, que compreende 18% da Cisjordânia, está sob controlo exclusivo palestiniano. A área B, quase 22% da Cisjordânia, está sob ocupação militar israelita, em conluio com a Autoridade Palestiniana. A área C, mais de 60 por cento da Cisjordânia, está sob ocupação total israelita.

“Israel percebe que o mundo está cego, que ninguém o vai obrigar a acabar com o genocídio em Gaza e ninguém vai prestar atenção à guerra na Cisjordânia”, diz Atef. “A palavra guerra nem sequer é utilizada. A isto se chama uma operação militar israelita normal, como se o que nos está a acontecer fosse normal. Não há agora distinção entre o estatuto dos territórios ocupados, classificados como A, B e C. Os colonos estão a confiscar mais terras. Estão a realizar  mais ataques . Não precisam do exército. Tornaram-se um exército paralelo, apoiado e  armado  pelo governo de direita de Israel. Vivemos numa guerra contínua desde 1948. Esta é simplesmente a fase mais recente.” 

Jenin e o campo de refugiados vizinho são  diariamente atacados   por unidades armadas israelitas, equipas de comandos disfarçados, franco-atiradores e escavadoras, que  arrasam  bairros inteiros. Drones  equipados  com metralhadoras e mísseis, bem como aviões de guerra e  helicópteros de ataque Apache ,  circulam no alto  e  destroem  habitações. Médicos e médicos, como em Gaza, são assassinados.  Usaid Kamal Jabarin, um cirurgião de 50 anos, foi morto a 21 de maio por um atirador israelita quando chegava para trabalhar no Hospital Governamental de Jenin. A fome é endémica. 

“Os militares israelitas realizam ataques que matam palestinianos e depois partem”, diz Atef. “Mas ele regressa alguns dias depois. Não basta que os israelitas nos roubem as terras. Procuram matar o maior número possível de habitantes originais. É por isso que realiza operações constantes. É por isso que há constantes confrontos armados. Mas estes confrontos são provocados por Israel. São o pretexto usado para nos atacar continuamente. Vivemos sob pressão constante. Enfrentamos a morte diariamente.”

A dramática escalada de violência na Cisjordânia é ensombrada pelo genocídio em Gaza. Mas tornou-se uma segunda frente. Se Israel conseguir esvaziar Gaza, a Cisjordânia será a próxima.

“O objetivo de Israel não mudou”, diz. “Procura diminuir a população palestiniana, confiscar extensões cada vez maiores de terras palestinianas e construir cada vez mais colónias. Procura  judaizar  a Palestina e privar os palestinianos de todos os meios para se sustentarem. O objetivo final é a  anexação  da Cisjordânia.”

“Mesmo no auge do processo de paz, quando todos estavam hipnotizados pela paz, Israel estava a transformar esta proposta de paz num pesadelo”, continua. “A maioria dos palestinianos opôs-se aos acordos de paz assinados por Arafat em 1993, mas mesmo assim acolheram-no quando regressou. Eles não o mataram. Eles queriam dar uma oportunidade à paz. Em Israel, o primeiro-ministro que assinou os acordos de Oslo foi  assassinado.”

 “Há alguns anos, alguém pintou um slogan estranho no muro da escola da ONU a leste de Jabaliya”, escreveu Atef a partir do inferno de Gaza. “'Nós progredimos para trás'. Tem um toque para isso. Cada nova guerra arrasta-nos de volta ao básico. Destrói as nossas casas, as nossas instituições, as nossas mesquitas e as nossas igrejas. Arrasa os nossos jardins e parques. Toda a guerra leva anos a recuperar e, antes de recuperarmos, chega uma nova guerra. Não existem sirenes de alerta, nem mensagens enviadas para os nossos telefones. A guerra simplesmente chega.”

O projeto colonial dos colonos judeus é multiforme. Muda a sua forma, mas não a sua essência. As suas táticas variam. A sua intensidade surge em ondas de repressão severa e menos repressão. A sua retórica sobre a paz mascara a sua intenção. Avança com a sua lógica mortal, pervertida e racista. E, no entanto, os palestinianos resistem, recusando-se a submeter-se, resistindo apesar das probabilidades esmagadoras, agarrando-se a pequenos grãos de esperança provenientes de poços sem fundo de desespero. Há uma palavra para isso. Heróico.

Imagem: Em que genocídio está? – pelo Sr. Peixe

Original

Requiem para o Ocidente

12.07.24 | Manuel

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Giorgio Agamben

No final do século XIX, Moritz Steinschneider, um dos fundadores da ciência do Judaísmo, declarou, não sem escândalo entre muitas pessoas de pensamento correcto, que a única coisa que podia ser feita pelo Judaísmo era garantir que tivesse um digno funeral. É possível que, desde então, o seu juízo se aplique também à Igreja e à cultura ocidental no seu todo. O que de facto aconteceu, porém, é que o funeral digno de que falou Steinschneider não foi celebrado, nem então para o Judaísmo, nem agora para o Ocidente. Uma parte essencial do funeral na tradição da Igreja Católica é a missa de Requiem, que no Intróito abre com as palavras: Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Até 1970, o missal romano prescrevia também a recitação na sequência dies irae para a missa de réquiem. Esta escolha foi perfeitamente coerente com o facto de o próprio termo que definia a missa pelos defuntos provir de um texto apocalíptico, o Apocalipse de Esdras, que evocava tanto a paz como o fim do mundo: requiem aeternitatis dabit vobis, quoniam in proximo est ille, qui in finem saeculi adveniet, «dar-te-á a paz eterna, porque está próximo aquele que vem no fim dos tempos». A abolição do dies irae em 1970 acompanha o abandono de toda a instância escatológica por parte da Igreja, que assim se conformou completamente com a ideia de progresso infinito que define a modernidade. O que é abandonado sem a coragem de explicar as razões – o dia da ira, o último dia – pode ser apanhado como uma arma a ser utilizada contra a cobardia e as contradições do poder no momento do seu fim. É isso que pretendemos fazer aqui, tentando celebrar sem intenção paródica, mas fora da Igreja, que pertence ao número dos defuntos, uma espécie de funeral abreviado para o Ocidente.

Dies irae, dies illa
resolvet saeclum in sparkle,
test David cum Sybilla.

Dia de ira, esse dia
destruirá o mundo em cinzas,
como testemunham David e a Sibila.

Que dia é hoje? Certamente do presente, do tempo que vivemos. Todos os dias é o dia da ira, o último dia. Hoje é o século, o mundo está em chamas e com ele a nossa casa. Devemos ser testemunhas disto, como David e a Sibila. Aqueles que permanecem calados e não testemunham não terão paz nem agora nem amanhã, porque é precisamente a paz que o Ocidente não pode nem quer ver nem pensar.

O tremor quântico é futuro
enquanto iudex é venturus
cuncta stricte discurus.

Quanto terror haverá
quando o juiz vier
julgar tudo com rigor.

O terror não é o futuro, está aqui e agora. E esse juiz somos nós, chamados a pronunciar o julgamento, a Krisis do nosso tempo. À palavra “crise”, de que falamos constantemente para justificar o estado de exceção, restituímos o seu significado original de julgamento. No vocabulário da medicina hipocrática, krisis designava o momento em que o médico deve julgar se o paciente morrerá ou sobreviverá. Da mesma forma, discernimos o que está a morrer no Ocidente e o que ainda está vivo. E o julgamento será severo, nada faltará.

Tuba mirum spargens sonum
per sepulchra regionum,
coget omnes ante thronum.

Mors stupebit et natura,
cum resurget criatura,
iudicanti responsura.

Uma trombeta que espalha um som maravilhoso
nos túmulos de todo o mundo
chamará todos diante do trono.

A morte e a natureza surpreenderão,
quando a criatura ressuscitar,
para responder ao juiz.

Não podemos ressuscitar os mortos, mas podemos pelo menos preparar com todo o cuidado o maravilhoso instrumento do nosso pensamento e do nosso juízo e, fazendo-o então ressoar sem medo, libertar a natureza e a morte das mãos do poder que com eles nos governa. Sentir a natureza e a morte a surpreender-nos, prever aqui e agora uma outra vida possível e uma outra morte, é a única ressurreição que nos interessa.

Liber scriptus proferetur,
in quo totum continetur,
unde mundus iudicetur.

Iudex ergo cum sedebit,
quidquid latet apparebit,
nil inultum remanebit.

Será aberto o livro
em que tudo está contido,
e por ele o mundo será julgado.

Assim que o juiz se sentar,
aparecerá o que está oculto,
nada ficará sem vingança.

O livro escrito é história, que é sempre a história de mentiras e injustiças. Não há história de verdade e de justiça, mas antes um aparecimento instantâneo na crise decisiva de cada mentira e de cada injustiça. Nesta altura a mentira já não será capaz de encobrir a realidade. A justiça e a verdade manifestam-se de facto, manifestando a falsidade e a injustiça. E nada escapará à força da sua vingança, desde que a esta palavra seja devolvido o significado etimológico que tem no julgamento romano, em que o vindex é aquele que vim codicit, que mostra ao juiz a violência que foi cometida contra aquele que só neste sentido ele “vinga”.

Quid sum miser tunc dicturus,
quem patronum rogaturus,
cum vix iustus sit securus.

E eu, que sou miserável, que direi,
a quem invocarei em minha defesa,
se o justo mal está seguro?

A pessoa justa que empresta a sua voz ao julgamento está de alguma forma envolvida no julgamento e não pode chamar outros em sua defesa. Ninguém pode depor pela testemunha, está sozinho com o seu depoimento - neste sentido não tem a certeza, está dentro da crise do seu tempo - e no entanto pronuncia o seu depoimento.

Confutatis maledictis,
flammis acribus addicis,
voca me cum benedictis…

Lacrimosa dies illa,
qua resurget ex spark
iudicandus homo reus

Os malditos estão condenados,
lançados nas chamas vivas,
chamem-me entre os bem-aventurados...

Dia de lágrimas nesse dia,
em que
o culpado ressuscitará das cinzas para ser julgado.

Embora o hino no dia da ira faça parte de uma missa que pede paz e misericórdia para os mortos, mantém-se a distinção entre os malditos e os bem-aventurados, entre os algozes e as vítimas. No último dia, os algozes, como agora fazem sem talvez se dar conta, refutam-se de facto, deixam cair as máscaras que encobrem as suas injustiças e as suas mentiras e lançam-se nas chamas que eles próprios acenderam. O último dia, o dia da ira, cada dia é para eles um dia de lágrimas, e talvez seja precisamente por terem consciência disso que fingem estar tão sorridentes. Só o consenso e o medo de muitos mantêm este dia em suspense. Por isso, mesmo sabendo que somos impotentes face ao poder, o nosso julgamento deve ser ainda mais implacável, o que não podemos separar do requiem que celebramos. Senhor, não lhes dês a paz, pois não sabem o que é.

11 de julho de 2024

Imagem: O Triunfo da Morte (c.1562) de Bruegel, o Velho (1525-1569). Óleo sobre madeira, 117 x 162 cm, Museo del Prado, Sala 025.

Original

The Lancet alerta que número de mortos em Gaza pode ultrapassar 186 mil

09.07.24 | Manuel

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Por André Damon

The Lancet, a prestigiada revista médica britânica revisada por pares, alertou que o verdadeiro número de mortos no genocídio de Gaza poderia ser de 186 mil ou mais.

Leia o relatório da Lancet aqui.

Este número surpreendente equivale a 8 por cento da população de Gaza. Uma percentagem semelhante da população dos EUA seria de 26 milhões de pessoas.

Representa uma acusação aos Estados Unidos e aos seus aliados imperialistas, que financiaram, armaram e defenderam politicamente o genocídio de Israel em Gaza.

O enorme número de mortos foi possível graças às 14.000 bombas de 2.000 libras fornecidas pelos EUA a Israel, que utilizaram não só para massacrar dezenas de milhares, mas também para destruir todos os aspectos da civilização em Gaza, contribuindo para a morte de dezenas de milhares de pessoas. de milhares de pessoas devido à desnutrição, doenças transmissíveis e falta de cuidados de saúde.

O número oficial de mortos desde o início do ataque israelense, segundo fontes do governo de Gaza, é de 37.396. Mas a The Lancet observou que este número não reflecte nem os milhares de pessoas soterradas sob os escombros nem as inúmeras mortes causadas pela destruição deliberada dos sistemas de distribuição de alimentos, saúde e saneamento de Gaza.

No seu relatório publicado sexta-feira, intitulado “Contar os mortos em Gaza: difícil, mas essencial”, The Lancet observou:

O número de mortes relatadas é provavelmente subestimado. A organização não governamental Airwars realiza avaliações detalhadas dos incidentes na Faixa de Gaza e muitas vezes descobre que nem todos os nomes das vítimas identificáveis ​​estão incluídos na lista do Ministério. Além disso, a ONU estima que, até 29 de Fevereiro de 2024, 35% dos edifícios na Faixa de Gaza tinham sido destruídos, pelo que o número de corpos ainda enterrados nos escombros é provavelmente substancial, com estimativas de mais de 10.000.

A publicação destacou ainda que “a recolha de dados está a tornar-se cada vez mais difícil para o Ministério da Saúde de Gaza devido à destruição de grande parte da infra-estrutura”.

A Guerra de Israel em Gaza: “A situação é agora catastrófica”. “Nakba está em andamento”

O relatório alertou:

Prevê-se que o número total de mortos seja elevado, dada a intensidade deste conflito; infra-estruturas de saúde destruídas; grave escassez de alimentos, água e abrigo; a incapacidade da população de fugir para locais seguros; e a perda de financiamento para a UNRWA, uma das poucas organizações humanitárias ainda activas na Faixa de Gaza.

The Lancet observou:

Nos conflitos recentes, essas mortes indirectas variam entre três a 15 vezes o número de mortes directas. Aplicando uma estimativa conservadora de quatro mortes indirectas por cada morte directa às 37.396 mortes notificadas, não é implausível estimar que até 186.000 ou até mais mortes possam ser atribuíveis ao actual conflito em Gaza. Utilizando a estimativa da população da Faixa de Gaza para 2022 de 2.375.259, isto se traduziria em 7,9% da população total da Faixa de Gaza.

A estimativa da Lancet de um número de mortos de 186.000 baseia-se, portanto, em duas suposições que tenderiam a reduzir o número de mortos estimado. Primeiro, começa com o número de mortos relatado pelo governo de 37.396, que não inclui aqueles enterrados sob os escombros. Depois, utiliza um múltiplo de quatro para estimar as mortes “indiretas” causadas pela guerra, em oposição ao múltiplo de 15 vezes o número de “mortes diretas” observado em outros conflitos.

Há razões para questionar a validade destas suposições baixas, incluindo o facto de as autoridades israelitas terem declarado explicitamente o objectivo de matar civis palestinianos através da fome e da doença.

Em Novembro, Giora Eiland, antigo chefe do Conselho de Segurança Nacional israelita, publicou um artigo no qual instava os militares israelitas a criarem condições médicas que pudessem causar a morte do maior número possível de civis de Gaza devido a doenças evitáveis.

Ele escreveu:

Quem são as mulheres “pobres” de Gaza? Todas são mães, irmãs ou esposas de assassinos do Hamas. … A comunidade internacional alerta-nos para um desastre humanitário em Gaza e para epidemias graves. Não devemos fugir disto, por mais difícil que seja. Afinal de contas, epidemias graves no sul da Faixa de Gaza aproximarão a vitória e reduzirão as baixas entre os soldados das FDI.

Esta retórica genocida é consistente com a declaração do Ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant, de “um cerco completo… sem electricidade, sem água, sem comida, sem combustível. Estamos lutando contra animais humanos e agimos de acordo.”

Num relatório publicado no mês passado, a comissão das Nações Unidas que investiga o genocídio de Gaza declarou:

Israel utilizou a fome como método de guerra, afectando toda a população da Faixa de Gaza nas próximas décadas, com consequências particularmente negativas para as crianças.

O comitê da ONU concluiu:

No momento da redação deste relatório, crianças já morriam devido à desnutrição aguda e à desidratação. Através do cerco que impôs, Israel transformou em arma a retenção de bens essenciais à vida, cortando o fornecimento de água, alimentos, electricidade, combustível e outros fornecimentos essenciais, incluindo a assistência humanitária. Isto constitui punição colectiva e represália contra a população civil, sendo que ambas são violações claras do [direito humanitário internacional].

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Palestinianos enterram os corpos de pessoas que foram mortas pelos militares israelenses durante um funeral em massa em Rafah, Faixa de Gaza, 30 de janeiro de 2024. [AP Photo/Fatima Shbair]

A administração Biden, ao encobrir e defender o genocídio de Gaza, afirmou que as mortes de civis são uma consequência não intencional da “guerra de Israel contra o Hamas”. Mas estas afirmações são desmentidas pelas declarações dos responsáveis ​​israelitas, que deixaram claro que estão a travar uma guerra de extermínio contra a população civil.

Em outubro, o presidente israelense Isaac Herzog declarou:

É uma nação inteira que é responsável. Não é verdade esta retórica sobre os civis que não estão conscientes, não estão envolvidos... vamos lutar até quebrar a sua espinha dorsal.

Naquele mesmo mês, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou:

“Você deve se lembrar do que Amaleque fez com você”, referindo-se a uma passagem bíblica que afirma: “Vá, ataque Amaleque. (…) Não poupe ninguém, mas mate igualmente homens e mulheres, crianças e lactantes.”

O relatório da The Lancet deixa claro que o genocídio de Gaza está entre os maiores actos de barbárie imperialista na história moderna. Em menos de um ano, os Estados Unidos e outras potências imperialistas trabalharam com Israel para exterminar perto de um décimo da população de uma das áreas urbanas mais densamente povoadas do mundo.

Este crime faz parte de uma erupção global de violência imperialista, com o objectivo de subjugar o mundo inteiro sob a dominação neocolonial, visando centralmente a Rússia e a China. O enorme número de mortos em Gaza é um aviso: o imperialismo está preparado para cometer qualquer crime na prossecução dos seus interesses predatórios.

O genocídio de Gaza deve ser interrompido!

Em 24 de Julho, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, viajará para Washington DC para apresentar um relatório de progresso aos seus patrões imperialistas. Apelamos aos trabalhadores e aos jovens para que se juntem à manifestação e reunião em Washington convocada para esse dia pelo Socialist Party pela Igualdade como um passo crítico na construção de um movimento anti-guerra de massas baseado na classe trabalhadora.

Fonte

História do arsenal nuclear de Israel

06.07.24 | Manuel

 

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Moredechai Vanunu e os planos de Israel para travar uma guerra nuclear contra o Irão  - Centenas de ogivas nucleares sob o controle do sistema de defesa de Israel

Por Michael Carmichael

Em 1986, um funcionário público israelita que trabalhava na indústria nuclear estatal voou para Londres, onde foi convidado para se encontrar com repórteres que trabalhavam para o The Sunday Times.

Nestas conferências de imprensa, Mordechai Vanunu revelou o segredo máximo de Israel – os israelitas tinham ganho o controlo de um arsenal crescente de ogivas nucleares.

Nas semanas imediatamente seguintes a estas revelações explosivas, o Sr. Vanunu visitou Roma, onde agentes de espionagem israelitas o raptaram e forçaram o seu regresso a Israel. De volta a Tel Aviv, Vanunu foi levado a julgamento por traição. Julgado perante um tribunal secreto, a condenação do Sr. Vanunu foi uma conclusão precipitada, e ele cumpriu uma pena de dezoito anos de prisão, sendo onze desses anos em confinamento solitário.

Libertado em 2004, Vanunu recebeu ordens que o proibiam de viajar para outros países onde lhe foram oferecidos cargos académicos.

O Sr. Vanunu vive agora no santuário de uma Igreja Cristã em Israel, mas este refúgio não impediu a sua perseguição política por parte do governo de Israel. Desde a sua libertação, Vanunu foi preso quatro vezes e enfrenta agora 21 acusações de violação de uma ordem legal, uma acusação que acarreta uma pena de dois anos de prisão por cada acusação (ou seja, 42 anos).

O Parlamento Europeu condenou a perseguição do Estado de Israel ao Sr. Vanunu. A Amnistia Internacional publicou um relatório acusando o tratamento dispensado por Israel ao Sr. Vanunu de “cruel, desumano e degradante. . . tal como é proibido pelo direito internacional”.

Desde a sua exposição sobre o arsenal nuclear de Israel, o Sr. Vanunu foi nomeado para o Prémio Nobel da Paz um total de dezassete vezes.

Embora Joseph Rotblat tenha colocado o nome do Sr. Vanunu na nomeação, as nomeações de Vanunu para o Nobel sempre enfrentaram oposição sistemática organizada por amigos e apoiantes do Estado de Israel que exercem imensa influência nas deliberações do Nobel.

Em 1987, o Sr. Vanunu recebeu o Prêmio Nobel da Paz alternativo (ou seja, o Prêmio Right Livelihood) . Em 2005, recebeu o Prêmio da Paz do povo norueguês e um doutorado honorário da prestigiada Universidade de Tromso.

O Estado de Israel tem impedido sistematicamente que o Sr. Vanunu assumisse o seu cargo académico como professor de história na Universidade de Glasgow. O governo israelita proíbe o Sr. Vanunu de viajar para além das suas fronteiras, aparentemente por receio de que ele realize conferências de imprensa sobre o seu agora bem conhecido arsenal de armas nucleares.

As opiniões dos especialistas variam, mas alguns classificam agora Israel em terceiro ou quarto lugar, atrás apenas dos EUA, da Rússia e possivelmente da França, no que diz respeito à detenção do maior arsenal de armas nucleares.

Além dos próprios dispositivos nucleares, Israel possui um formidável arsenal de sistemas de lançamento. O foguete Shavit de Israel tem sido usado para lançar satélites em órbita e o Boletim dos Cientistas Atômicos informou que o Shavit poderia ser convertido em um ICBM com um alcance de 7.000 milhas permitindo um ataque nuclear israelense em qualquer lugar no Oriente Médio bem como no leste e Europa Ocidental e Ásia Central. Além disso, Israel tem agora uma frota de submarinos da classe Dolphin armados com mísseis de cruzeiro capazes de transportar ogivas nucleares. O Boletim dos Cientistas Atômicos relatou que Israel pode ter desenvolvido projéteis de artilharia nuclear, bem como minas terrestres nucleares que poderiam ser implantadas nas Colinas de Golã para desencorajar os projetos sírios na região.

Vídeo sobre a instalação de armas nucleares de Israel (Legendas em inglês)

https://youtu.be/dA4A1oTgq-E?si=TxAmnnp3A074OefZ

Embora a existência do arsenal nuclear de Israel seja agora um facto bem estabelecido, o Estado de Israel tem-se recusado sistematicamente a confirmar o seu estatuto nuclear. Além disso, Israel recusa tornar-se parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). A inflexível insularidade nuclear e as negações de Israel criaram tensões – não apenas no Médio Oriente – mas a nível global.

A aquiescência da América ao arsenal nuclear israelita pode ter encorajado a Índia, o Paquistão, a Coreia do Norte, o Irão, a Arábia Saudita e outros estados agora conhecidos por serem capazes de desenvolver capacidades nucleares. Por exemplo, em 2003, dirigentes do governo da Arábia Saudita anunciaram que, devido ao agravamento das relações com os Estados Unidos, estavam a considerar o desenvolvimento de armas nucleares. O agravamento das relações entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos baseia-se nas políticas de Israel: no seu arsenal nuclear desonesto e no tratamento duro que dispensa aos palestinianos nos Territórios Ocupados. Alguns relatórios indicam que a Índia forneceu secretamente armas nucleares à Arábia Saudita.

No início da década de 1990, um dos principais jornalistas da América, Seymour Hersh , publicou um livro best-seller, The Samson Option, detalhando o testemunho do Sr. Vanunu. O livro de Hersh continha muitas informações novas sobre a alardeada capacidade de defesa nuclear de Israel.

Desde 1986, a esmagadora maioria da população mundial tem conhecimento do arsenal nuclear de Israel, mas muitos americanos permanecem completamente inconscientes da existência de centenas de ogivas nucleares sob o controlo directo do sistema de defesa israelita. Em meados da década de 1990, Michael Moore – uma pessoa que não é conhecida pelo seu conservadorismo nem pelo seu apoio reflexivo às políticas do Estado de Israel – fez comentários depreciativos durante uma entrevista que abordou a existência do arsenal nuclear israelita. Moore cometeu esta gafe porque – embora normalmente esteja bem informado – era óbvio que ele ignorava o testemunho de Mordechai Vanunu ou o livro best-seller do Sr. Hersh.

Nos relatórios abaixo indicados, o The Sunday Times revelou agora novas provas de que Israel está actualmente [no início de 2007] a planear lançar um ataque nuclear contra o Irão .

Com o objectivo de destruir a embrionária indústria nuclear iraniana, os mísseis israelitas armados com ogivas nucleares serão lançados através de caças convencionais. O Sunday Times informou que os pilotos de jato israelenses já estão passando por treinamento avançado para disparar ogivas nucleares contra alvos no Irã – – numa repetição tática do ataque que destruiu o reator nuclear de Saddam Hussein em Osirak em 1982.

Na cobertura do Sunday Times, nenhuma referência foi feita à possibilidade de um ataque nuclear a partir de submarinos israelitas equipados com mísseis de cruzeiro que poderiam ser armados com ogivas nucleares. Especialistas militares têm relatado a presença de submarinos israelenses da classe Dolphin no Golfo Pérsico nos últimos dois anos, aparentemente para apoiar as operações navais dos EUA, caso o Irã tente fechar o Estreito de Ormuz.

Há dois anos, Seymour Hersh começou a publicar uma série de artigos na The New Yorker detalhando um vasto projecto de planeamento no Pentágono de Donald Rumsfeld para atacar e travar guerra contra o Irão. Entretanto, muitos outros autores relataram agora detalhes da política altamente publicitada da Casa Branca Bush-Cheney de usar a força militar para obrigar o Irão a abandonar quaisquer ambições que possa ter de desenvolver armas nucleares. Estas opções militares americanas envolvem a utilização de armas nucleares, por vezes chamadas de destruidores de bunkers, que são concebidas para atingir locais subterrâneos profundamente enraizados, como os laboratórios nucleares do Irão.

É digno de nota que Elizabeth Cheney, a filha mais velha do vice-presidente Richard Cheney, é a funcionária do governo dos EUA no Departamento de Estado responsável por um orçamento de cerca de 100 milhões de dólares por ano para encorajar a “democracia” dentro do Irão – ou seja, operações secretas destinadas a construir uma quinta coluna dentro da sociedade iraniana que seja hostil ao governo existente.

A partir de uma longa série de relatórios, torna-se agora claro que a administração Bush-Cheney foi severamente enfraquecida pelas recentes eleições intercalares, e aparentemente já não se sente capaz de lançar um ataque nuclear directo contra o Irão, utilizando forças americanas, armas americanas e a ajuda dos EUA. formidável arsenal nuclear. Nas negociações que tiveram lugar em Washington entre o primeiro-ministro israelita Ehud Olmert e o presidente George Bush – bem como nas negociações altamente publicitadas entre o vice-presidente Dick Cheney e o rei Abdullah da Arábia Saudita – parece agora que o planeamento conjunto para atacar o Irão tem alteraram apenas ligeiramente os esquemas grandiosos originalmente concebidos por Donald Rumsfeld antes da sua reforma abrupta no dia seguinte às eleições intercalares do ano passado.

De acordo com o The Sunday Times , houve uma ligeira recalibração dos planos para a guerra contra o Irão. Em vez de um ataque nuclear americano directo contra alvos difíceis do Irão, foi dada a Israel a tarefa de lançar um conjunto coordenado de ataques nucleares destinados a alvos que são as instalações nucleares nas cidades iranianas: Natanz, Isfahan e Arak.

O que resta saber é se os meios de comunicação norte-americanos – actualmente classificados em 53º lugar no Índice Internacional de Liberdade de Imprensa – cobrirão a história, e se o povo americano será informado da estreita colaboração entre a Casa Branca Bush-Cheney, o governo Olmert em Israel e outros governos agora conhecidos por estarem envolvidos no planeamento militar para conter o ainda nascente desenvolvimento nuclear do Irão.

Após a cobertura detalhada do Sunday Times sobre os planos de Israel de lançar um ataque nuclear contra o Irão, o governo de Israel emitiu uma negação pouco convincente. Um funcionário israelense fez uma declaração ambígua quando disse que a história poderia ter sido vazada intencionalmente para evitar que a nação de Israel fizesse algo “louco”. Quando os responsáveis ​​do governo israelita elogiam mesmo desta forma estranha – é altura de tomar nota de que pode estar a ocorrer um realinhamento político em Tel Aviv.

Na América, não há qualquer dúvida de que já ocorreu um grande realinhamento político. O Comité Americano de Acção Política de Israel (AIPAC) e os seus líderes de claque estão preocupados com o facto de a tendência para criticar Israel estar agora a intensificar-se tanto na esquerda como no centro do espectro político nos EUA. O apoio do governo de Israel aos desastres provocados pela ideologia neoconservadora desencadeou uma reacção política americana na sequência de anos de desilusão com a guerra no Iraque – uma guerra que deveria ter sido a maior conquista da administração Bush-Cheney.

O livro do ex-presidente Jimmy Carter, Palestina: Paz, não Apartheid, está agora no topo das listas de mais vendidos, apesar de ter enfrentado uma tempestade de protestos dos Israel-Firsters liderados por Abraham Foxman, o formidável propagandista da Liga Anti-Difamação (ADL).

Contra este cenário em rápida mudança, os políticos americanos de ambos os partidos – e de todas as partes do espectro político: esquerda, direita e centro – estão agora a expressar abertamente a sua oposição à guerra no Iraque. Dito isto, relativamente poucos membros do Congresso tomaram qualquer posição sobre os planos Bush-Cheney-Rumsfeld para a guerra com o Irão.

Na semana passada, o novo presidente da Comissão de Relações Exteriores, o senador Joseph Biden (D-Delaware) desafiou a secretária de Estado, Condoleezza Rice, sobre as suas observações inflamatórias que ameaçavam uma intervenção militar para enfrentar o que ela chamou de “agressão” do Irão. Em termos contundentes, o Senador Biden advertiu a Secretária Rice que o Congresso não toleraria qualquer ataque militar dos EUA através da fronteira Iraque-Irão. O Senador Biden prendeu o Secretário Rice com a sua promessa de um “confronto constitucional” entre o Congresso e a Casa Branca se o Presidente Bush ordenasse que as forças dos EUA atravessassem a fronteira. Actualmente o opositor mais declarado dos planos dos EUA de travar uma guerra contra o Irão no Congresso dos EUA, o senador Biden é um candidato não anunciado à nomeação presidencial democrata em 2008.

Num desenvolvimento paralelo, funcionários de alto escalão da Casa Branca ordenaram que Tony Snow emitisse uma declaração fraca destinada a acalmar as crescentes preocupações públicas sobre a expansão da guerra impopular no Irão. Snow tentou desprezar o que considerou ser uma “lenda urbana” – que a Casa Branca de Bush fez planos para uma guerra com o Irão.

Vindo como aconteceu após os comentários provocativos de Condoleezza Rice sobre a “agressão” iraniana e a altamente divulgada apreensão de cinco autoridades iranianas pelas forças dos EUA no Iraque, a tentativa do Sr. Snow de reprimir as preocupações dos americanos foi desanimadora, pouco convincente e pouco mais do que uma tentativa transparente de desinformar o público. A nomeação de Snow, uma antiga personalidade da Fox News, foi, talvez, uma das piores de muitas decisões questionáveis ​​tomadas por uma Casa Branca sitiada em tantas frentes.

Durante as suas audiências de confirmação no mês passado, o Secretário da Defesa, Robert Gates, respondeu a uma pergunta sobre a potencial intervenção militar dos EUA contra o Irão. O Sr. Gates afirmou que tal ataque poderia ter “consequências devastadoras” para a América e os seus amigos na região.

O Sr. Gates estava certo. A realidade é dura. Se Israel atacar o Irão, estará a jogar roleta russa em grande escala. A retaliação de um amplo espectro de nações e milícias multinacionais no Médio Oriente poderia provocar uma série concertada de ataques devastadores de poder duro contra as forças israelitas e americanas dispostas num aglomerado denso desde o Iraque até ao Kuwait, ao Qatar e ao Golfo Pérsico.

Durante sua recente aparição na União de Oxford, Avi Shlaim, um dos principais historiadores de Israel, disse:

“Nunca houve qualquer relação especial entre a América e a Grã-Bretanha. Sempre que Bush foi confrontado com a escolha de agradar a Blair ou Sharon, ele sempre ficou do lado de Sharon. A verdadeira relação especial é entre a América e Israel.”

Há um velho ditado na política: nunca são os seus inimigos que lhe colocam em apuros: são os seus amigos.

Imagem: Mordechai Vanunu em Israel

Referências:

Mordechai Vanunu

O site Mordechai Vanunu

Livre Mordechai Vanunu

Revelado: Israel planeja ataque nuclear ao Irã

Uma aliança profana ameaçando catástrofe

Israel fará o que for preciso

Ellsberg adverte Bush e Cheney sobre 'crime mais grave contra a humanidade'
Boletim dos Cientistas Atômicos / Forças Nucleares Israelenses, 2002

Lista de estados com armas nucleares

AS PRÓXIMAS GUERRAS

OS PLANOS DO IRÃ

Israel nega ter planos de ataque nuclear – Reportagem de jornal afirma que pilotos israelenses estão treinando para ataques nucleares no Irã

As tensões aumentam enquanto Washington acusa o Irã sobre milícias

Rice: EUA pretendem conter a agressão ao Irão

EUA pretendem banir ‘boato’ de guerra com o Irão

EUA: Não há planos imediatos para atacar o Irão

Próximo alvo Teerã – Todos os sinais são de que Bush está planejando um ataque militar de inspiração neoconservadora ao Irã

Israel e EUA camuflam plano de ataque ao Irã

Fonte

A guerra contra os agricultores levará a “guerras alimentares”

03.07.24 | Manuel

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Por Rhoda Wilson

De acordo com uma reportagem de ontem do Financial Times, a Olam Agri, um dos maiores comerciantes de commodities agrícolas do mundo, alertou que o mundo está caminhando para “guerras alimentares” devido às tensões geopolíticas e às mudanças climáticas que estão empurrando os países para conflitos por causa da escassez de alimentos. suprimentos.

Falando na conferência de consumidores Redburn Atlantic e Rothschild na semana passada, o CEO da Olam Agri, Sunny Verghese, disse que as barreiras comerciais impostas pelos países estão a exacerbar a inflação e a levar os países a conflitos devido à diminuição do abastecimento alimentar.

“Os principais comerciantes de matérias-primas agrícolas que obtiveram lucros recorde em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia ter feito disparar os preços dos alimentos, foram acusados ​​de exacerbar a inflação dos preços das cheias através de margens de lucro para aumentar os lucros, de acordo com o Financial Times.

“Os preços dos alimentos começaram a subir depois de 19 de Setembro e dispararam após a invasão da Ucrânia pela Rússia, quando algumas exportações de cereais e fertilizantes foram bloqueadas pelo conflito. Isto exacerbou a insegurança alimentar nos países mais pobres e deixou os consumidores em todo o mundo enfrentando uma crise de custo de vida”, afirmou a revista.

No entanto, Verghese salientou que a elevada inflação dos preços dos alimentos se deve, em parte, à intervenção governamental. A expansão das barreiras não tarifárias em 2022 em resposta à guerra “criou um desequilíbrio exagerado entre a oferta e a procura”.

O cerne do seu argumento é que as barreiras comerciais e as medidas proteccionistas conduzem a tensões entre países e, portanto, a conflitos sobre o abastecimento alimentar, enquanto as alterações climáticas afectam a produção alimentar global e conduzem à escassez e ao aumento de preços, o que por sua vez pode desencadear conflitos sobre recursos.

Embora as barreiras comerciais e os conflitos possam levar a aumentos de preços que tornam os alimentos inacessíveis para muitas pessoas, os conflitos sobre o abastecimento de alimentos podem levar à insegurança alimentar, à subnutrição e até à fome. E as “guerras alimentares” poderão ter um impacto significativo na economia global, conduzindo à instabilidade económica e à recessão.

Se há preocupação com “guerras alimentares”, então porque é que os governos ocidentais travam guerras contra os agricultores em nome das alterações climáticas?

A guerra contra os agricultores é um fenómeno global que ganhou força nos últimos anos. Várias formas de ataques, restrições e políticas impostas aos agricultores por governos, empresas e grupos ambientalistas ameaçam a subsistência dos agricultores, a segurança alimentar nacional e o abastecimento alimentar global.

Por exemplo, o governo holandês impôs regulamentações rigorosas sobre práticas agrícolas que, entre outras coisas, restringem o uso de fertilizantes azotados, o que levou a protestos e preocupações sobre a segurança alimentar.

Outro exemplo são as políticas do governo dos EUA, como: B. o Padrão de Combustíveis Renováveis, que levou a custos mais elevados para os agricultores e a rendimentos agrícolas mais baixos, tornando-lhes difícil competir com grandes empresas.

A guerra contra os agricultores continua. Ontem, os criadores de gado na Dinamarca foram avisados ​​de que os peidos e arrotos das suas vacas, ovelhas e porcos serão medidos e tributados a partir de 2030 o primeiro país do mundo a fazê-lo como parte da sua luta contra as emissões de metano.

E ontem a campanha No Farmers No Food divulgou o seguinte vídeo de um agricultor britânico. “Agora estamos sendo pagos para parar de cultivar alimentos e, em vez disso, cultivar flores silvestres”, disse ele.

https://twitter.com/i/status/1805890548256968723

Outras políticas de “alterações climáticas” que destroem a agricultura incluem a instalação de fontes de energia “verdes” em terras agrícolas de primeira qualidade. Uma petição do Reino Unido para impedir a instalação em massa de painéis solares em terras agrícolas de primeira qualidade diz: "A utilização de terras agrícolas de primeira qualidade para projectos de energia solar em grande escala... põe em risco a nossa segurança alimentar futura." (Você pode assinar a petição AQUI.)

Leia mais: Agricultores estão sendo forçados a deixar suas terras para produzir mais energia solar, alerta ex-líder sindical, Daily Mail, 28 de maio de 2024

Não é o aquecimento global ou uma “emergência” de alterações climáticas que poderá levar a “guerras alimentares” – é a guerra contra os agricultores. São os ataques aos agricultores que levam à escassez de alimentos, à insegurança alimentar e à instabilidade económica.

Mas essa não é a visão de mundo da Olam Agri. Na conferência de consumidores de Redburn Atlantic e Rothschild, Verghese apelou aos executivos da indústria de consumo reunidos, incluindo os chefes da Coca-Cola e da Associated British Foods, para "acordarem" e tomarem mais medidas em relação às alterações climáticas. Os governos deveriam impor um imposto sobre o carbono, argumentou ele.

Esta é a hipocrisia da agenda da crise climática e é uma profecia auto-realizável. Travar uma guerra contra os agricultores para “combater as alterações climáticas” e depois culpar as “alterações climáticas” pelas “guerras alimentares” é um ciclo interminável de problemas-reacção-solução. É a dialética hegeliana de manipular a opinião pública e controlar a sociedade criando um problema, provocando uma reação e depois oferecendo uma solução predeterminada. Uma solução que serve apenas as elites autoproclamadas e os seus objetivos.

Leia mais: Relatório mostra como um punhado de empresas está assumindo o controle do abastecimento alimentar mundial

Fonte