Apesar do que dizem os "especialistas", o Estado e o mercado sempre andaram de mãos dadas. Com o regresso de Trump à Casa Branca, a empresa de análise de dados Palantir está a desfrutar de um sucesso notável. Isto deve-se ao seu alinhamento tecnológico, financeiro e ideológico. Mas tão importante como ter sucesso em Silicon Valley é ter sucesso em Washington.
O CEO da Palantir, Alex Karp, é uma das figuras mais proeminentes da indústria americana de alta tecnologia. Embora seja menos conhecido do que Elon Musk ou Mark Zuckerberg, em poucos meses consolidou-se como um ator-chave na política de segurança da nova administração Trump.
Karp habituou-se a viajar na bagagem do presidente. Em maio passado, Trump levou Karp a bordo do Air Force One para fechar acordos com Mohammed bin Salman, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Um mês antes, foi apresentado ao xeque Tahnoun Bin Zayed, um dos homens fortes de Abu Dhabi, para discutir os principais projetos de inteligência artificial dos Emirados Árabes Unidos.
Numa era de declínio industrial, a Palantir representa o melhor da tecnologia americana aos olhos da nova administração, que também utiliza as suas aplicações de análise de dados como moeda de troca diplomática.
A Palantir tornou-se uma máquina de fazer dinheiro. Em cinco anos, sofreu um crescimento meteórico. A empresa cresceu de uma capitalização bolsista de 44 mil milhões de dólares na altura do seu IPO na Nasdaq em 2020 para mais de 350 mil milhões de dólares. Entrou para o clube das 20 empresas mais valiosas do mundo e está a aproximar-se rapidamente das gigantes tecnológicas.
A sua força é a vigilância, o controlo e a repressão, uma indústria com futuro: processar e analisar vastas bases de dados para extrair informações essenciais para a polícia, os serviços de informação e as forças armadas. Esta capacidade única permite a colaboração com importantes instituições federais, desde a saúde à defesa. Nos primeiros seis meses do ano, após o regresso de Trump à Casa Branca, a empresa assinou contratos governamentais no valor de 322 milhões de dólares, mais 12% do que no mesmo período do ano passado. No início de agosto, divulgou resultados recorde para o segundo trimestre, com receitas superiores a mil milhões de dólares, um aumento de 48%, e lucros de 327 milhões de dólares, duplicando num ano.
Monitorizar emigrantes
A sua receita provém principalmente de inúmeras ordens governamentais, que representam mais de metade da sua receita. No entanto, a Palantir nunca descartou colaborar com o setor privado. Nos últimos anos, expandiu o seu negócio com grandes empresas internacionais, como a fabricante de aviões Airbus, a Merck e a Société Générale. Recentemente, o governo assinou um contrato de 30 milhões de dólares para monitorizar a entrada e saída de migrantes no seu território. O objetivo é detetar estrangeiros com vistos caducados.
O mundo caminha para uma vigilância generalizada da população, e as aplicações informáticas da Palantir podem fazer com que os dados falem, mesmo que não relacionados, para revelar ligações entre pessoas ou acontecimentos. Podem encontrar elos "ocultos" no meio de um emaranhado de informações aparentemente desconexas.
Em vários posts anteriores, discutimos a história da Palantir, criada em 2003 para rastrear os responsáveis pelos ataques de 2001, inspirada nos esquemas do PayPal. A empresa foi inicialmente financiada pelaIn-Q-Tel, a CIA. O seu primeiro investidor foi nada mais nada menos que o bilionário Peter Thiel, um colaborador próximo de Trump. Foi ele quem sugeriu a Karp a ideia de criar uma plataforma semelhante para rastrear "terroristas". Supostamente, em 2011, a sua aplicação Gotham teria ajudado a localizar o esconderijo de Bin Laden antes do seu assassinato. Nunca foi apresentada qualquer evidência para esta farsa, que foi amplamente disseminada na época pela comunicação social americana.
'Um esforço para manter a América em primeiro lugar'
A lenda de uma empresa comprometida com o seu governo está gravada em reportagens fantasmagóricas dos media. Ela prospera com esta publicidade. Segundo Karp, a Palantir impediu inúmeros ataques "terroristas" na Europa. Os laços estreitos da Palantir com a comunidade de defesa sempre foram motivo de orgulho para o empresário, que chega mesmo a entregar-se à doutrina sobre a aliança entre Silicon Valley e o Pentágono. Num livro publicado no ano passado, intitulado "A República Tecnológica" (*), defende que a elite tecnológica está a perder tempo a criar aplicações de encontros e compras online em vez de se comprometer com o seu país. "Precisamos de um esforço nacional para manter os Estados Unidos em primeiro lugar", declarou no início de agosto, durante a apresentação dos resultados financeiros aos acionistas.
O sucesso da Palantir não se explica apenas pelos seus apoiantes políticos. A sua tecnologia faz milagres, e a ascensão da inteligência artificial colocou-a de volta no centro das atenções. A empresa e as suas aplicações baseadas em IA são comercializadas como uma solução para otimizar custos, tanto para grandes empresas como para orçamentos governamentais, após a purga política de Elon Musk, o efémero analista de despesas da administração Trump.
A empresa multiplicou os seus contratos com várias instituições públicas. No último trimestre, os seus contratos com o setor público aumentaram 53% em relação ao ano anterior. Vários dirigentes da Palantir ocuparam cargos importantes na Casa Branca, seguindo o princípio da porta giratória. O vice-presidente JDVance foi um dos primeiros investidores na Palantir, juntamente com Peter Thiel.
Outro dirigente da empresa, Jacob Helberg, antigo conselheiro de Karp, foi nomeado Subsecretário para o Crescimento Económico, Energia e Ambiente. Trata-se de contactos bem posicionados para defender os interesses de uma empresa privada envolvida em todos os principais projectos políticos do país.
Esta influência não se limita aos Estados Unidos. O campo de acção da Palantir estende-se à Europa, aproveitando a Guerra da Ucrânia. A empresa equipa soldados ucranianos com a sua tecnologia SkyKit, capaz de encontrar a combinação certa de satélites para observar um ponto específico no mapa e desenvolver planos de ataque. "Os nossos produtos podem ser utilizados para matar pessoas em determinadas circunstâncias", reconhece Karp.
A empresa mantém-se na vanguarda da tecnologia militar para garantir que não perde nenhum contrato. Acaba de ganhar um contrato de quatro anos para modernizar equipamentos da NATO avaliado em dezenas de milhões de dólares. A aplicação Maven Smart System, já utilizada pelas Forças Armadas dos EUA no Afeganistão, foi concebida para acelerar a tomada de decisões no campo de batalha e reforçar a coordenação das operações civis e militares. Esta é uma vantagem tática valiosa no contexto de novas guerras híbridas. A aplicação pode analisar o comportamento inimigo com a ajuda de inteligência artificial e ajustar os planos de ataque em tempo real.
Esta máquina de guerra tecnológica é apresentada como o sistema nervoso central das operações da NATO, que prometeu utilizar a solução durante um período limitado.
No Kuwait, a riqueza crescente da Fatah contrastava com a vida modesta de Arafat. Escreveu o israelita Danny Rubinstein: "Quanto mais os dirigentes à sua volta pareciam homens de negócios com um estilo de vida corrupto, mais se evidenciava o seu ascetismo e modéstia. Ele parecia um símbolo de integridade, merecedor de superioridade moral sobre os colegas da liderança."
Às vezes, Arafat tirava partido desta disparidade. Em reuniões que se prolongavam durante a noite, antes de se instalar nos territórios ocupados, em 1994, quando muitos queriam pôr fim à discussão, ele fazia observações como esta: "Compreendo que tenham de ir para casa, para as vossas famílias e negócios. Eu não tenho nada disso e vou continuar a trabalhar, mas depois não venham queixar-se de que não vos consultei e tomei as decisões sozinho."
A casa de Arafat no Kuwait pertencia ao Ministério das Obras Públicas. Foi originalmente construída para oficiais britânicos. Quase desprovida de mobiliário (excepto equipamento de escritório, telefones, aparelhos de rádio e de televisão, ligados 24 horas por dia), tinha um jardim exterior e uma elevada vedação à volta, seguindo os preceitos islâmicos de preservar as mulheres da vizinhança de olhares indiscretos.
O que realmente distinguia a vivenda de Arafat das outras era os automóveis estacionados à porta. Mais tarde, numa entrevista com os biógrafos Janet e John Wallach, daria mais pormenores sobre o único luxo da sua extravagante juventude. "Sabe quantos carros eu tinha?", perguntou, e respondeu contando pelos dedos: "Entre seis e sete: um Thunderbird, no Líbano, um Volkswagen em Damasco, um Chevrolet e três ou quatro outros no Kuwait. O meu favorito era o Thunderbird."
Curiosamente, no Kuwait há quem se lembre de Arafat ao volante do seu Ford Thunderbird, descapotável e de duas cores. Conduzia-o a alta velocidade, sempre a buzinar e acenar aos transeuntes, de óculos escuros. Os amigos detestavam ir ao seu lado. Porque ele gesticulava muito enquanto falava e tirava frequentemente as mãos do volante.
Desde miúdo que Arafat estava habituado a ser um quase um eremita. Nunca frequentava festas, não ia à praia, nem ao cinema, nem a museus, nem sequer a jogos de futebol. Raramente comia em restaurantes. Tudo o que as pessoas normais fazem nos seus dias livres não tinha qualquer interesse para Arafat, à excepção talvez de passar alguns minutos em frente do televisor a ver desenhos animados, como Bugs Bunny ou Tom & Jerry. Estes eram os seus favoritos. Adorava ver os bonecos à pancada, e ria-se muito quando o pequeno rato enganava o ardiloso gato.
Arafat sempre dormiu pouco - deitava-se (às vezes de pijama, quando não havia perigo) habitualmente às quatro ou cinco horas da madrugada. Levantava-se por volta das 10 da manhã. Quando podia, fazia uma sesta das quatro às seis da tarde. A sua cama era muitas vezes improvisada no chão dos seus múltiplos esconderijos. Para manter a forma, fazia ginástica numa bicicleta fixa ou jogging durante uns 20 minutos. Infatigável, caminhava cerca de meia hora por dia, para descomprimir das "18 a 19 horas diárias de trabalho, sete dias por semana, 365 dias por ano". Dizia com orgulho: "Nunca pensei em tirar férias." Para não perder tempo, o devoto muçulmano sunita concentrava as cinco orações obrigatórias do dia numa só. Do pescoço não tirava nunca um fio de ouro branco com uma inscrição corânica num pendente.
Antes de se instalar nos territórios ocupados em 1994 e ficar cercado em Março de 2002 pelo exército israelita no seu quartel-general em Ramallah (Cisjordânia), Arafat adorava viagens - fazia uma média de 10 por mês. Um dos seus colaboradores lembra-se até de, num só mês, o ter acompanhado a 45 países, ou seja, uma média de um país e meio por dia.Uma das suas mais longas tournées levou-o de Tunes a Pequim, a Pyongyang, ao Laos, a Hanói, ao Bangladesh e a Cabul. No avião dormia, de uma maneira geral, com um fato de treino (azul, amarelo ou verde) e uma máscara preta nos olhos. Repousava o pescoço numa pequena almofada especial, devido a problemas de coluna que também o forçavam a usar de quando em vez um colar cervical.
"Para o povo palestiniano, cuja liberdade de movimentos é tão restrita, e que em muitos casos não tem sequer passaportes para viajar, ter um líder que podia ir para qualquer lado e não precisar de passaporte era como um sonho tornado realidade", observou o jornalista Thomas Friedman. "Melhor ainda, quando Arafat chegava, nenhum agente da alfândega o encaminhava até um gabinete especial para ser revistado por ser palestiniano. Ele recebia salvas de 21 tiros de canhão, tinha batedores, bandas militares, passadeira vermelha e bandeiras palestinianas flutuando no ar. Arafat adorava estas chegadas, inspeccionar guardas de honra e ser tratado como um chefe de Estado igual aos outros."
Se gostava de viajar, Arafat também adorava banhos de multidão. Numa visita à Roménia, as antigas autoridades comunistas levaram-no um dia a passear pelo metropolitano de Bucareste, tendo ordenado uma única paragem numa estação sem passageiros. Arafat ficou desiludido por não haver ninguém para o adular. Insistiu em descer na estação seguinte repleta de gente, a uma hora de ponta, satisfazendo o seu ego por a maioria das pessoas o reconhecer. A vontade de aparecer e agradar foi sempre tão grande que, numa outra ocasião, em 1967, ao chegar ao Cairo, convenceu um amigo a ir às cerimónias fúnebres do chefe da igreja cristã copta egípcia. Ao chegar ao local deparou com um grupo de dignitários religiosos dispostos em círculo. Estava escuro, mas isso não impediu Arafat de andar às voltas a beijar todos.
De repente parou, como que petrificado, e perguntou ao amigo, Clóvis Maksoud: "O que é isto?" 0 amigo riu-se, e Arafat respondeu à sua própria pergunta: "Isto é o cadáver! "
Nas viagens, a bagagem de Arafat nunca era pesada – cinco uniformes militares quase idênticos, um blusão ao estilo do exército inglês, camisas de manga comprida (três verde-claras para o Verão e duas caqui para o Inverno). Chegou a usar um dos uniformes durante mais de 20 anos, sobretudo em ocasiões especiais. A última vez que envergou fato e gravata foi em 1968, quando fez uma escala nocturna em Paris, a caminho de Argel. Desde então quase nunca mais abandonou a farda medalhada (com os bolsos cheios de canetas de cor, um dos seus fétiches), sempre acompanhada do kaffiyeh ou boné militar e, claro, da sua pistola Smith & Wesson com seis balas expostas num carregador à cintura. A Fidel Castro prometeu que usaria smoking no dia da proclamação de um Estado palestiniano, mas recusou adornar-se com "roupas civis" para honrar a cerimónia de assinatura dos Acordos de Oslo, nos jardins da Casa Branca, em Washington, em 1992.
Arafat só possuía um relógio, um velho Rolex. Os óculos podiam mudar de lentes, mas não as antiquadas armações. A simplicidade não impedia, porém, a vaidade. Alan Hart conta que, uma tarde, no Iémen, assistiu a uma cena em que Arafat se pôs de pé para ajustar a farda. Queria ter a certeza que as bainhas das calças estavam certas. Não satisfeito, ainda sacudiu imaginários cabelos que estariam sobre a jaqueta. Tudo isto para falar com o rei Fahd da Arábia Saudita via rádio. Durante o cerco israelita de Beirute, em 1982, fazia questão de andar sempre com as botas engraxadas.
Janet e John Wallach aperceberam-se de que Arafat, não obstante andar sempre a correr de um lado para o outro, perdia a noção do tempo quando estava na banheira e demorava "mais de meia hora" a vestir-se. Compensava isso não fazendo a barba que muito contribuía para a sua fealdade. Arafat desmentia que os pêlos ralos no rosto serviam para ocultar uma doença de pele (tem manchas brancas devido a um problema de pigmentação), dizendo apenas que cortá-los "era um desperdício de tempo necessário à revolução". Só usava a lâmina ou máquina de barbear para iludir potenciais assassinos. Sempre que o inquiriam a este respeito a sua resposta favorita era a de que fazer a barba consumiria vários minutos do seu tempo como representante dos palestinianos. Às vezes, chegava a calcular quanto tempo demoraria a barbear-se e multiplicava isso por dias e meses concluindo que, no total, um homem gastava meio ano ou mais da sua vida a fazer a barba.
Arafat distinguia-se também da sua entourage pelas refeições simples e quase frugais. Preferia peixe e frango, legumes, arroz, cenouras e iogurte. À sobremesa, além de fruta fresca e tâmaras tunisinas, comia queijo e chocolates. O que mais adorava era mel - acreditava que "mantém a juventude das células humanas, por ser um produto natural". Comia-o às colheres ou em tostas ou com chá. Também apreciava chá misturado com flocos de cereais. Não consumia bebidas alcoólicas e não apreciava tabaco. "Nunca fumei um cigarro ou um cachimbo por prazer, mas noutros tempos cheguei, fazê-lo como parte dos meus disfarces", disse a Alan Hart."Considero-me um fumador passivo porque estou rodeado de gente que não pára de fumar." Abu Iyad, um dos seus mais próximos colaboradores, por exemplo, fumava por dia cinco a seis maços de cigarros, segundo ele próprio confessou.
A saúde era algo que preocupava Arafat. Ingeria enormes quantidades de vitaminas e de vários medicamentos - o que terá sido uma das causas das tremuras nas mãos e nos lábios. Os cuidados extremos não evitaram, porém, que lhe tivessem sido diagnosticados a doença de Parkinson, um cancro no estômago e uma leucemia.
Sob cerco em Ramallah, teve sempre autorização para ser consultado pelo médico particular de longa data. Quando o seu estado se agravou, em 26 de Outubro de 2004, uma equipa de 15 clínicos de vários países foi enviada de emergência para o socorrer. Os franceses, que sempre o consideraram mais solução do que problema e que por duas vezes escoltaram a sua segurança (em 1982 em Beirute e em 1983 em Tripoli), abriram-lhe as portas da melhor unidade de serviços hematológicos de Paris, o hospital militar Percy.
(Retirado de “ARAFAT, a pedra que os palestinianos lançaram ao mundo” de Margarida Santos Lopes, ed. Público , 2004)
WRM (Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais), 9 Julho 2018
Em 1989 houve uma guerra no vale do Lila, Portugal. Centenas de pessoas juntaram-se para destruir 200 hectares de plantações de eucalipto, com medo que as árvores lhes roubassem a água e trouxessem o fogo.
Em 1989 houve uma guerra no vale do Lila, Portugal. Centenas de pessoas juntaram-se para destruir 200 hectares de plantações de eucalipto, com medo que as árvores lhes roubassem a água e trouxessem o fogo.
No 31 de março de 1989, 800 pessoas juntaram-se na Veiga do Lila, uma pequena aldeia de Valpaços, e protagonizaram um dos maiores protestos ambientais que alguma vez aconteceram em Portugal.
A ação fora concertada entre sete ou oito povoações de um escondidíssimo vale transmontano. Depois juntaram-se ecologistas à causa. Uma tarde, largaram todos para destruir os 200 hectares de eucalipto que uma empresa de celulose andava a plantar na quinta do Ermeiro, a maior propriedade agrícola da região.
À sua espera tinham a Guarda Nacional Republicana (GNR), duas centenas de agentes. Formavam uma primeira barreira com o objetivo de impedir o povo de arrancar os pés das árvores, mas eram poucos para uma revolta tão grande.
A tensão subiria de tom ao longo da tarde. “Houve ali uma altura em que pensei que as coisas podiam correr para o torto”, diz agora António Morais, o cabecilha dos protestos. Mas também lá estava a imprensa, e ainda hoje o homem acredita que foi por isso que a violência não escalou mais. Algumas cargas, pedrada de um lado, cacetadas do outro, mas nada que conseguisse calar um coro de homens e mulheres, canalha e velharia: “Oliveiras sim, eucaliptos não”.
“Não queríamos arder aqui todos”
Um par de meses antes da revolta, António Morais, proprietário de vários hectares de olival no Lila, percebeu que uma empresa subsidiária da Soporcel (1) se preparava para substituir 200 hectares de oliveiras por eucaliptalpara a indústria do papel. “Tinham recebido fundos perdidos do Estado para reflorestar o vale sem sequer consultarem a população”, revolta-se ainda, 28 anos depois.
“Nessa altura o ministério da agricultura defendia com unhas e dentes a plantação de eucalipto.” Álvaro Barreto, titular da pasta, fora anos antes presidente do conselho de administração da Soporcel e tornaria ao cargo em 1990, pouco depois das gentes de Valpaços lhe fazerem frente.
“A tese dominante dos governos de Cavaco Silva era que urgia substituir o minifúndio e a agricultura de subsistência por monoculturas mais rentáveis, era preciso rentabilizar a floresta em grande escala”, diz António Morais. O eucalipto adivinhava-se uma solução fácil. Portugal, aliás, ganharia em poucos anos um papel de destaque na indústria de celulose.
“Comecei a ler coisas e percebi que o eucalipto nos traria grandes problemas”, continua António Morais. “Por um lado, numa região onde a água é tudo menos abundante, teríamos grandes problemas de viabilidade das outras culturas. Nomeadamente o olival, que sempre foi a riqueza deste povo. E depois havia os incêndios, que eram o diabo. São árvores altamente combustíveis e que atingem uma altura muito grande.”
Na terra quente transmontana o ano são oito meses de inverno e quatro de inferno. O fogo, tinha ele a certeza, chegaria com aquele arvoredo.
Começou a conversar sobre o seu medo com algumas personalidades do vale. “Lentamente começou a formar-se um consenso de que o lucro fácil do eucalipto seria a médio prazo a nossa desgraça. Não queríamos deixar secar a nossa terra. E não queríamos arder aqui todos. Tínhamos de destruir aquele eucaliptal, custasse o que custasse.”
Anatomia da conspiração
O núcleo duro estava formado por dezena e meia de agricultores capazes de mobilizar o resto do povo. “Aos domingos, íamos às aldeias e no fim da missa explicávamos às pessoas o que podia acontecer à nossa terra”, lembra Natália Esteves, descendente de uma família de grandes produtores de azeite feita de repente líder de protesto ecológico. “E também íamos de casa em casa, esclarecer quem não tinha estado nas assembleias.”
Ao início houve renitência, a madeira valeria sempre mais do que a azeitona, e a castanha ainda não rendia o que rende hoje. “Mas tentamos sempre centrar a conversa no que aconteceria daí a uns anos, dizer que os eucaliptos secariam os solos e o povo ficaria refém de uma única cultura, que se alguma coisa corresse mal não teriam mais nada.”
O que mais assustava aquela gente, no entanto, era o fogo. “Onde há eucalipto, tudo arde. E então o povo já não chamava a árvore pelo nome, mas por fósforos.”
João Sousa era nessa altura presidente da junta da Veiga do Lila. Com 86 anos e uma destreza de 30, hoje estuga o passo para mostrar a zona que podia ter sido caixa de fósforos. “Vê, nem um eucalipto plantado. E o nosso vale há mais de 30 anos que não arde.”
A tragédia florestal portuguesa das últimas décadas dá a este povo a impressão que eles sim, tinham razão há muitos anos, quando o governo e as autoridades lhes diziam o contrário. “Podem achar que somos gente do campo, sem educação nem conhecimento, mas nós cá soubemos defender a nossa terra”, diz o velhote.
A guerra
Os primeiros combates foram ataques furtivos do povo, desorganizadamente, para arrancar pés de eucalipto. Duas semanas antes da guerra, no Domingo de Ramos, as coisas aqueceram. “Juntámos duas centenas de pessoas aqui destas aldeias e os donos da empresa chamaram a GNR”, lembra António Morais. “Quando eles chegaram já tínhamos dado cabo de uns bons 50 hectares de eucaliptal.” Nesse dia o povo fugiu. Mas anunciaram que voltariam depois da Páscoa.
A 31 de março de 1989, domingo depois da Páscoa, o povo juntar-se-ia todo na Veiga do Lila para dar cabo do eucaliptal que restasse. A aldeia enchera-se de jornalistas, havia até um helicóptero a cobrir os acontecimentos do ar. Não era preciso usar enxadas nem sacholas, os eucaliptos tinham sido plantados há pouco tempo e arrancavam-se com as mãos. A polícia tentava fazer uma linha de defesa, mas duas centenas de agentes não chegavam para aquela gente toda.
Numa hora, foram arrancados 180 hectares de pequenas árvores. Uma dezena de guardas saíram a cavalo, era demonstração de força mas não surtiu resultado. A Soporcel tinha construído socalcos para plantar os eucaliptos e, agora, os animais não conseguiam descê-los.
Todos por um
A guarda especializada avançava agora colina abaixo com escudos e capacetes. José Oliveira, um agricultor da pequena aldeia de Émeres, tentou escapar pela lateral, mas foi logo caçado pela guarda. No bolso trazia um revólver e foi isso que o tramou. “Levaram-no logo detido para dentro do jipe por posse de arma ilegal”, conta agora a sua viúva, Ester.
Aquela detenção marcaria o início do fim da guerra. “As pessoas tinham recuado por causa do corpo de intervenção, mas quando se aperceberam que um dos nossos estava preso começaram a gritar que não arredariam pé enquanto ele não fosse solto”, diz António Morais. Ester anui, “foi o vale inteiro que salvou o meu homem.” Agora já não havia pedras, havia gritos. Que libertassem o tio Zé e rápido.
Uma dezena de organizadores do protesto seriam chamados à barra da justiça, um ano depois enfrentaram acusação de invasão de propriedade privada e foram condenados com pena suspensa.
“Ainda vieram uns engenheiros da Soporcel dizer que retirariam a queixa se nos comprometêssemos a não destruir uma nova plantação de eucalipto. Disse-lhes que nem pensar, aqui nunca teríamos árvores dessas no nosso vale.” Nas noites seguintes arrancou-se à socapa quase tudo o que faltava.
A Soporcel acabaria por desistir e vender a propriedade.
Hoje, o Ermeiro é terra de nogueiras e amendoeiras, oliveiras e pinho. Nunca ardeu. Naquele 31 de março de 1989, o povo uniu-se e, diz agora, salvou-se. “Nós é que tínhamos razão”, repetem uma e outra vez, repetem todos.
(1) A Soporcel fundiu-se com a empresa Portucel para formar o Grupo Portucel Soporcel, e logo passou a fazer parte da fábrica portuguesa de papel The Navigator Company
Qual o papel da cultura na luta de classes durante a II República?
Federico García Lorca foi muito mais do que um poeta: foi um revolucionário cultural cuja obra personificou o espírito mais livre e combativo da II República. O seu assassinato, a 18 de agosto de 1936, não foi um crime passional ou acidental, mas um ato deliberado de repressão política. Hoje, a sua memória perdura, assombra-nos e recorda-nos que onde há arte comprometida, há perigo para os que estão no poder.
Por Cristóbal García Vera
A 18 de agosto de 1936, Federico García Lorca foi assassinado em Granada pelas forças franquistas. Quase noventa anos depois deste crime, a sua figura continua presente na memória coletiva como símbolo de liberdade, cultura e resistência. Lorca não foi uma vítima acidental do golpe militar, mas um alvo político. A sua escrita, o seu teatro, a sua voz e a sua vida personificaram exatamente aquilo que o fascismo procurava destruir. Por isso, recordá-lo hoje não é apenas um ato de justiça histórica, mas também uma lição viva sobre o poder transformador da cultura e a necessidade de a defender.
Uma República em Disputa: Reformas, Esperanças e Limites de Classe
A Segunda República Espanhola, nascida a 14 de abril de 1931, marcou uma rutura histórica com a monarquia. A sua chegada trouxe consigo reformas importantes: o sufrágio feminino, o ensino público laico e gratuito, uma tentativa de reforma agrária, estatutos de autonomia e direitos laborais, entre outras. A República visava modernizar a Espanha, democratizar a vida social e enfraquecer o poder das antigas estruturas: a Igreja, o Exército e os latifundiários.
No entanto, a Segunda República não implicou uma revolução, mas antes uma transformação limitada. Foi uma república burguesa que procurou regular as tensões de classe sem romper com o sistema capitalista. Procurou conter as contradições de uma sociedade exploradora com reformas parciais. O receio de um avanço radical das classes trabalhadoras levou o próprio governo republicano a interromper as reformas mais profundas para não desencadear a resistência dos poderosos. Esta tentativa não impediu a reação das classes dominantes da sociedade espanhola, que culminou com o golpe militar de julho de 1936.
Lorca e a cultura como trincheira popular
Neste contexto, Federico García Lorca tornou-se muito mais do que um poeta. Foi um intelectual comprometido com o seu tempo, um artista que não só observou, mas também interveio. A sua obra nunca foi uma torre de marfim; foi uma trincheira.
Com La Barraca, a companhia de teatro universitário que fundou e dirigiu, levou o teatro clássico às aldeias mais pobres , fazendo da cultura um direito, e não um privilégio. Acreditava que todos os seres humanos tinham o direito não só de comer, mas também de saber. O seu trabalho com as Missões Pedagógicas fazia parte de uma estratégia republicana para libertar o povo da ignorância, uma tarefa profundamente revolucionária.
Para Lorca, o teatro era uma arma educativa e emancipadora. Não era apenas estético: era político. Queria que as pessoas se vissem no palco, pensassem, sonhassem, se reconhecessem como sujeitos de direitos e de história.
É por isso que o seu trabalho foi atacado e rotulado de comunista e líder de um "gang estudantil" que agitava as consciências rurais. A cultura popular, quando se torna crítica, incomoda sempre os poderosos.
Crítica ao capitalismo, solidariedade com os oprimidos
Lorca não precisou de escrever panfletos para expressar o seu pensamento político. A sua obra é perpassada por uma profunda crítica ao sistema capitalista, à repressão de classe, ao racismo e à violência estatal.
"Poeta em Nova Iorque", escrito durante a sua estadia nos Estados Unidos, é um grito comovente contra o capitalismo moderno. Nele, retrata Nova Iorque como um lugar de "fios e morte", onde o homem é escravo da máquina. Lorca denuncia sem rodeios um "sistema económico cruel que deve ser massacrado". A sua defesa dos afro-americanos e a sua crítica ao racismo institucional consolidam-no também como um aliado dos povos oprimidos.
Em Romancero Gitano, o cigano é um símbolo da liberdade reprimida pela Guarda Civil, instituição que Lorca retrata como brutal e desumanizadora . O cigano, tal como o negro em Harlem, tal como o pobre na Espanha rural, é vítima de uma ordem que marginaliza, confina e destrói.
E em A Casa de Bernarda Alba , Lorca retrata o autoritarismo doméstico como uma metáfora da repressão nacional. Bernarda, a mãe tirânica, representa a Espanha conservadora, classista e patriarcal. "Os pobres são como os animais", diz ela. E esta frase resume o desprezo da classe dominante por aqueles que nada possuem.
A obra de Lorca não é apenas poesia, mas uma análise social perspicaz e crítica. Ela identifica os sujeitos oprimidos, denuncia as estruturas que os esmagam e realça a necessidade de rebelião.
Compromisso político e antifascismo
Embora Lorca afirmasse ser "não um político, mas um revolucionário ", as suas ações diziam muito. Admirava a Revolução Russa, assinou manifestos da Frente Popular, saudou os trabalhadores no Primeiro de Maio e defendeu poetas perseguidos pelo nazismo. Definiu-se como "um membro do partido dos pobres".
O seu compromisso não era partidário, mas profundamente ideológico. Entendia que a sua arte tinha uma missão social. Sabia que, no meio da tempestade, a neutralidade significava cumplicidade. Apoiava a República, não porque esta fosse perfeita, mas porque representava uma possibilidade de progresso face à barbárie reaccionária que se avizinhava. A sua clareza tornava-o um alvo.
Crime político
O assassinato de Federico García Lorca não foi um acto provocado por rancores pessoais, como nos querem fazer crer os interessados em apagar a verdadeira importância do poeta, tanto ontem como hoje. Foi uma execução política planeada e simbólica.
Foi preso na casa do seu amigo Luis Rosales, apesar dos laços falangistas da sua família . O seu assassinato foi cometido por homens ligados à CEDA e à Guarda Civil. Foi executado ao lado de um professor republicano e de dois militantes anarquistas. Foi uma execução com a intenção de ser "exemplar": matar a inteligência, a arte e a dissidência.
Acusaram-no de ser comunista e homossexual. O fascismo precisava de um inimigo total. E em Lorca, como em tantos outros, encontrou a combinação perfeita de tudo o que detestava: cultura, liberdade sexual, ideias progressistas, solidariedade para com os oprimidos, beleza sem limites.
O assassinato de Lorca fez parte do terror contra-revolucionário . Foi um aviso, uma purga , uma tática. Ao eliminar os intelectuais comprometidos, ao semear o medo, o fascismo procurou restaurar a ordem social dos latifundiários, bispos e militares. Queria apagar a memória de que outro país era possível.
O legado: um corpo ausente, uma voz que nunca cessa
O corpo de Lorca nunca foi encontrado. Jaz ainda numa vala comum em Granada, ao lado de outros assassinados por Franco. Mas a sua ausência física é também uma presença viva. A sua poesia, o seu teatro, as suas palavras permanecem lá, incandescentes, denunciando o crime e exigindo justiça.
Hoje, Lorca não pertence apenas à literatura. Pertence à história das lutas populares, aos movimentos de memória, aos que acreditam que a cultura é um campo de batalha . A sua vida foi um exemplo de empenho, e a sua morte, um testemunho do preço que se pode pagar por desafiar o poder.
Recordá-lo a 18 de agosto, como no resto do ano, não é apenas um ato de memória. É um ato político. Porque as forças e as ideias que o mataram ainda não desapareceram e ainda têm de ser combatidas. E porque a liberdade pela qual Lorca lutou — a do conhecimento, do amor, da arte — continua a ser uma conquista pendente para milhões de pessoas.
A voz de Lorca foi silenciada por balas. Mas o seu eco multiplicou-se. E enquanto as suas peças forem encenadas, a sua poesia for lida e a sua morte for mencionada pelo que foi — um crime de classe, de ódio e de poder — o seu assassinato será inútil.
Em 15 de agosto de 1936, as tropas rebeldes, sob o comando do General Yagüe, tomaram a cidade de Badajoz, desencadeando uma repressão sádica e desmedida.
Faz menos de um mês que alguns soldados se revoltaram, dando um golpe contra o Governo da Segunda República. Este golpe não triunfou, graças ao fato de que em muitas cidades do país a população civil e as tropas leais pararam a revolta, iniciando a Guerra Civil.
Depois disso, o rebelde general Francisco Franco assume o comando das tropas africanas e, ajudado pelas aeronaves fascistas nazistas alemãs e italianas, atravessa o Estreito de Gibraltar. Apoiadas pelos bombardeiros de Hitler e Mussolini, as tropas rebeldes partiram para o norte para tomar Madrid; em 1 de agosto, o exército de Franco alcançou e assumiu a cidade de Sevilha.
É então que Franco decide avançar pela Extremadura, para unir as áreas ocupadas pelos fascistas a oeste e controlar a fronteira entre Portugal e Espanha. As ordens são claras para os rebeldes: eles devem agir com severidade.
Pouco depois da captura de Mérida, o exército de Yagüe instalou-se em frente a Badajoz; Após três dias de bombardeamentos na cidade, em 14 de agosto de 1936, começou o ataque à cidade...
Em 7 de Agosto de 1936, a Coluna da Morte, as tropas golpistas comandadas por Queipo de Llano, acompanhadas por aviões Alemães e Italianos, chegaram a Almendralejo. Aqui, as tropas leais à República não oferecem grande resistência e retiram, exceto cerca de 40 milicianos que se entrincheiraram na torre da Paróquia da Purificação. Por esta razão, os comandantes fascistas decidem queimar e canhonear a paróquia, com os resistentes lá dentro.
Estima-se que cerca de 1.000 civis foram assassinados momentos após a captura de Almendralejo pelas mãos do exército de Franco.
Em 10 de agosto, a Coluna da Morte consegue tomar Mérida, expulsando os Republicanos e unindo assim os territórios controlados pelo lado rebelde. Depois, o General Yagüe assume o comando das tropas e avança em direção a Badajoz.
Muitas pessoas da zona tentaram refugiar-se em Portugal antes da chegada dos fascistas, mas a ditadora Oliveira Salazar apoiou as tropas do exército de Franco, permitindo o seu rápido avanço pelo oeste e entregando as pessoas que chegaram à fronteira portuguesa fugindo do guerra.
Logo após a captura de Mérida, o exército de Yagüe se estabeleceu em frente a Badajoz; após três dias de bombardeios na cidade, em 14 de agosto de 1936, o assalto a ela começou. A resistência republicana não foi suficiente e, após poucas tentativas, os militares fascistas conseguiram penetrar no muro.
A partir desse exato momento as tropas do genocida General Yagüe realizaram um dos maiores massacres da Guerra Civil na capital Badajoz. Os soldados de Franco assassinam na rua os milicianos que, tendo jogado seus rifles no chão, se renderam em seu rastro; eles até assassinaram 43 deles que ficaram feridos e indefesos no hospital. Por volta das 12 da noite o fascismo acabou prevalecendo em Badajoz.
Praça de touros de Badajoz, 1936
Estima-se que 4.000 pessoas foram assassinadas pelas tropas de Yagüe, o Açougueiro de Badajoz, que em entrevista reconheceu os fatos e o número de assassinatos.
As horas seguintes foram horripilantes para a História; algumas crônicas dizem que os corpos de civis assassinados foram empilhados nas ruas às centenas. Crianças, mulheres e homens foram levados para a Praça de Touros, a princípio para serem fuzilados ali, mas depois as instalações foram utilizadas para abrigar todas aquelas pessoas suspeitas de não serem fiéis ao levante fascista ou que poderiam ser de esquerda, homossexuais, sindicalistas, .., e depois atirou neles no cemitério.
Enquanto os prisioneiros civis eram levados ao muro do cemitério para serem assassinados, os que permaneciam na Praça de Touros eram humilhados e torturados junto com os corpos que os rebeldes estavam removendo. Os corpos foram levados para as proximidades do próprio cemitério, onde foram cremados e enterrados em uma vala comum.
Estima-se que 4.000 pessoas foram assassinadas pelas tropas de Yagüe, o Açougueiro de Badajoz, que em entrevista reconheceu os fatos e o número de assassinatos.
Quando me lembro do que aconteceu, várias coisas vêm à mente, uma delas é o fato comovente de que essa mesma coisa continua a acontecer e a se repetir em todo o mundo sob os mesmos pretextos e pelas mesmas razões: ódio, intolerância, supremacia.., a falta de humanidade e fraternidade. A segunda coisa que me passa pela cabeça é que, talvez, estas histórias fatais continuem a repetir-se porque não conseguimos aprender e recordar a dor que causaram há tempos.
O genocídio de Yagüe provocou reações desfavoráveis na imprensa internacional; por esta razão, o lado fascista empreendeu campanhas de propaganda contra os republicanos
Sou da Estremadura, de Plasencia, e raramente tinha ouvido falar do que tinha acontecido na terra onde vivo; é difícil aprender com a História quando a memória é alterada e não se fazem esforços para a recuperar. Em Plasencia e Cáceres o Golpe fascista triunfou, ambas as cidades permaneceram fortemente militarizadas e sacos e caminhadas foram realizados durante os primeiros meses da Guerra. Em Cáceres, por exemplo, o governo local foi substituído e as greves que a classe trabalhadora empreendeu contra o regime militar foram reprimidas; em Plasencia, a Praça de Touros também se tornou um campo de concentração e os detidos foram forçados a fazer trabalhos forçados no que hoje é o Parque de los Pinos.
O massacre de Badajoz foi um episódio terrível, tanto que um oficial nazista presente, Hans von Funk; aconselhou Hitler em um relatório a não enviar tropas alemãs para a Espanha porque “a selvageria do exército rebelde minaria o moral dos soldados nazistas”.
Além disso, o genocídio de Yagüe provocou reações desfavoráveis na imprensa internacional; por esta razão, o lado fascista empreendeu campanhas de propaganda contra os republicanos, atribuindo-lhes, por exemplo, a autoria dos atentados de Durango, Gernika, Castellón... O silêncio também foi imposto; esses acontecimentos nunca tinham acontecido, milhares de assassinatos foram silenciados e relatórios e atas destruídas.
Apesar de tudo, a História pode voltar a chegar até nós; por vezes fá-lo sob a forma de dor e sofrimento, como o daquelas pessoas que foram torturadas, ou daquelas que nunca puderam despedir-se das suas famílias, daquelas cujas cidades, as suas casas e as suas vidas foram destruídas aqueles que nunca foram autorizados a procurar seus entes queridos e que por 40 anos nem sequer foram autorizados a falar sobre isso.
Hoje os responsáveis por esses crimes contra a humanidade: Yagüe, Asensio, Mola, Queipo de Llano.., são homenageados com ruas e praças. Alguns que ainda estão vivos são reconhecidos pelos “méritos” desses horrores, enquanto os seus crimes permanecem sem julgamento. Por seu lado, o muro do cemitério de Badajoz onde os buracos de bala serviam de lembrança, foi coberto pela Câmara Municipal e milhares de pessoas com nomes e apelidos permanecem silenciadas sob as terras deste país.
Pouco podemos fazer por todas as vítimas que sofreram a guerra, mas podemos restaurar a memória, para ajudar todos aqueles que ainda lamentam a perda e para aprender e garantir que coisas como esta nunca se repitam em qualquer parte do mundo, porque se se repetissem apagaríamos dolorosamente a dor da História.
“Badajoz, 17. – Vou partir. Quero deixar Badajoz, custe o que custar, o mais depressa possível e com a firme promessa à minha própria consciência de que não mais voltarei aqui. Por muitos anos que me conserve na vida jornalística, jamais se me deparará, por certo, acontecimento tão impressionante como este que me trouxe a terras abrasadoras de Espanha e me conseguiu desafinar por completo os nervos. Não se trata de uma piuguice ridícula, dum sentimentalismo excessivo. Basta ter uma mediana formação moral e estar sinceramente fora das paixões que se chocam para não poder presenciar a frio as cenas horríveis desta guerra civil tremenda que ameaça devorar a Espanha, destruindo para sempre o amor e semeando ódios bem fundos.
Antes de abandonar, porém, esta cidade, onde a paz não voltará com certeza a reinar tão cedo – digo paz e não sossego -, desejo abordar ainda um aspecto deste extraordinário assunto. Entrei aqui ontem, às 10 horas da manhã. Os cadáveres que vi não eram os mesmos que hoje encontro, em locais diversos. As autoridades são as primeiras a divulgar, para que se veja como é inflexível a sua justiça, que as execuções são em número muito elevado. Que fazem então dos corpos? Onde poderão enterra-los em tão curto prazo? Quem disporá de tempo para o fazer? Decerto que os serviços de comando deste exército que ocupa agora a cidade não deixou de pensar numa solução. Várias pessoas a quem me dirijo, para tentar satisfazer a minha curiosidade, parecem temer dar-me qualquer resposta.
O acaso, um mero acaso, põe-me em contacto com um sacerdote, que, ao saber-me português, me faz o melhor acolhimento e proporciona a solução para a minha incógnita: os mortos são tantos que não é possível dar-lhes sepultura imediata. Só a incineração em massa conseguirá evitar que os corpos, acumulados, se putrefaçam, com grande perigo para a saúde pública. E foi essa operação macabra que hoje começou a realizar-se às 6 horas da manhã no cemitério, provocando a grande fumaceira que, quando vinha do Caia, observei num ponto que me indicaram como sendo o cemitério.
Graças à companhia deste cura amável, junto do qual não mais encontrei dificuldades, posso ir até ao cemitério da cidade, que fica a cerca de dois quilómetros, próximo da estrada de Olivença. É um cemitério simples de província, com o clássico muro branco e um largo portão de ferro, em que a vigilância dos guardas é hoje bastante apertada. Mas nenhuma porta se fecha hoje, diante de nós, com este salvo-conduto humano, que providencialmente se nos deparou.
Há dez horas que a fogueira arde. Um cheiro horrível penetra-nos pelas narinas a tal ponto que quase nos revolve o estômago. Ouve-se de vez em quando uma espécie de crepitar sinistro da madeira. Nenhum artista, por mais genial que fosse, seria capaz de reproduzir em tela esta impressionante visão dantesca.
Ao fundo, num degrau cavado na terra, com o aproveitamento de uma diferença de nível, encontram-se, sobre traves de madeira transversais, semelhantes às que se usam nas linhas férreas, numa extensão talvez de quarenta metros, mais de 300 cadáveres, na sua maioria carbonizados. Alguns corpos, arrumados com precipitação, estão totalmente negros, mas outros há em que os braços ou as pernas, intactos, escaparam às labaredas provocadas pela gasolina.
O sacerdote que nos conduz compreende que o espectáculo nos incomoda e tenta explicar-nos:
– Mereciam isto. Além disso, é uma medida de higiene indispensável…
O fumo que se evola deste montão disforme já não é denso. Aqui e ali se ergue ainda uma colunazinha branca, que vai espalhando pelo céu, num ambiente louco de calor, um cheiro indescritível. Temos de sair. De um lado, 30 cadáveres de paisanos aguardam a sua vez, enquanto, em frente, 23 corpos de legionários, aqueles que tombaram sob o fogo intenso das metralhadoras, na brecha da Puerta de la Trinidad, estão também à espera de que chegue a hora do seu solene enterramento.
À porta do cemitério, um camião traz mais quatro corpos, que foram recolhidos algures e, conduzidos pelos guardas em carrinhos de mão, se vão juntar aos trinta que serão mais tarde incinerados. – Mário Neves.”
“Diário de Lisboa” de 15 de Agosto de 1936, 2ª tiragem. Ler Aqui
Diário de Lisboa” de 16 de Agosto de 1936. Ler Aqui
A limpeza étnica de centenas de milhares de sérvios por um líder croata apoiado pelos EUA foi premeditada, de acordo com documentos recentemente desclassificados que revelam o planeamento da operação. Quando o derramamento de sangue cessou, Richard Holbrooke, um diplomata norte-americano de alto nível, afirmou: "Afirmámos publicamente [...] que estávamos preocupados, mas, em privado, vocês sabiam o que queríamos."
O dia 4 de agosto assinalou o 30º aniversário da Operação Tempestade. Pouco conhecida fora da ex-Jugoslávia, esta campanha militar desencadeou um cataclismo genocida que expulsou violentamente toda a população sérvia da Croácia. Chamada pelo político sueco Carl Bildt de "a limpeza étnica mais eficaz que já vimos nos Balcãs", as forças croatas invadiram as áreas protegidas pela ONU da autoproclamada República Sérvia da Krajina, saqueando, queimando, violando e assassinando à medida que avançavam pela província. Até 350.000 residentes fugiram, muitas vezes a pé, para nunca mais regressarem. Ao mesmo tempo, milhares foram sumariamente executados.
Enquanto estas cenas horríveis se desenrolavam, as forças de manutenção da paz da ONU encarregadas de proteger a Krajina assistiam sem intervir. Os líderes americanos negaram que estes massacres e deslocações em massa constituíssem limpeza étnica, muito menos crimes de guerra. Os governos membros da NATO estavam muito mais interessados na sofisticação das tácticas militares de Zagreb. Um coronel britânico à frente de uma missão de observação da ONU na região exclamou: "Quem escreveu este plano de ataque poderia ter frequentado qualquer escola militar da NATO na América do Norte ou na Europa Ocidental e ter obtido a nota máxima."
As forças croatas obtiveram notas elevadas. A Operação Tempestade foi, segundo todos os relatos, um ataque da NATO, levado a cabo por tropas armadas e treinadas pelos EUA e coordenado directamente com outras potências ocidentais. Embora apoiasse publicamente uma paz negociada, Washington, em particular, encorajou Zagreb a demonstrar a máxima beligerância, mesmo com os seus aliados fascistas croatas a conspirar para atacar com tal ferocidade que toda a população sérvia do país praticamente desapareceria.
No meio das negociações para um acordo político em Genebra, altos funcionários croatas discutiram em privado métodos para justificar a iminente blitzkrieg, incluindo ataques de bandeira falsa. Garantidos pelo apoio contínuo dos seus aliados ocidentais, apesar do derramamento de sangue, os líderes croatas gabaram-se de que só precisavam de informar antecipadamente os seus aliados da NATO sobre os seus planos. Assim que a situação acalmou e a população sérvia da Croácia foi completamente eliminada, as autoridades croatas reuniram-se secretamente com as autoridades norte-americanas para celebrar o seu triunfo.
Richard Holbrooke, um veterano diplomata norte-americano que então desempenhava as funções de subsecretário de Estado na administração Clinton, disse ao presidente croata que, embora os Estados Unidos "tivessem declarado publicamente [...] que estavam preocupados" com a situação, "em privado, o senhor sabia o que queríamos". Como escreveu um dos conselheiros de Holbrooke num memorando que o diplomata censurou posteriormente, foram contratadas forças croatas como seguranças de Washington para destruir a Jugoslávia.
Depois de expulsar a população sérvia do país recém-independente, o recém-formado regime croata pôde contar com ela para exercer o domínio americano não só sobre os Balcãs, mas também sobre toda a Europa. As tensões étnicas alimentadas pela NATO na região continuam latentes e têm sido exploradas para justificar uma ocupação perpétua.
A ex-Jugoslávia continua profundamente marcada pela Operação Tempestade. No entanto, na perspectiva da NATO, esta campanha militar serviu de modelo para as guerras por procuração e para os ataques militares subsequentes. Washington replicou a estratégia de utilizar combatentes estrangeiros extremistas como tropas de choque em vários teatros de operações, da Síria à Ucrânia.
Os fascistas querem uma Croácia etnicamente pura
Ao longo da década de 1980, as potências ocidentais — em particular a Grã-Bretanha, a Alemanha e os Estados Unidos — apoiaram secretamente a ascensão do nacionalismo na Jugoslávia, na esperança de alimentar a desintegração da federação multiétnica. O seu representante na Croácia, Franjo Tudjman, era um fundamentalista católico e membro de grupos secessionistas extremistas. As facções iniciaram uma campanha terrorista no início da década de 1970, sequestrando e fazendo explodir aviões comerciais, atacando missões diplomáticas jugoslavas no estrangeiro e assassinando Vladimir Rolovic, embaixador de Belgrado na Suécia, em 1971.
Após o ressurgimento da violência separatista croata na Jugoslávia, Tudjman foi preso em Março de 1972, juntamente com o seu colaborador Stepjan Mesic, pelas suas visões fascistas. Dezoito anos mais tarde, quando Zagreb realizou as suas primeiras eleições multipartidárias desde a Segunda Guerra Mundial, a União Democrática Croata (HDZ) conquistou a maioria dos votos e dos lugares no parlamento. No processo, Tudjman tornou-se presidente e Mesic, primeiro-ministro. Com a ascensão do fascismo croata, os sérvios foram expulsos em massa das instituições públicas.
Durante a campanha eleitoral, Tudjman venerava fervorosamente o "Estado Independente da Croácia", uma entidade fantoche criada pelos nazis e brutalmente governada por colaboradores locais de abril de 1941 a maio de 1945, descrevendo esta construção fascista como "uma expressão das aspirações históricas do povo croata". Noutra passagem, declarou abertamente: "Graças a Deus, a minha mulher não é sérvia nem judia".
Estas declarações reflectiam uma estratégia monstruosa que Tudjman tinha delineado em Fevereiro de 1990, numa reunião pública em Cleveland, Ohio, para quando a HDZ assumisse o poder. O nosso "objectivo fundamental [...] é separar a Croácia da Jugoslávia", explicou Tudjman. "Se chegarmos ao poder, nas primeiras 48 horas, enquanto a euforia ainda reina, é essencial acertarmos as contas com todos aqueles que estão contra a Croácia."
“Listas destas pessoas já foram elaboradas”, continuou. “Os sérvios na Croácia devem ser declarados cidadãos croatas e chamados croatas ortodoxos. O nome ‘sérvio ortodoxo’ será proibido. A Igreja Ortodoxa Sérvia será abolida […] Aqueles que não se mudarem para a Sérvia serão declarados croatas.”
A União Europeia, então denominada CEE (Comunidade Económica Europeia), estava ao corrente destas declarações, mas mesmo assim reconheceu a Croácia de Tujman dois anos depois.
Muitos dos apoiantes de Tudjman idolatravam os Ustasha, os fascistas que governaram o Estado Independente da Croácia durante a Segunda Guerra Mundial. Os seus crimes variavam desde a execução de centenas de mulheres e idosos por decapitação ou afogamento, entre outras coisas, até à exploração de uma rede de campos de extermínio na Jugoslávia ocupada pelo Eixo, com unidades especializadas para crianças. A sua implacável barbárie contra sérvios, ciganos e judeus repeliu até os seus patronos nazis. Centenas de milhares foram assassinados pelos ustasha, cujos oficiais incluíam o irmão e o pai do ministro da Defesa de Tudjman, Gojko Susak.
Estes acontecimentos horríveis ficaram gravados na memória dos habitantes do histórico território sérvio da Krajina, administrativamente atribuído à República Socialista Jugoslava da Croácia após a Segunda Guerra Mundial. A HDZ recebeu financiamento de exilados ustasha nos países ocidentais e, ao chegar ao poder, renomeou a icónica Praça das Vítimas Fascistas de Zagreb como "Praça dos Nobres Croatas", enquanto as unidades paramilitares croatas ostentavam orgulhosamente slogans e símbolos ustasha. O governo liderado por Tudjman incitou abertamente o ódio étnico, e os sérvios do país nascente começaram a preparar-se para uma guerra civil.
Após o início de confrontos interétnicos na Croácia, em Março de 1991, unidades do Exército Popular Jugoslavo foram mobilizadas para proteger a Krajina, onde os residentes proclamaram a criação de uma República Sérvia autónoma até que fosse alcançado um acordo de paz internacional. Antes da sua morte, o então presidente jugoslavo Borislav Jovic declarou que o objetivo era "proteger os territórios sérvios até que fosse encontrada uma solução política".
Os fascistas croatas planeavam eliminar os sérvios
Em Agosto de 1995, uma "solução política" parecia estar à beira de se tornar realidade. Um Grupo de Contacto especial da ONU conduzia conversações de paz em Genebra entre as autoridades da Krajina e de Zagreb. A União Europeia, a Rússia e os Estados Unidos desenvolveram uma proposta para pôr fim ao conflito croata, conhecida como Zagreb 4 ou Z-4. O embaixador de Washington em Zagreb, Peter Galbraith, desempenhou um papel fundamental nas negociações com os líderes sérvios da Krajina.
Aprovado a 3 de agosto de 1995, o Z-4 estabeleceu que as áreas de maioria sérvia da Croácia permaneceriam parte do país, mas com um certo grau de autonomia. No mesmo dia, Galbraith confirmou na televisão local que a reintegração das zonas sérvias da Croácia tinha sido acordada. Ao mesmo tempo, os mediadores americanos em Genebra declararam que, dadas as significativas concessões feitas pelos sérvios, "não havia razão para a Croácia entrar em guerra". Finalmente, o cenário estava preparado para uma paz negociada.
Os optimistas dirigentes sérvios da Krajina anunciaram ter recebido garantias de Washington de que interviriam para impedir qualquer acção militar croata contra a Krajina se aceitassem os termos do Plano Z-4. Mas, antes do final do dia, os líderes croatas rejeitaram o Plano Z-4 e abandonaram as negociações. A Operação Tempestade começou na manhã seguinte.
'Ataquem os sérvios até que praticamente desapareçam'
Tudjman nunca pretendeu garantir a paz na conferência. Pelo contrário, os arquivos mostram que a participação da Croácia em Genebra foi um estratagema para criar a ilusão de que Zagreb procurava um acordo diplomático enquanto desenvolvia secretamente planos para "derrotar completamente o inimigo". Este plano foi revelado nas atas de uma reunião de 31 de julho de 1995 entre Tudjman e os seus comandantes militares seniores no palácio presidencial das Ilhas Brioni. Durante a conversa, Tudjman informou os presentes: "Devemos desferir golpes tão grandes que os sérvios praticamente desapareçam". "Vou a Genebra para esconder isto, não para conversar [...] Quero esconder o que estamos a planear para amanhã. E poderemos refutar todos os argumentos do mundo de que não queríamos conversar."
Estas declarações, que constituem prova clara e inequívoca de intenção genocida, não se limitaram ao presidente. A inevitabilidade da limpeza étnica foi reconhecida por Ante Gotovina, um general de alta patente que regressou à Jugoslávia para dirigir a Operação Tempestade após a sua fuga no início da década de 1970. Um ataque decisivo e sustentado à Krajina significaria que, subsequentemente, "não haveria tantos civis, apenas aqueles que tiveram de ficar, aqueles que não tinham possibilidade de sair", declarou Gotovina. O antigo comandante da Legião Estrangeira Francesa, que já trabalhou como escolta ao fascista francês Jean-Marie Le Pen e como fura-greve para reprimir os trabalhadores sindicalizados da CGT, foi posteriormente absolvido do seu papel de liderança na Operação Tempestade por um tribunal internacional dominado pelo Ocidente. Para os sérvios, agora presos num enclave étnico hostil, Tudjman sugeriu uma campanha de propaganda maciça contra eles, com panfletos a proclamar "a vitória do exército croata, apoiado pela comunidade internacional" e a exortar os sérvios a não fugirem, numa aparente tentativa de dar um tom inclusivo à sua proposta de realojamento da população civil à força. "Isto significa oferecer-lhes uma saída, enquanto se finge garantir os direitos civis... Usando a rádio e a televisão, mas também panfletos."
Os generais discutiram outras estratégias de propaganda para justificar o ataque iminente, incluindo operações de bandeira falsa. Como "toda a operação militar deve ter uma justificação política", Tudjman afirmou que os sérvios "tinham de nos dar um pretexto e provocar-nos" antes do ataque começar. Um oficial sugeriu "acusá-los de lançar um ataque de sabotagem contra nós... foi por isso que fomos forçados a intervir". Outro general sugeriu provocar "uma explosão como se tivessem atacado com a sua força aérea".
Bill Clinton deu luz verde ao massacre
No final de 1990, os serviços de informação jugoslavas filmaram secretamente o ministro da Defesa croata, Martin Spegelj, a conspirar para expulsar a população sérvia da república. Numa gravação, disse a um colega que qualquer pessoa que se opusesse à independência de Zagreb deveria ser morta "no local, na rua, no complexo, no quartel, em qualquer lugar" com "uma pistola... na barriga". Previu "uma guerra civil sem piedade para ninguém, nem mulheres nem crianças", e que as casas dos sérvios seriam destruídas com "granadas simples".
Spegelj defendeu então abertamente um "massacre" para "resolver" o problema de Knin, a capital da Krajina, fazendo com que a cidade "desaparecesse". Vangloriou-se: "Temos reconhecimento internacional por isso". Os Estados Unidos já tinham "oferecido toda a assistência possível", incluindo "milhares de veículos de combate" e "o armamento completo" de 100 mil soldados croatas "gratuitamente". O resultado final desejado? "Os sérvios nunca mais estarão na Croácia". Spegelj concluiu: "Criaremos um Estado a todo o custo, se necessário, mesmo com derramamento de sangue".
O apoio ocidental aos horrores planeados e perpetrados durante a Operação Tempestade foi também claramente expresso na reunião de 31 de Julho de 1995. Tudjman disse aos seus generais: "Temos um amigo, a Alemanha, que nos apoia incondicionalmente". Os croatas precisavam simplesmente de "mantê-los informados com antecedência" sobre os seus objetivos. "As nossas opiniões também são compreendidas dentro da NATO", explicou, acrescentando: "Desfrutamos da simpatia dos Estados Unidos". Em 2006, a revista alemã Der Spiegel confirmou que os massacres tinham a marca de Washington, citando fontes militares croatas que alegaram ter recebido "apoio direto, embora secreto, do Pentágono e da CIA no planeamento e execução da ofensiva 'Tempestade'".
Para se prepararem para a ofensiva, os soldados croatas receberam treino em Fort Irwin, na Califórnia, e o Pentágono ajudou a planear a operação, informou a revista. O apoio dos EUA foi muito além do que era publicamente reconhecido, nomeadamente que as forças croatas simplesmente participaram em exercícios de treino conduzidos pela empresa militar privada americana MPRI, revelou a Der Spiegel. "Pouco antes da ofensiva, o vice-diretor da CIA, George Tenet, encontrou-se com Gotovina e o filho de Tudjman, então chefe dos serviços de informação croata, para consultas de última hora. Durante a operação, as aeronaves norte-americanas destruíram centros de defesa aérea e comunicações sérvios, e o Pentágono transmitiu informações recolhidas via satélite às forças croatas."
Numa reunião de gabinete, a 7 de Agosto de 1995, Tudjman gabou-se de que Washington "deveria estar satisfeito" com a condução da Operação Tempestade pelos militares croatas. O seu primeiro-ministro, Ivo Sanader, discutiu então a coordenação de esforços com as autoridades norte-americanas, que estavam a "trabalhar em nome" do vice-presidente Al Gore. Assegurou aos presentes que "todas as autorizações [...] tinham sido aprovadas sem reservas" pelo presidente norte-americano Bill Clinton e que, por isso, a Croácia poderia "contar com o apoio contínuo de Washington" enquanto os massacres se desenrolavam.
O diplomata norte-americano celebra o triunfo dos genocidas
A 18 de agosto, foi convocada uma cimeira de alto nível com o diplomata norte-americano Richard Holbrooke no Palácio Presidencial em Zagreb. Pilar da política externa de Washington, obcecado pelo intervencionismo, Holbrooke ambicionava cargos de prestígio durante a administração Bill Clinton e, mais tarde, talvez durante uma futura administração Hillary Clinton. O desmantelamento bem sucedido da Jugoslávia alimentaria as suas ambições.
Numa transcrição analisada pelo The Grayzone, Holbrooke descreve Tudjman de forma lisonjeira como o "pai da Croácia moderna", o seu "libertador" e o seu "criador". Depois de observar com aprovação que o ditador tinha «recuperado 98% do seu território» — para não falar de que tinha sido expurgado dos sérvios —, o diplomata norte-americano descreveu-se como um «amigo» do estado recém-independente, cujo comportamento violento apelidou de legítimo.
“Eles tinham razões válidas para a sua acção militar na Eslavónia Oriental”, disse Holbrooke a Tudjman, “e eu sempre a defendi em Washington”. Quando alguns nos Estados Unidos sugeriram controlar Zagreb, Holbrooke respondeu que os croatas deveriam “seguir em frente”, independentemente do que acontecesse, disse.
Sobre a Operação Tempestade, Holbrooke admitiu: "Afirmámos publicamente, como sabem, que estávamos preocupados, mas, em privado, sabiam o que queríamos". Descreveu esta terrível blitzkrieg como um "triunfo" do "ponto de vista político e militar", deixando apenas "o problema dos refugiados" na perspectiva de Zagreb. Numa tentativa de elogiar o presidente croata, Holbrooke aconselhou Tudjman a fazer um discurso declarando que a guerra tinha terminado e que [os sérvios] deveriam regressar. Embora tenha previsto que "a maioria não regressaria", Holbrooke considerou aparentemente importante, pelo menos, manter esta oferta aberta ao público.
As autoridades croatas resolveram este "problema" aprovando leis discriminatórias que tornaram praticamente impossível o regresso dos sérvios deslocados, para além de confiscar os seus bens. Apesar das provas contundentes de crimes de guerra graves, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia, financiado pela NATO, só indiciou os responsáveis pela Operação Tempestade em 2008. Muitos oficiais culpados, incluindo Tudjman, morreram desde então. Três comandantes militares sobreviventes foram finalmente processados em 2011. Um foi absolvido e dois foram condenados, mas esta decisão foi anulada em recurso em 2012.
Este acórdão chegou a outras conclusões extraordinárias. Embora reconhecesse que Zagreb tinha recorrido a medidas discriminatórias e restritivas para impedir o regresso dos sérvios deslocados, considerou que isso não significava que a sua saída fosse forçada. Embora muitos civis tenham sido mortos, incluindo idosos e doentes que não conseguiram fugir, a Operação Tempestade não visou deliberadamente os não combatentes. E apesar do desejo explícito de Spegelj e Tudjman de "fazer desaparecer" os sérvios, nem o governo nem os militares foram considerados culpados de tentarem especificamente expulsar toda a minoria sérvia da Croácia.
O aniversário da Operação Tempestade é agora comemorado como o "Dia da Vitória" na Croácia. O sucesso deste ataque é venerado nos círculos militares ocidentais, e esta iniciativa poderá ter influenciado operações semelhantes noutras zonas de conflito. Em setembro de 2022, o jornal ucraniano Kyiv Post saudou a inesperada contraofensiva ucraniana em Kharkov como "Operação Tempestade 2.0", sugerindo que anunciava a "capitulação iminente da Rússia".
Quase três anos depois, as forças de Kiev estão a desintegrar-se no Donbass. Ao contrário da Croácia, a mais recente vaga de fascistas aliados dos EUA parece pouco provável que prevaleça.
Em Milão, tal como em Londres, pode construir a sociedade mais classista, gentrificada, oligárquica e excludente, ao mesmo tempo que prega gentilmente a aceitação e a inclusão.
O Ocidente é um conceito estranho, recente e espúrio. Por "Ocidente", referimo-nos, na verdade, a uma configuração cultural que emergiu com a unificação global da Europa política e, a partir de 1931, passaria a chamar-se "Commonwealth" (parte do Império Britânico).
Esta configuração atinge a sua unidade sob a bandeira do capitalismo financeiro, a partir da sua emergência hegemónica nas últimas décadas do século XX.
O Ocidente nada tem a ver com a Europa cultural, cujas raízes são greco-latinas e cristãs.
O Ocidente é a personificação de uma política de poder económico e militar que nasceu na Era dos Impérios, culminou nas duas guerras mundiais e retomou o governo global em meados da década de 1970.
Infelizmente, mesmo na Europa, a ideia de que "nós somos o Ocidente" tornou-se senso comum.
A Europa histórica, por exemplo, sempre manteve laços estruturais fundamentais com o Oriente, tanto próximo como distante (Eurásia), enquanto o Ocidente se percebe como intrinsecamente hostil ao Oriente. Assim, a Europa cultural está evidentemente em continuidade com a Rússia, enquanto que para o Ocidente, a Rússia é completamente diferente.
Esta premissa serve para ilustrar uma preocupação séria e de longo prazo que não posso conter.
A preocupação prende-se com o facto de o Ocidente, moldado pela estrutura mental e prática do capitalismo financeiro, ter desenraizado a alma dos povos europeus.
A cultura e a espiritualidade europeias, esse extraordinário florescimento que se estende de Sófocles a Beethoven, de Dante a Marx, de Tácito a Monteverdi, de Miguel Ângelo a Bach, etc., etc., são as primeiras vítimas da cultura ocidental, uma cultura utilitária, instrumental, abismalmente mesquinha, que só compreende a beleza da arte, dos territórios, das tradições se for um "activo" que pode ser transformado em "dinheiro".
Aprendemos a aceitar esta medida de cada valor como um preço, e de cada preço como uma margem de lucro.
A nossa sociedade, a nossa educação, as nossas comunidades foram forçadas a aceitar estas equivalências destrutivas. E fizeram-no porque prometeram preservar o estatuto de poder, a predominância e a hegemonia material do Ocidente sobre o resto do mundo.
Embora muitas pessoas tenham tentado, com algum sucesso, opor-se a esta desertificação, ela enraizou-se em instituições, academias e escolas. Aqueles que desejam resistir a este empobrecimento devem fazê-lo clandestinamente, como resistência individual, pagando um preço pessoal, enquanto tudo o resto — financiamento, programas, benefícios — caminha no sentido oposto.
Mas hoje chegamos ao fim da estrada, ao ponto de viragem.
A desertificação da alma pelo Ocidente moldou uma das classes dominantes moralmente mais infames da história. Antes da ascensão da mentalidade ocidental, há cerca de um século e meio, havia, sem dúvida, tiranos mais sanguinários do que os líderes ocidentais de hoje, mas nenhum modo de vida era tão cínico.
O Ocidente não mata nem extermina por ódio, conquista, convicção ou para dar o exemplo, nem sequer por um genuíno sentido de superioridade.
Não, o Ocidente mata porque é cada vez mais difícil perceber a distinção de valor entre a vida e a morte como relevante. Porque é, na sua essência, uma cultura de morte no sentido fundamental de que não reconhece uma diferença essencial de valor entre a vitalidade de uma conta bancária e a de uma criança, entre a de um algoritmo e a de um cãozinho.
O Ocidente de hoje, cujo paradigma são actualmente as classes dominantes americana e israelita, mas igualmente bem representado pela imundície servil que fala em nome da União Europeia, está a atingir níveis de abjecção antes raramente vistos.
Já não se trata de "duplo padrão".
É um compromisso diário com a mentira ilimitada, com a aceitação franca de que cada declaração, cada palavra, cada pensamento só conta pelos efeitos que pode produzir em termos de poder monetário.
Pode dizer qualquer coisa e o oposto de tudo. Pode negar as provas e depois negar que as negou. As promessas e os tratados podem ser quebrados.
Pode conduzir uma negociação e, entretanto, tentar matar a pessoa com quem estava a negociar e, depois, protestar com seriedade, dizendo que a outra pessoa não quer negociar mais.
As informações oficiais podem ser manipuladas 24 horas por dia, 7 dias por semana, e depois podem ser exigidas punições exemplares para contrariar o poder manipulador da cabeleireira Pina nas redes sociais.
Em Milão, tal como em Londres, pode construir a sociedade mais classista, gentrificada, oligárquica e excludente, ao mesmo tempo que prega gentilmente a aceitação e a inclusão.
Pode assistir ao genocídio em direto no palco mundial durante dois anos e explicar que é autodefesa.
Etc. etc.
Bem, o meu problema, para além do desgosto com tudo o que está a acontecer, é a consciência de que não conseguiremos escapar à condenação histórica desta obscenidade espiritual.
Participaremos mesmo que não tenhamos aprovado nada pessoalmente, mesmo que tenhamos contestado de todas as formas possíveis.
Vamos envolver-nos porque essa depravação é o Ocidente, e nós aceitamos esse rótulo. Aprendemos a considerar-nos ocidentais, e o mundo percebe-nos como tal.
Quando tivermos de pagar a conta de sete oitavos do planeta — e que ninguém se iluda a pensar que isso não vai acontecer — será incrivelmente difícil, talvez impossível, explicar que a grande cultura europeia milenar nada tem em comum com o deserto niilista do Ocidente contemporâneo.
Tal como no período imediatamente a seguir à Segunda Guerra Mundial muitas pessoas não conseguiam ouvir alemão — a língua de Goethe e Mozart — sem sentir repulsa (alguns dos menos jovens certamente se lembrarão disso), assim também, embora de uma forma muito mais radical, isso acontecerá com tudo o que cheire, certo ou errado, ao Ocidente.
Afinal, se estudar Dante, Cervantes ou Shakespeare nos levou a duas guerras mundiais e depois ao niilismo absoluto, que lição deveria o mundo aprender desta tradição?
Este raciocínio, na sua crueza, pode parecer-nos irracional apenas porque estamos habituados a ser sempre aqueles que julgam e nunca aqueles que são julgados.
Perder a hegemonia global é agora fatal e, longe de ser um problema, será uma bênção.
Mas a perda de respeito e compreensão por tudo o que definiu a longa história da Europa já ocorreu, em parte devido à regressão interna, e o golpe final poderá ser desferido em breve. Perder a alma é muito mais grave do que perder o poder.