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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

O naufrágio do transatlântico Pátria

28.11.25 | Manuel

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Robin Qureshi

Em 25 de novembro de 1940, o transatlântico Patria afundou no porto de Haifa depois que um explosivo da Haganah, organização terrorista, quebrou seu casco, assassinando mais de 260 pessoas, a maioria judeus que fugiam do Terceiro Reich.

Os britânicos transformaram o navio em uma prisão. Quase 1.900 refugiados judeus foram embarcados à força. O governo de Londres planejava deportá-los para Maurício e Trinidad e Tobago O navio estava superlotado, em más condições e não adequado para tal viagem.

Os líderes sionistas opuseram-se ao desembarque porque este não cumpria os seus objectivos demográficos. Eles queriam jovens colonos, aptos para o serviço militar. Os refugiados da Pátria não se enquadravam no perfil.

Eles decidiram sabotar o navio para evitar o pouso e colocaram uma carga explosiva a bordo. A explosão quebrou o casco e o navio afundou em dezasseis minutos, arrastando centenas de refugiados para o fundo antes que os botes salva-vidas pudessem resgatá-los. Uma investigação britânica confirmou mais tarde que a bomba havia sido plantada pela Haganah sionista.

Os primeiros a tentar salvar os refugiados do afogamento foram os palestinos. A explosão ocorreu perto da costa, e testemunhas ouviram o casco se dividir e o viram virar quase instantaneamente. Pescadores palestinos dirigiram-se ao local antes que os britânicos pudessem reagir. Eles tiraram os sobreviventes da água por conta própria. Eles os colocaram em seus barcos e, sem perder um segundo, partiram novamente para resgatar os outros sobreviventes. Os registros de resgate do Mandato Britânico indicam que os navios palestinos fizeram inúmeras viagens de ida e volta entre os destroços e a costa.

Em terra, os estivadores palestinos transportaram sobreviventes para onde poderiam receber cuidados médicos. Eles lhes deram cobertores, água... tudo o que tinham. As tropas britânicas acabaram por assumir o controlo, mas os minutos cruciais que salvaram vidas foram obra de civis palestinianos que agiram espontaneamente.

Os sobreviventes do Pátria só foram autorizados a permanecer na Palestina porque o seu navio tinha afundado.

A Wikipédia manipula a história para encobrir o sionismo

A página da Wikipédia dedicada ao naufrágio Pátria ilustra a estratégia dos editores para reescrever a história, até que a culpa desapareça, o papel dos palestinos escureça e a violência seja apresentada como um mero acidente.

Primeiro, a língua. Os palestinos estão reduzidos a “barcos árabes”, uma categoria vaga usada para esconder a sua identidade e ações. Eles se tornam parte do palco. A Haganah, os sionistas que plantaram a bomba, recebe nomes, fileiras, histórias e parágrafos inteiros. A identidade dos perpetradores é enfatizada. As equipes de resgate, por outro lado, são esquecidas.

A Wikipédia é baseada quase exclusivamente em fontes sionistas. Reitera a afirmação da Haganah de que “julgou mal a explosão, como se fosse uma avaliação neutra. Também ecoa a sua tentativa subsequente de atribuir o naufrágio ao “mau estado” do navio, um argumento retirado diretamente de uma investigação interna da Haganah que procura minimizar a sua responsabilidade. O objetivo é minimizar um bombardeio deliberado, apresentando-o como um acidente técnico.

No entanto, nessa altura a investigação britânica confirmou o ataque terrorista. O navio afundou porque uma bomba Haganah perfurou seu casco.

A estrutura do artigo da Wikipédia é reveladora. Ele dedica longos parágrafos à política de emigração nazista, aos debates dentro da Agência Judaica e às disputas internas sionistas. Contém apenas uma alusão muito vaga aos palestinianos. Trata-se de uma ideologia disfarçada de suposta imparcialidade. O artigo menciona tudo, exceto a identidade daqueles que realmente salvaram vidas.

Os “judeus foram resgatados por navios britânicos e árabes”, uma voz passiva sugerindo distância. Os da Haganah não são terroristas, nem plantam bombas. Eles só querem impedir que o navio saia de porto. A bomba “explode muito cedo e com muita força”.

A Wikipédia também não menciona que os pescadores palestinos foram os primeiros a chegar ao barco. A contribuição dos estivadores palestinos que cuidaram dos judeus sobreviventes, dando-lhes água e cobrindo-os com cobertores durante os primeiros minutos cruciais, não é reconhecida.

A violência britânica também é negligenciada. Os refugiados foram presos, forçados a entrar num barco e destinados a serem deportados para Maurício e Trinidad e Tobago A Wikipédia apresenta os acontecimentos como um mero procedimento administrativo, quando na realidade foram um ato de repressão. Os sobreviventes do naufrágio foram internados pelos britânicos no campo de concentração de Atlit, perto de Haifa.

Finalmente, a parte mais convincente da história não é mencionada. Os sobreviventes do Pátria só foram autorizados a permanecer na Palestina porque o seu navio afundou. A Wikipédia omite esta informação porque revela tanto a crueldade britânica como a estratégia sionista.

É assim que os imperialismos se protegem. Apagam discretamente e transformam o resgate palestiniano numa nota de rodapé.

Robin Qureshi https://substack.com/@robinaqureshi

Fonte

Abril de 1962, Luta dos operários agrícolas do Sul pela jornada de oito horas

24.11.25 | Manuel

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O ano de 1962, bem aziago desde o início para o regime e a culminar um período de intensa instabilidade, que se vinha declarando desde 1958, fica marcado como sendo o do "último grande movimento de trabalhadores rurais antes do 25 de Abril. O Alto e o Baixo Alentejo, e parte do Ribatejo, aderem à greve declarada no início de Maio com o objectivo de reduzir o horário de trabalho para oito horas.

No espectáculo já referido, intitulado Couço — Fado e Poesia, levado à cena na Casa do Povo, em 1988, e com a sala "cheia, a abarrotar", nas palavras de um velho militante comunista local, um fadista entoou, com acompanhamento de guitarra e viola, o "Fado das oito horas (com requebro)", de que se destaca os seguintes quintetos:

 "Maio de 62

Maio que foi o maior

Da vaga revolucionária

Já lendária

Do Couço trabalhador.

Oito horas de trabalho

A Histórica vitória

Do povo e seu Partido

Aguerrido

E do Couço alta glória

Que foi aqui nesta terra

Vinda da Ponte Caleira

Que a jornada se cumpriu

E floriu

No país a vez primeira.

Ao longo de todo o texto então representado, e de que o referido fado constitui a parte destinada a exaltar as lutas levadas a cabo no primeiro semestre de 1962 pela fixação do horário agrícola em oito horas de trabalho, conseguida no Couço em 12 de Maio, ressalta uma memória épica e consensual, primacialmente do colectivo de militantes comunistas locais, mas cujas características abrangentes, e nomeadamente a referência a espaços bem determinados dentro do con-texto da freguesia, faz apelo a conjuntos mais vastos de habitantes locais com envolvimentos variáveis nas movimentações a que alude a representação.

A reconstituição da preparação das reivindicações torna-se mais fácil do que a posterior abordagem dos eventos — estes entendidos como actos excepcionais, colectivos e públicos que envolvam exigências em prol de um grupo — na própria greve. Como saber que herdade, que proprietário, que rancho, em que tarefa, terá acedido na dianteira ao horário das oito horas? A data já indicada, 12 de Maio, terça-feira, a que corresponde? Numa povoação que edifica tão fortemente a sua identidade sobre o papel que desempenhou nas diferentes movimentações (e não exclusivamente de cariz rural) ao longo de todo o século XX, é compreensível a ênfase posta no carácter pioneiro atingido com a conquista das oito horas. O mesmo se passará eventualmente noutros locais, e se o lugar de destaque não terá importância imediata em ter-mos de projecção externa, desempenha inequivocamente uma função congregadora dentro do grupo. O estabelecimento de uma data como correspondente ao momento da conquista de oito horas de trabalho traduz uma perspectiva fotográfica da questão, que não regista o conjunto de tarefas a que houve que fazer frente ainda muito tempo:

«Porque depois as oito horas não eram só as horas. Pronto, conseguiu-se as oito horas, mas depois, no terreno, quem é que as queria dar? Os próprios patrões não davam ordem para despegar. Sim, senhora, já se conseguiu as oito horas, e agora para despegar? "Ainda está sol". Então ao sábado, como é, vai-se trabalhar ou não se vai trabalhar? Já se fez as 45 horas... "Mas se não vierem ao sábado eu não pago". Era outra luta, se as oito horas incluíam o sábado. Não incluir os sábados só veio quase ao 25 de Abril! Oito horas, sim, e feitas quando? Quando o patrão quisesse? Não, as oito horas devem ser feitas nos cinco dias, nos seis dias? A tentação era terem lá os trabalhadores ao sábado. Como uni camarada meu na prisão, que escreveu ao director a protestar por só termos jornal uma vez por semana, e a pedir que o tivéssemos uma vez por dia. O director respondeu: "Pois é, pá, tens razão. Ter jornal uma vez por semana é pouco, uma vez por dia é que é. Mas por teres tido o atrevimento de escrever ao director da prisão, vão passar a ter jornal uma vez por mês!» (Diamantino Ramalho)

Tentemos organizar o processo que antecedeu as lutas de Maio de 1962. Imediatamente a seguir ao final da II Guerra Mundial, um grande proprietário da região, cujas terras se espraiam também pelos concelhos de Mora e Montemor-o-Novo, ligado a uma família de prestígio com grande ligação ao regime salazarista, propôs aos trabalhadores da sua herdade, o Monte da Aldeia Velha, uma alteração horária que os levaria a cumprir oito horas de trabalho. Esta proposta foi recusada, alegando os visados que era impossível, pela dureza do trabalho agrícola, laborar durante esse período sem descanso.

«A luta das oito horas foi uma luta muito grande e que começou mesmo em 58. Eu não estava preso em 58, estava em liberdade condicional. Tinha de andar pela sombra. Uma vez que eu ia de bicicleta a motor, ia ao Espadeiro, e o carro da PIDE abrandou. E digo eu: "É agora que me vêm buscar já!". E uma vez fui para Mora e já não pude ficar aqui em casa: "Pronto, sou apanhado já!". A luta das oito horas é muito engraçada. A luta das oito horas começou em 1947. Um capitalista aqui de Mora, aqui nas Faias, quis dar as oito horas, e o povo não quis. Mas depois quando o partido pedia as oito horas, achava que a gente devia ir à conquista das oito horas, falávamos com os trabalhadores e dizíamos: "Se vocês trabalharem as oito horas, trabalham sempre oito horas, e portanto o ordenado é sempre o mesmo". "Ah, mas a gente no Verão não faz oito horas". "Mas vocês de Inverno não têm trabalho. Não fazem oito horas, mas não têm trabalho. Se vocês no Verão é que têm mais trabalho, portanto vocês devem lutar pelas oito horas, e se tiverem que trabalhar no Inverno, ganham o mesmo que no Verão, porque não podem dizer que ganham menos de Inverno, porque ganham sempre oito horas. Vocês agora lutam pelo horário de Verão, e se for no Inverno dizem-vos que agora é Inverno e não se pode pagar tanto. E vocês lutam pelas oito horas". "Então, mas a gente não aguenta oito horas a trabalhar". "Aguentam, então não hão-de aguentar? Então os operários não aguentam oito horas? Os trabalhadores do campo são operários à mesma. Portanto, vocês despegam às cinco horas. Podem ir para as hortas, ou podem ir para a taberna. É como vocês quiserem, isso agora é à vossa vontade. Portanto, vocês, desde as cinco horas, vocês são livres".» (Arenato Brás)

O referido proprietário do monte das Faias, conhecedor da reputação política local, acenava-lhes com uma conquista operária, enquanto com a outra mão lhes subtraía direitos adquiridos, alguns dos quais com grandes dificuldades. Destaca-se no conjunto de direitos (período de almoço, jantar e sesta), o designado direito de fumaça, também conhecido por "quartos" por proporcionar um quarto em cada hora de trabalho para enrolar um cigarro. O horário proposto foi, assim, colectiva e liminarmente recusado, surgindo então a proposta mais eivada de inconvenientes do que dourada com os louros de uma vitória.

Mas o desencadear de uma conjuntura nacional favorável após as eleições presidenciais de 1958 trouxe reflexos a nível local. No Couço, e apesar dos sucessivos abalos que as prisões e traições haviam provocado, tinham sido preparadas condições para um crescendo conflitual em que o ciclo luta-repressão-resistência se repete em vagas sucessivas.

Os momentos mais inocentes foram utilizados, adequando as formas de organização e luta ao carácter da repressão. As pescarias comuns no Sorraia, seguidas de comensalidade colectiva, juntavam em confraternização os habitantes, vindos dos montes como da aldeia. O mesmo sucedia com os piqueniques, reunindo grupos familiares extensos, vizinhos e amigos em torno de uma mesma toalha, disposta no solo, num espaço em que múltiplos grupos ocupam, de forma idêntica o terreno. Sob qualquer dos aparatos, os indivíduos podiam circular com alguma liberdade, com pretextos variados (troca de comida, reconhecimento de amigos, danças, cantos). Além destas ocasiões aparentemente inócuas, a realização de reuniões, em espaços e tempos não conotados com a sociabilidade, ocorria periodicamente:

«Quando chegou o dito 1962, que foi quando foi mesmo a luta para as oito horas, nós chegámos a fazer reuniões clandestinas com centenas largas já de trabalhadores do Couço. Às vezes íamos para lá mascarados, quando de lá saíamos ninguém sabia que a gente lá tinha estado. Isto até faz a gente chorar. Porque era muita gente, e não interessava saber quem é que lá tinha estado. Chegámos a fazer cercos desse cabeço da Serra da Burra, deixávamos vigias nesse cabeço, para ver quem lá ia aparecer.» (Joaquim Canejo)

Essas actividades preparatórias, se incluíam o passa palavra que a relação face a face no local de trabalho permitia e facilitava, eram também constituídas por distribuição de propaganda escrita e por inscrições feitas nas paredes e no chão.

O local de trabalho constituía um sítio de eleição para a actividade agitadora, aproveitando-se nomeadamente os momentos de descanso, como as refeições ou as fumaças. A conversa informal revelava aí toda a sua eficácia, abrangendo mesmo os não letrados. O agitador era idealmente um bom trabalhador. Esta classificação era aposta em virtude das capacidades reveladas no trabalho, mas igualmente da idade — nem muito novo, num estádio recuado de aprendizagem da actividade agrícola, nem muito velho, com as capacidades embotadas.

A propaganda distribuída poderia ser constituída por comunicados, extraídos de O Camponês, ou por pequenas tarjetas. Com letras de cortiça, que se alinhavam num carimbo, imprimiam-se palavras de incitamento à greve, em papel de seda — designado por um dos entrevistados papel das mulheres, pelo seu emprego em decorações domésticas nas casas mais modestas (naperões, cortinas, barras), ou para enfeites de rua nas festas locais. O carácter de improvisação e a utilização de meios primitivos de reprodução permitem detectar a vertente localizada do evento. A pintura mural nocturna, ocupando paredes nuas dentro da aldeia, obrigava a uma maior exposição dos que a realizavam e não permanecia por muito tempo. A Junta de Freguesia havia encarregado um varredor de restaurar o branco das paredes tão cedo quanto fossem detectadas quaisquer inscrições. Valiam como acto de coragem, arrojo e ousadia, que ajudava a edificar, dentro do grupo local de militantes, uma imagem de lutadores para os que se atreviam a realizá-las e que, se não explica, pelo menos ajuda a compreender a existência de gradeamentos em torno das casas dos proprietários e o crescendo dos pedidos de licença de uso e porte de arma de defesa pessoal por parte de elementos de famílias proprietárias ou da situação, desde as eleições presidenciais de 1958.

Se o objectivo imediatamente desencadeante fora a luta pela jornada de oito horas, esta não surge no vazio, constituindo antes mais um passo, que torna dificilmente discerníveis pela memória construída o conjunto de eventos então ocorridos. Cada um dos que, então, no seio de grupos particulares, dinamizou e criou condições para esta luta, fornece em termos circunstanciais informação sobre aquilo em que se viu envolvido, e que de forma parcelar garantiu o sucesso do movimento. Porém, "a luta tinha mães", como referia um entrevistado, e esta vitória parcial enquadrava-se num movimento mais vasto, que como se notou, não se iniciara em 1962 e não seria concluído com esta conquista.

O acentuar da repressão, com prisões e subsequente tortura no sentido de obter confissões, conduz a campanhas pela amnistia bem marcadas na memória, com afixação de pequenos cartazes nas ruas, conjugadas com recolhas de fundos centralizados pelo PCP para redistribuição pelos presos e suas famílias. Também o Couço vai sentir duramente a repressão: na madrugada do dia 27 de Abril é feito um conjunto de prisões, tanto mais importantes quanto se preparava então a jornada de luta pelas oito horas de trabalho, com manifestações em 1 e 8 de Maio, marcadas localmente pela realização de "piqueniques com centenas de pessoas, cantou-se a 'Portuguesa', deram-se vivas ao 1.° de Maio, à Liberdade, etc. ". Mais, "No Couço na primeira semana de Maio, cerca de 400 mulheres fizeram greve durante dois dias, exigindo oito horas e 20$00. A Unidade não era sólida e não conseguiram o horário, mas arrancaram 28$00 e 30$00, na semana seguinte conquistaram 30$00 e 35$00". Triunfante, na separata do número de Junho/Julho, O Camponês titula: "Magnífica vitória dos operários agrícolas! Mais de 350 mil trabalhadores do sul conquistaram as oito horas":

O mês de Maio de 1962 ficará sendo uma data memorável na luta dos operários agrícolas do Sul. A conquista das oito horas e dos salários mais elevados por centenas de milhares de trabalhadores foi efectivamente uma valiosa contribuição para a Unidade dos trabalhadores e para a luta contra o fascismo. Os valentes operários agrícolas souberam escolher o momento oportuno: O começo das ceifas dos arrozais e as jornadas pela liberdade de 1 e 8 de Maio. Os bravos trabalhadores do Alentejo Litoral foram os primeiros a dar o arranque. (...) Na 2ª semana de Maio, os trabalhadores das regiões de Montemor-o-Novo, de Escoural, de S. Cristóvão, de Alcáçovas, de Viana do Alentejo, de Portel, de S. Manços, de Évora, de Azaruja, de Mora, do Couço, de Cabeção, e outros, lançaram-se em greve, durante vários dias, conquistando as oito horas e 40$00.

Imagem: Artur Pastor / Arquivo Municipal de Lisboa

(“Memórias da Resistência Rural do Sul”, Paula Godinho. Celta Editora,2001)

Estado Espanhol: Os 50 anos da morte do ditador Franco

20.11.25 | Manuel

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Diante da ascensão do fascismo e da extrema-direita

Por BPAA*

Este dia 20 de Novembro marca meio século desde a morte, na sua cama, do criminoso General Francisco Franco. Dois dias depois, em 22 de novembro de 1975, Juan Carlos de Borbón foi nomeado nas Cortes franquistas como rei e chefe de Estado, jurando fidelidade aos princípios do Movimento Nacional“. 

Iria ocorrer a “Transição” da ditadura franquista para a monarquia Bourbon, configurada no acordo entre o franquismo e a social-democracia para que ocorressem mudanças políticas preservando o domínio da classe burguesa em troca de uma distribuição de espaços institucionais entre as diferentes forças do novo regime. Assim, ia ser instituído o actual regime neo-franco, legitimado por ter facilitado aquilo a que chamam democracia, que não passou de uma nova ditadura burguesa espanhola. São estes termos em que a Constituição de 1978 é redigida: para que nada mude e para impedir o julgamento de todos os criminosos que cometeram crimes contra a humanidade, contra os povos submetidos ao Estado espanhol e contra a classe trabalhadora. Somam-se a eles o Tribunal Nacional, as sucessivas reformas trabalhistas, as “leis antiterroristas”, a Lei da Mordaça, a Lei Orgânica dos Partidos Políticos... Que têm sido o trampolim necessário para o evidente crescimento do fascismo e da extrema direita.

Este 50o aniversário é marcado por uma tentativa de revitalizar as teses que descrevem a monarquia Bourbon como “democracia” sob a chantagem de compará-la com o Estado franquista que durante a guerra de classes de 36/39 aplicou os seus próprios métodos à Andaluzia “uma operação de extermínio químico” nas palavras do historiador G. Jackson. Tentam assim esconder o engano a que o movimento operário e popular foi submetido pela social-democracia, representado na Lei de Reforma Política de 1976 em que a monarquia Bourbon foi introduzida para ser endossada, numa andorinha ao povo. 

50 anos após a Transição só podemos afirmar que, daquelas lamas, estas lamas. Durante décadas reinou um cleptomaníaco que disse sobre Franco que nunca deixou ninguém criticá-lo na frente de me“. Como podemos ser surpreendidos agora pelo crescimento do fascismo? 

Trata-se, além disso, de um fenómeno que não é exclusivamente andaluz ou estatal mas que se verifica a nível mundial em consequência do momento actual que o capitalismo sofre na sua fase imperialista: uma sucessão de crises económicas entre fases de crescimento económico ligeiro ou inexistente, associado à queda estrutural da produtividade. O progressivo “fascistization” do Estado espanhol também é explicado por três elementos que semearam confusão e medo nas classes populares: a crise capitalista de 2008 que causou um choque e dramas profundos numa classe trabalhadora sujeita a décadas de alienação e exploração selvagem, alguns altos níveis de dívida para beneficiar os bancos, e a fraude de uma nova social-democracia que prometia soluções através das instituições e que rapidamente desapontou todas as esperanças. E a irracionalidade e o medo são um terreno fértil para o fascismo e a extrema direita. A promoção de marcadores ideológicos da extrema direita franquista como a tortura de touros em espectáculos públicos, a caça de animais para usufruto de mentes sanguinárias, procissões e exposições católicas, as festas das conquistas das cidades andaluzas por Castela, o futebol como espaço de impunidade para o fascismo são outras maneiras pelas quais os diferentes governos do PP e do PSOE (com suas muletas políticas) favoreceram descaradamente seu crescimento.

Essa ascensão da extrema direita busca maior controle social para aumentar a eficiência do capitalismo e manter o crescimento da taxa de lucro da burguesia. É por isso que a especialização da Andaluzia na divisão internacional do trabalho facilitou este processo. Como produtora de tomate, pepino ou pimentão a baixo custo e a constante perda de rentabilidade dessas produções, a burguesia agrária precisa justificar a superexploração dos setores mais fracos da classe trabalhadora andaluza (migrantes e mulheres) socializando altas doses de racismo, espanholismo e autoritarismo para sustentar suas taxas de lucro. 

Perante esta situação, as facções progressistas do capitalismo e do imperialismo promovem um antifascismo “para all”, onde aspiram a validar as facções capitalistas mais gentis mas igualmente prejudiciais, como os sectores de esquerda do Partido Democrático Americano ou do Trabalho Inglês, o social espanhol -liberalismo ou regionalismo andaluz disfarçado de “soberanismo”. 

Da Nação Andaluza exigimos urgentemente a organização da classe trabalhadora para enfrentar esta deriva autoritária, tendo em conta que a sua origem está no capitalismo. A luta contra o fascismo tem de ser a luta contra o Capital e todos os seus peões, incluindo aqueles partidos que, autodenominando-se “de leftas”, facilitam a manutenção do Regime de 78 e os privilégios da sua oligarquia. Tem de ser a luta contra o chauvinismo espanhol, o patriarcado, o imperialismo e o sionismo. 

Se a extrema direita, o espanholismo e o autoritarismo avançam, o Povo Trabalhador andaluz não pode recuar ou contentar-se com opções políticas reformistas que representam uma falsa trégua face à exploração capitalista. A deriva autoritária do Estado espanhol deve ser travada com um Bloco Popular Andaluz Antifascista e nesta luta as rejeições da opressão nacional/colonial, social e patriarcal devem ser integradas numa luta comum por uma República Operária Andaluza. 

Diante da ascensão do fascismo e da extrema direita, o Bloco Popular Antifascista Andaluz!

Fonte

A diferença entre o Império dos EUA e o Império Britânico

16.11.25 | Manuel

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Por Caitlin Johnstone

A diferença entre as pessoas que apoiaram o Império Britânico e as pessoas que apoiam o império dos EUA é que aquelas que apoiavam o Império Britânico sabiam que estavam apoiando um império.

Alguém que apoiou os atos de matança militar em massa do Império Britânico em todo o mundo o fez porque apoiava a Coroa e queria que Sua Majestade civilizasse os selvagens ímpios e transformasse o mundo inteiro em seus súbditos reais. Alguém que apoia o belicismo do império dos EUA pensa que o está a fazer porque Saddam é um ditador do mal, porque Kadafi é um ditador do mal, porque Maduro é um ditador do mal, porque o Hamas e o Hezbollah e os Houthis são terroristas, etc..

Os partidários do Império Britânico entenderam que os inimigos do Império estavam sendo mortos porque se recusaram a se submeter adequadamente ao Rei e suas demandas. Os defensores do império dos EUA pensam que os EUA e os seus aliados estão sempre a atacar os Malvados em nome da difusão da Liberdade e da Democracia, e se isso acontecer para promover agendas geoestratégicas pré-existentes e/ou interesses de recursos, então será puramente por coincidência.

Os apoiantes do Império Britânico compreenderam que viviam sob um verdadeiro império: um guarda-chuva de poder composto por colónias, protectorados, domínios, mandatos e territórios que atravessavam o globo. Os defensores do império dos EUA pensam que é inteiramente por coincidência que existe um grupo gigante de nações que se move em uníssono quase perfeito em todas as agendas de política externa e trava continuamente guerra contra nações que não fazem parte desse grupo.

O Império Britânico foi totalmente aberto sobre o que era. Conquistaria um lugar, diria aos seus habitantes que agora são súbditos britânicos e os faria levantar a Union Jack em seu mastro de bandeira. O império ocidental, que está vagamente estruturado em torno de Washington, permite que os seus estados membros mantenham a sua própria bandeira e finjam que são nações soberanas, ao mesmo tempo que se comportam de formas que não são significativamente diferentes dos súditos do Império Britânico.

O Império Britânico era aberto e sem remorso sobre roubar recursos das populações de pele mais escura que havia conquistado e usá-los para melhorar a vida das pessoas no núcleo imperial. No império dos EUA, esses recursos são extraídos da mesma forma, mas sob a cobertura de slogans como “abrindo mercados” e “livre comércio” e “globalização”.

O Império Britânico foi mantido no lugar pela força bruta e doutrinação aberta. As pessoas foram subjugadas à força e depois ao longo dos anos educadas para acreditar que servia aos seus interesses viver sob a Coroa Real, e se tentassem tornar-se independentes, os casacos vermelhos seriam enviados para lembrá-los da bondade de Sua Majestade.

O império centralizado nos EUA também é mantido por muita força bruta, mas a sua principal arma é a manipulação psicológica. Tem a máquina de propaganda mais sofisticada que alguma vez já existiu, que treina as mentes dos seus súbditos para apoiar todas as suas diversas agendas de capitalismo, militarismo, imperialismo e dominação global, sob o disfarce de meios de comunicação, produções de Hollywood e serviços tecnológicos do Vale do Silício. As nações desobedientes encontram os seus ecossistemas de informação inundados com os meios de reeducação do National Endowment for Democracy informando-as porque é que o seu actual governo não serve os seus interesses, e se isso não funcionar, haverá uma “revolution”, que décadas mais tarde a CIA admitirá ter fomentado e armado.

O império dos EUA é uma versão maior, mais forte, mais sorrateira, mais mal-intencionada, menos honesta e mais manipuladora do que era o Império Britânico. O Império Britânico disse aos seus súditos que eles eram propriedade do Rei e deviam fazer como Sua Majestade ordenava. O império dos EUA subjuga as pessoas, enganando-as fazendo-as pensar que são livres.

https://youtu.be/yYMDj-JSf3g?si=mR7mW8VfLhLeI7YD

A imagem em destaque é do autor

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A África não era a periferia da guerra antifascista

12.11.25 | Manuel

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Por Mika

A África não era a periferia da guerra antifascista. Do desafio da Etiópia a Mussolini ao massacre de Thiaroye, os africanos lutaram contra o fascismo no exterior e o império em casa — lançando as bases da libertação e soberania do pós-guerra.

Ousmane Sembène Clássico de 1988 Acampamento de Thiaroye abre com uma cena que encapsula a contradição colonial. É 1944. Soldados africanos – os Tirailleurs Sénégalais – voltam para casa das frentes de batalha da Europa, tendo lutado para libertar a França do fascismo. Multidões torcem, tambores batem, famílias se esforçam para vislumbrar seus filhos. No entanto, quando o Sargento-Mor Diatta pergunta por Effok, a sua aldeia de Casamança, no Senegal, o silêncio que o cumprimenta é devastador. Seus parentes se afastam. Um general francês avança com um sorriso praticado, falando uma frase na língua local enquanto estende a mão ao tio de Diatta. O velho recusa-se a levá-lo. 

Naquele momento –, um gesto único e retido – Sembène captura o livro-razão moral do império. A guerra tinha terminado na Europa, mas a sua lógica persistiu em África. Effok não era apenas uma aldeia; foi um livro-razão de requisições, espancamentos e desaparecimentos durante a guerra. O sorriso do general é uma máscara; a recusa do tio, um ato político. Deste desafio silencioso ao Massacre de Thiaroye segue-se que Sembène traça a jornada da resistência passiva à ativa contra o colonialismo francês –, da luta contra o fascismo no exterior ao seu confronto em casa. 

A Primeira Frente: A Etiópia Fica Sozinha

Para trazer a África para a história da Guerra Mundial Antifascista –, comumente referida como Segunda Guerra Mundial, 1939–1945 – não é para adicionar uma nota de rodapé decorativa; é para corrigir o registro. Muito antes dos desembarques na Normandia, grandes posições armadas contra o fascismo crescente ocorreram fora da Europa, já em 18 de setembro de 1931, com a invasão imperial da China pelo Japão. A luta global contra o fascismo começou não em 1939 na Europa, mas anos antes em continentes muitas vezes marginalizados na narrativa histórica.

Em 1935–36, quando o exército de Mussolini invadiu, chovendo gás mostarda e bombas químicas em violação aberta do Protocolo de Genebra, patriotas etíopes – homens e mulheres - travaram uma guerra de guerrilha de vários anos que expôs o fascismo como colonialismo sem disfarce. Estes arbegna (patriotas) encarnavam uma recusa que transcendia género, classe e região. 

custo humano foi imenso: mais de 750 mil combatentes e civis etíopes foram mortos durante a invasão e ocupação. Em 1937, após uma tentativa de assassinato contra o vice-rei italiano, as forças italianas desencadearam o massacre de Yekatit 12, matando 30.000 civis em três dias de punição coletiva. Nas cavernas de Ametsegna Washa, eles gasearam e metralharam mais de 5.500 etíopes, um dos maiores massacres individuais do teatro africano e um exercício metódico de terror. Ainda assim, a resistência nunca cessou. Um terço dos patriotas registrados eram mulheres – organizadores, combatentes e comandantes cujo desafio ecoou por todo o continente.  Sua posição de cinco anos abriu uma escola de resistência, semeou geografia política e se tornou um modelo para movimentos antifascistas e anticoloniais que se seguiram.

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Os etíopes reúnem-se em Adis Abeba, fortemente armados com armas italianas capturadas, para ouvir a proclamação anunciando o regresso à capital do imperador Haile Selassie em maio de 1941 Wikimedia Commons.

A Infraestrutura da Vitória

À medida que a guerra se espalhava, África tornou-se o seu coração logístico. Suas costas guardavam rotas marítimas; suas minas alimentavam a máquina de guerra; seus trabalhadores construíram os portos, trilhos e pistas de pouso que sustentaram as frentes aliadas e permitiram a vitória final. Em todo o continente, comboios, aeronaves e combustível fluíam – movidos por mão de obra, recursos e sacrifícios africanos.

Soldados africanos e da Commonwealth quebraram a África Oriental Italiana em Keren e Amba Alagi, reabrindo o Mar Vermelho e quebrando o império do Eixo em solo africano. Tropas francesas e africanas livres capturaram Kufra na Líbia, garantindo um flanco sul para a guerra no deserto. No oeste, Gabão e Dakar tornaram-se palco da África Francesa e deram a De Gaulle uma espinha dorsal territorial e uma base logística. Freetown e Takoradi transportaram aeronaves e vigiaram comboios que sustentavam as frentes do Médio Oriente e do Norte de África, mesmo quando os submarinos caçavam essas rotas marítimas. No Oceano Índico, a tomada de ilhas-chave negou ao Eixo um trampolim submarino que poderia ter ameaçado o Canal de Suez e o Canal de Moçambique.

Mais de um milhão de soldados africanos serviram; outros milhões trabalharam em condições coercivas e perigosas. No Congo, o urânio extraído da mina Shinkolobwe – por trabalhadores africanos, muitos dos quais sofreram efeitos desastrosos para a saúde – abastecido as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. A contribuição de África foi decisiva – material, estratégico e humano –, mas foi negado ao seu povo reconhecimento e recompensa. Os impérios que afirmavam combater o fascismo no estrangeiro mantiveram os seus métodos internos: hierarquia racial, trabalho forçado, punição colectiva.

Thiaroye: Vitória e Violência

Sembène Acampamento de Thiaroye relata o que aconteceu quando as linhas de frente voltaram para casa. Os Tirailleurs os que sangraram pela França foram conduzidos para um campo de trânsito perto de Dakar para aguardar a desmobilização. Quando o seu prometido pagamento atrasado é desvalorizado, a sua consciência política – temperada em campos de batalha estrangeiros – endurece numa exigência colectiva de justiça económica. oey entrou em greve – não pela caridade, mas pela dignidade. A resposta colonial veio ao amanhecer: tanques e artilharia contra homens adormecidos e desarmados. Entre eles estava Pays, o sobrevivente dos campos nazistas, usando um capacete SS –, ele sentiu o que estava por vir, mas, quebrado por um trauma, não pôde avisá-los de que o fascismo havia apenas mudado seu uniforme, não suas vítimas. 

O massacre de Thiaroye, em 1 de Dezembro de 1944, não é uma aberração; é o Estado colonial falando na sua voz mais clara. Menos de seis meses depois, em 8 de maio de 1945 (Dia VE), no mesmo dia em que a Europa celebrou a vitória sobre o fascismo – tropas francesas massacrando milhares de argelinos em Sétif e Guelma por exigirem a independência. Dois anos depois, veteranos da guerra antifascista e politizaram a juventude malgaxe rosa pela independência e teve o mesmo destino. Para os colonizados, ‘liberation’ significou a restauração do chicote, do acampamento e da arma. Oitenta anos depois, número de mortos e cemitérios permanecer contestado, e a busca pela verdade plena ainda está obstruída – prova de que a guerra pela memória continua.

Do serviço de guerra à luta do pós-guerra

No entanto, a guerra mudou a África. A experiência de combater o fascismo e sustentar o esforço de guerra Aliado transformou trabalhadores e soldados comuns em assuntos políticos. Afirmaram que as promessas antifascistas de liberdade e justiça social também devem aplicar-se nas colónias, fundindo frentes laborais e anticoloniais.

Em junho de 1945, os trabalhadores nigerianos – que alimentaram e abasteceram a frente aliada – lançaram uma greve geral por salários dignos e dignidade. No ano seguinte, 70.000 mineiros sul-africanos que alimentaram a economia aliada durante a guerra – ouro para reservas, carvão para a indústria – lançado uma greve contra o regime laboral ‘fascistic’ do capitalismo do apartheid: salários de fome e leis laborais racistas. Em 1947–48, o ímpeto atingiu todo o continente. Em toda a África Ocidental Francesa, os trabalhadores ferroviários recorreram à sua disciplina durante a guerra encenar um ataque sustentado isso ligou a luta por salários justos à exigência mais ampla de liberdade.

 Em 1948, em Acra, ex-militares desarmados marchando para exigir pensões foram mortos a tiros por um oficial britânico. As mortes desencadearam tumultos e radicalizaram uma geração. Entre os presos no rescaldo dos tumultos estava Kwame Nkrumah, que logo levaria Gana à independência. Onde já havia trabalhado dentro de um partido nacionalista moderado, ele se separou para formar seu próprio movimento exigindo autogoverno imediato, reconhecendo – como seu biógrafo mais tarde escreveu – que, após o fim da guerra, a Revolução Africana começou.

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 Capa do livreto, intitulada ‘Workers at War – CNETU e os Mineiros Africanos de 1946’ Strike’, África do Sul.

Precisão, não piedade

Sembène recusa consolo fácil. Após o massacre, na sua cena final, um novo grupo de jovens soldados africanos embarca num navio para a Europa –, tal como fizeram certa vez os veteranos de Thiaroye. A história, ao que parece, prepara-se para se repetir. 

Recordar o papel de África na Guerra Mundial Antifascista não é um acto de caridade, mas de dizer a verdade. Os campos de batalha do continente não eram periféricos; eles eram centrais para a derrota do fascismo e o nascimento do mundo do pós-guerra. A sua luta contra o fascismo era inseparável da sua luta contra a arquitectura do imperialismo. Mas também revelaram algo mais profundo: que as lógicas centrais do fascismo – hierarquia racial, expropriação, punição coletiva – eram nativas do próprio império.

Oitenta anos depois, a luta continua sob novas formas: contra os regimes de dívida, a pilhagem ecológica, as fronteiras militarizadas e a transformação da memória em armas. Para comemorar a grande vitória da Guerra Mundial Antifascista, resistir ao ressurgimento do neofascismo e abordar as crises interligadas que o Sul Global enfrenta, o Fórum Acadêmico Global Sul (2025) reunir-se-á em Xangai em 13–14 de novembro de 2025 sob o tema ‘A Vitória da Guerra Mundial Antifascista e da Ordem Internacional do Pós-guerra: Passado e Futuro’. 

Uma nova geração de pensadores, artistas e organizadores em todo o Sul Global está a recuperar esta história – não para romantizar o passado, mas para compreender o mundo que herdámos. Como nos lembra Sembène, a resistência começa com precisão: ver claramente o que foi feito, quem pagou o preço e o que ainda falta ganhar. 

Calorosamente,

Mika

Nota:

Mika é pesquisadora e editora da Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social e co-coordena o escritório Tricontinental Pan-Africa, onde co-escreveu um dossiê recente intitulado Sahel busca soberania. Atualmente ela está cursando seu doutorado na Escola de Relações Internacionais e Relações Públicas da Universidade Fudan. É membro do Secretariado Pan Africanism Today, que coordena a articulação regional da Assembleia Popular Internacional. Ela também faz parte do Sem Guerra Fria comité de coordenação, uma plataforma de paz que promove a multipolaridade e a máxima cooperação global.

Imagem de destaque: Djime Diakite (Senegal), Apothéose des tranchées (Apoteose das Trincheiras), 2016.

Fonte

A greve geral de 27 de Junho de 2013

08.11.25 | Manuel

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Se puderem, o governo do PSD/PP-CDS e Cavaco Silva trarão o fascismo

Crónica escrita em 29 de Junho 2013

A greve geral de 27 de Junho decorreu nos moldes esperados: foi pacífica, como toda agente contava, os sindicalistas fizeram bem o seu trabalho não exigindo o derrube do governo em termos práticos; teve uma enorme adesão no sector público dos transportes, saúde e ensino, como também era de esperar, como que um coroar do êxito da greve dos professores que fora levantada dois dias antes. E como seria de prever, a polícia, à semelhança do que fizera na greve de Novembro de 2012, ensaiou nova manobra de repressão e de intimidação sobre cidadãos portugueses que ousaram levar para a rua a greve que se queria dentro de portas e pacífica: canalizou um grupo de 226 manifestantes para um dos acessos da Ponte 25 de Abril para os acusar de perturbação da ordem pública e do trânsito rodoviário (o "corte da via de trânsito" foi criminalizado por um governo PS, como não poderia deixar de ser) e criar uma base de dados de perigosos “terroristas” – à boa maneira americana, coisa até proibida depois do 25 de Abril.

Apesar do pacifismo e de sectores privados não terem aderido, como seria de desejar em greve geral, esta greve não deixou descansadas as boas consciências do establishment (e do governo, em particular, depois da derrota com os professores); quer pelo descontentamento da massa dos trabalhadores, que é bem patente embora não tenham aderido em grande parte; quer pela forte adesão dos trabalhadores da administração pública; quer ainda, contrariando todos os esforços dos media corporativos para descredibilizar a greve, pela simpatia manifestada pelos cidadãos em geral que, por uma ou outra razão não faziam greve, não deixavam de transparecer um outro ambiente, abertamente desfavorável ao governo e ao respectivo establishment.

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Este governo PSD/PP-CDS/Cavaco Silva, se lhe derem verga e tempo, irá trazer o fascismo a Portugal, e os indícios são mais que muitos: desde os actos ilegais e intimidatórios das polícias às sentenças condenatórias de uma justiça subserviente e cobarde contra os cidadãos que publicamente manifestam opinião contra o governo ou algum dignatário mais detestável, desde os ataques soezes à greve dos professores às ameaças de alteração da lei da greve, desde o desrespeito das decisões do Tribunal Constitucional sobre o pagamento dos 13º e 14º subsídios aos trabalhadores à teimosia de caciques locais do PSD em concorrer a câmaras municipais atropelando a lei e as decisões dos tribunais. Se não se levantar uma onda gigante de revolta popular, que não caberá numa só greve geral das centrais sindicais da ordem, o fascismo estará aí (cá) dentro em breve.

Nas greves gerais que se realizaram contra o governo fascista PSD/PP-CDS, a polícia ensaiou manobras de intimidação e de controlo de cidadãos pacíficos, cujo único crime é o de terem saído à rua manifestando abertamente a sua indignação e desacordo contra um governo que só tem governado contra os trabalhadores e negando o que prometera antes de ser eleito. Em Novembro foi que se viu, a própria polícia organizou uma intifada para servir de pretexto a um treino de pancadaria e de detenção e identificação de cidadãos mais ousados. Não se compreende que a polícia de intervenção tivesse estado tanto tempo sob pedradas lançadas por indivíduos encapuçados, podendo ter acabado de imediato com a provocação e, depois de ter carregado, não ter identificado os provocadores. Agora, nesta greve geral, a manobra foi mais que denunciadora, foi a própria polícia que, aproveitando o entusiasmo e ingenuidade de alguns manifestantes anarquistas (que tanto barafustam contra o estado e se deixam enganar tão facilmente), os conduzem docilmente para o acesso das Amoreiras à Ponte 25 de Abril, utilizando a mesma táctica da “caixa” pela qual controlam as claques do futebol, gente esta ordeira e até colaborante com a polícia.

São exemplos que depois são devidamente mediatizados, foi ver o jornalista destacado pela SIC a tentar pressionar os jovens entrevistados e que estiveram no putativo "corte da via de trânsito" a declarar que sabiam ao que iam, num natural complemento da bufaria. Estas manobras poderão quanto muito amedrontar algumas franjas da pequena-burguesia mais reivindicativa, mas temerosa de perder alguns “privilégios” do modo de vida burguês, que só irão incitar ainda mais as grandes massas da juventude e dos trabalhadores que se dispuserem aberta e decididamente à luta – lembremo-nos que foi a repressão sobre um punhado de estudantes que se reuniam em solidariedade com a luta do povo vietnamita que desencadeou todo o Maio de 68. Agora não se tratará de uma vulgar revolução democrática e patriótica dentro do quadro institucional burguês.

Para além da criação de bases dados pessoais, proibidos logo após o 25 de Abri e ilegais pela Constituição da República, das detenções arbitrárias em massa, e não deste ou daquele manifestante mais atrevido, atitudes que indignaram e surpreenderam a própria Ordem dos Advogados, e espancamentos cobardes, e da colaboração de alguns juízes mais subservientes ao poder político, desmentindo a tão apregoada independência entre poderes institucionais, o governo fascista quer impor a lei da rolha. Ainda recentemente um pacato cidadão, pelo facto banal e repetido diariamente por milhões de portugueses descontentes, de mandar “trabalhar” o chefe da quadrilha que rouba constantemente o povo português, foi condenado a pena de multa de 1300 euros, caso contrário seria preso; e um jornal da província, “O Mirante” de Santarém, não sabemos se afecto ao PSD local, foi multado em 2500 euros por chamar “idiota” a um ex-governante do PS. Ambos os casos são indicativo de que é proibido insultar os que nos (des)governam, haja ou não razão para isso, porque o respeitinho é uma coisa muito bonita, como no tempo do “botas” de Santa Comba.

O ministro das polícias prepara uma lei a fim de proibir os graffitis, ou colagem de cartazes fora do período eleitoral; caso seja aprovado, quem quiser pintar um mural, e alguns deles com verdadeiro valor artístico, em parede de propriedade pública ou privada, para além de possuir autorização escrita do proprietário, terá ainda de meter projecto e pedir previamente uma licença à câmara municipal. E "só os projectos aprovados poderão ser pintados e não ideias de revolução", como teme "Nomen", um dos mais polémicos writers nacionais, e todos os cidadãos amantes da liberdade. "A liberdade de expressão vai ser metida num saco", e definitivamente, se deixarmos; o governo planeia, depois de ter como certa a fidelidade dos media corporativos, controlar os media regionais que possam furar o controlo e as próprias ruas que são praticamente o único sítio a que o cidadão comum tem acesso para livremente expressar as suas ideias e reivindicações.

A recente greve dos professores teve o condão de unir os professores, uma classe de trabalhadores do estado tidos como individualistas e que tinham sofrido uma derrota no anterior governo, apesar de ter sido mais por culpa dos seus dirigentes sindicais que claudicaram do que propriamente por culpa própria; e teve também o condão de encostar às cordas um governo fascista, que quis mostrar-se inflexível e forte, mas que não passa de fraco e até facilmente derrotável se os trabalhadores se unirem sob uma bandeira de determinação e de ataque às verdadeiras causas dos seus problemas e desta política de austeridade. Independentemente de se saber ao certo se foi um “acordo” ou um “entendimento” o que pôs fim à greve dos professores e de nenhuma das partes ter reconhecido que sofreu um recuo, a realidade é que o governo viu gorada a tentativa de aplicar, pelo menos para já, as medidas que tinha no bolso para os professores, a começar e a acabar nos despedimentos imediatos. Terá havido um adiamento, o lobo perde os dentes e não os intentos, o quer dizer que os professores não poderão dormir descansados e devem preparar-se para futuras e mais árduas lutas – assim como os restantes trabalhadores da função pública, que juntando-se conseguirão ousar derrubar este governo fascista.

A greve dos professores teve outra virtude que foi atirar para fora da toca todo o reacionário empacotado de democrata, e foi ver gente tipo MST a perorar contra o abuso do direito à greve, e a defender farisaicamente os “interesses” dos pobres jovens estudantes (entenda-se, do governo). A par dos lacaios, os amos também não conseguiram conter-se e foi ouvir: “ Há desproporção entre o direito à greve e o interesse público; assumo aqui publicamente o compromisso de mudar a lei impedindo que as famílias e os estudantes sejam afetados. ” Já antes, o desbocado presidente do GR da Madeira (que tem como função dizer abertamente o que os colegas do partido calam em público e não foi por acaso que o homenzinho desabafou) defendera a proibição de greves nos sectores da saúde, justiça, transportes e, como seria de esperar, as forças de segurança e forças armadas. E será aqui que o governo, caso ainda tenha tempo de o fazer, irá proibir de imediato as greves e, por extensão, a todos os trabalhadores assalariados.

Esta gente só gosta, e mesmo destes com limitações, de leis ou direitos formais que possam controlar ou espezinhar a pés juntos. Esta gente mostrou mais uma vez que não presta e que só quer respeitinho e ordem. Querem de novo o Salazar, mas como os tempos não estão para já para caudilhos, tentam impor uma democracia musculada, um fascismo mais soft, desmascarando que a democracia burguesa só é útil e funciona na medida em que os trabalhadores colaborarem na sua própria exploração, porque logo que o deixem de o fazer e se preparam para a revolta, a cenoura é rapidamente substituída pelo cacete. Está no sangue do capitalismo e da sua democracia parlamentar burguesa, esta sempre no seu papel de ovo da serpente.

29 de Junho 2013

Túpac Amaru e a Grande Rebelião Indígena

04.11.25 | Manuel

Em 4 de novembro de 1780, os povos indígenas da América Andina davam início à 'Grande Rebelião'

Por Estevam Silva

Há 245 anos, em 4 de novembro de 1780, os povos indígenas da América Andina davam início à “Grande Rebelião” — a maior insurreição anticolonial da história das Américas, responsável por mobilizar mais de 100 mil indígenas na luta contra o império espanhol e a escravidão. O levante foi liderado pelo revolucionário peruano Túpac Amaru II, descendente do último soberano do Império Inca e um dos maiores expoentes da resistência indígena.

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Túpac Amaru II em uma gravura do século 18 - Wikicommons

Túpac Amaru II nasceu em 19 de março de 1738 em Surimana, na região de Cusco, Vice-Reino do Peru. Batizado José Gabriel Condorcanqui, adotou o nome de Túpac Amaru II em homenagem ao seu acenstral — Túpac Amaru, último imperador inca, executado em 1572 após conduzir uma revolta contra o domínio espanhol. Na condição de descendente da nobreza inca, Túpac herdou terras, cabeças de gado e um plantel de mulas e lhamas utilizadas no transporte de mercadorias. Herdou igualmente o título de cacique de Tungasuca, Surimana e Pampamarca, função que lhe granjeou enorme prestígio entre as comunidades indígenas. Túpac cursou o ensino básico em um colégio jesuíta e posteriormente ingressou na Universidade de San Marcos, onde estudou sobre a colonização espanhola no Peru e teve contato com obras de filósofos iluministas como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.

Os estudos na Universidade de San Marcos e o convívio com as dificuldades enfrentadas pelas comunidades indígenas aguçaram a percepção crítica de Túpac sobre os efeitos nocivos da colonização. Após destruírem o Império Inca e dizimarem parte substancial das comunidades indígenas, os espanhóis submeteram os nativos à mita — regime de trabalho compulsório análogo à escravidão. Os indígenas eram empregados como mão de obra nas plantações, na extração de minérios e nas manufaturas. A exploração era particularmente brutal nas minas de prata e mercúrio de Potosí e Huancavelica. Os indígenas eram forçados a se deslocarem para as regiões mineradoras, onde viviam em condições extremamente insalubres. Africanos escravizados também eram utilizados nas minas peruanas em menor proporção.

Para além da exploração inclemente das comunidades indígenas, as mudanças introduzidas nas colônias espanholas pelos Bourbon causaram grandes prejuízos às camadas médias — comerciantes, profissionais liberais e parte da chamada “elite criolla” (descendentes de espanhóis nascidos na América). A criação dos vice-reinos de Nova Granada e Rio da Prata resultou no fim do monopólio comercial de Lima, ao passo que a reforma fiscal provocou um aumento expressivo de impostos, dificultando a vida dos comerciantes e mesmo de comunidades que não podiam arcar com a pesada carga tributária. Somava-se ao quadro o descontentamento com a gestão dos corregedores, que administravam os povoados de maneira autoritária, com recurso frequente à violência. Possuindo bom trânsito entre indígenas e os “criollos”, Túpac logrou aglutinar a insatisfação generalizada em torno de um movimento reivindicando a reforma da administração colonial.

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 O líder indígena encaminhou aos tribunais de Lima uma petição solicitando mudanças no regime fiscal, a substituição do cargo de corregedor por prefeitos eleitos nas províncias e povoados e o fim do trabalho compulsório dos indígenas nas minas, relatando as condições desumanas e os riscos a que os nativos estavam submetidos. Ignorado, voltou a apelar para o bom senso das autoridades coloniais em Tinta e Cusco, também sem sucesso. Túpac decidiu, então, partir para uma ação mais enérgica, mobilizando as lideranças indígenas em prol de uma insurreição. Em 4 de novembro de 1780, o corregedor Antonio de Arriaga, infame pelo tratamento desumano dispensado aos indígenas, foi capturado e enforcado por um grupo de nativos sublevados. Ostentando o tradicional ornamento inca do Sol Dourado no peito, Túpac convocou indígenas, mestiços e negros a lutarem contra a dominação espanhola, dando início à chamada Grande Rebelião.

Os rebeldes saquearam os depósitos, armazéns e arsenais e distribuíram as armas para as comunidades indígenas. O prestígio de Túpac e sua identificação como descendente da linhagem imperial dos incas facilitou a adesão dos caciques peruanos à sublevação, que logo ultrapassou as fronteiras do vice-reino, atingindo os altiplanos bolivianos e se estendendo até o norte da Argentina. Micaela Bastidas, esposa de Túpac, se engajou diretamente no recrutamento de combatentes. Em pouco tempo, o exército revolucionário já contava com dezenas de milhares de soldados voluntários. Os indígenas marcharam pelo Peru obtendo sucessivas vitórias, tomando em pouco tempo as províncias de Quispicânchi, Tinta, Cotabambas, Calca e Chumbivilcas. Tropas coloniais despachadas por Cusco tentaram debelar o levante, mas sofreram uma fragorosa derrota na Batalha de Sangarará.

O exército de Túpac seguiu marchando por mais de 1.500 quilômetros, angariando em seu ápice mais de 100 mil combatentes. À medida em que avançavam, os revolucionários atacavam as propriedades dos colonizadores, destruíam os campos de trabalho forçado e libertavam os indígenas e negros escravizados. Também confiscavam e distribuíam para os populares os bens dos colonizadores e os fundos do erário real. Alarmada com os desdobramentos da insurreição e com o impacto da libertação dos escravos para os seus negócios, a elite criolla retirou o apoio inicial que dera ao movimento e se aliou às forças coloniais. Túpac ainda tentou obter apoio da Igreja Católica, mas foi excomungado como “rebelde traidor do Rei Nosso Senhor, (…) perturbador da paz e usurpador dos Direitos Reais”.

Preocupado com o avanço da insurreição e com a possibilidade de perder o controle de suas colônias, o rei Carlos III ordenou o envio de uma gigantesca expedição para debelar o levante indígena. Ciente dos reforços enviados por Madri, Túpac decidiu adiantar o plano de tomar Cusco, antiga capital do Império Inca. Em dezembro de 1780, 40 mil rebeldes liderados por Túpac iniciaram a investida ao norte de Cusco, na região de Cerro Picchu. O irmão de Túpac, Diego Cristóbal, por sua vez, comandou as tropas pelo leste. A batalha se estendeu por uma semana, mas as tropas espanholas, armadas com canhões e protegidas pelas fortificações que cercavam a cidade, conseguiram repelir os invasores, obrigando o exército de Túpac a recuar até Tinta.

Após receberem um reforço de 17 mil soldados fortemente armados, as tropas espanholas iniciaram uma campanha para esmagar de forma definitiva a rebelião indígena. Visando enfraquecer as tropas de Túpac, os espanhóis ofereceram anistia aos combatentes indígenas que deserdassem. Em abril de 1781, o exército de Túpac sofreu uma derrota decisiva e quase foi aniquilado. Traídos por dois de seus oficiais, Ventura Landaeta e Francisco Cruz, os rebeldes foram cercados entre Tinta e Sangarará. Em 6 de abril de 1781, Túpac foi capturado. Acorrentado e enviado a Cusco, o líder indígena ficou preso na Capela de San Ignacio. Túpac foi torturado por 35 dias seguidos para que revelasse o nome dos outros líderes da rebelião, mas manteve-se calado até o fim.

Túpac Amaru II foi condenado a morte e sofreu uma execução cruel. O líder indígena foi forçado a presenciar a tortura e morte de sua mulher, de seus filhos e amigos. Depois, teve seus membros atados a quatro cavalos dispostos em direções opostas para ser desmembrado. Ainda vivo após a tentativa de desmembramento, foi decapitado. Sua cabeça foi cravada em uma lança e exposta à execração pública e as partes do seu corpo esquartejado enviadas às províncias que seu exército havia conquistado. A rebelião indígena ainda prosseguiu por mais dois anos em duas frentes distintas, comandadas por Túpac Katari e Diego Cristóbal, até ser finalmente debelada em 1783. Milhares de indígenas foram mortos durante a repressão perpetrada pelas autoridades coloniais.

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Túpac Amaru II converteu-se no símbolo máximo da resistência indígena à opressão colonial. É considerado o fundador da identidade nacional peruana e o inspirador de inúmeros movimentos emancipacionistas e anti-imperialistas que o sucederam, tendo influenciado gerações de revolucionários latino-americanos ao longo dos séculos, de Simón Bolívar a Che Guevara.

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