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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

A vida confortável e em liberdade do ‘Anjo da Morte’ na Argentina

05.12.25 | Manuel

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Documentos confirmam que Josef Mengele, conhecido pela tortura atroz que aplicou aos prisioneiros em Auschwitz, gozava de vida pública irrestrita no país latino-americano.

Uma série de documentos desclassificados sobre a chegada ao território argentino e as atividades dos líderes nazistas, recentemente anexados ao Arquivo Geral da Nação, tem revelado que Josef Mengele, infame médico nazista e criminoso de guerra conhecido pelo apelido de 'Anjo da Morte', gozava uma vida pública e sem restrições naquele país.

Mengele entrou para a história pela tortura horrível que aplicou a sangue frio a numerosos prisioneiros no campo de concentração de Auschwitz (Polónia) durante o Holocausto. Diferentes documentos testemunham os atos atrozes que o criminoso nazista praticou em suas vítimas em nome de uma suposta ‘investigação médica e antropológica’.

Entre os procedimentos aplicados pelo 'Anjo da Morte' estão métodos de esterilização em massa, feridas deliberadamente infligidas aos prisioneiros para descobrir seus efeitos subsequentes e incontáveis cirurgias desnecessárias sobre humanos de diferentes idades que acabaram sendo mortos e dissecados sob sua tutela.

A Pasta Mengele

O arquivo criminal nazista esclarece como foi recebido na nação sul-americana e os múltiplos trâmites burocráticos que tramitou para obter a permanência pública e legal no referido país.

O corpus desclassificado contém fotografias, notas de inteligência, correspondência e vários registros de imigração e vigilância que demonstram que as autoridades encarregadas de recebê-lo sabiam quem ele era, onde morava, quem era sua companhia e o que fazia na Argentina.

Por exemplo, as autoridades estavam cientes de que Mengele havia entrado no país em 1949 fazendo uso de um passaporte italiano emitido em nome de Helmut Gregor, que mais tarde utilizou para obter documentação oficial como imigrante em 1950. 

"Desde sua entrada na Argentina, o sujeito residia na propriedade Los Mengeles, usando o nome do Dr. Gregor [...], o sujeito afirmou que havia chegado à Argentina usando um nome diferente e distinto daquele de sua profissão [...]. Então, parece que, mantendo seu nome verdadeiro, o sujeito pertencia à Sociedade SS [...], durante o qual se mostrou nervoso, tendo declarado isso durante a guerra ele atuou como médico na SS alemã, na Checoslováquia, onde a Cruz Vermelha o descreveu como "criminoso de guerra", rezam trechos de sua reportagem de chegada destacados pela Fox News.

Vítima identificada e ignorada

O pacote de provas documentadas aponta para José Furmanski, um cidadão argentino nascido na Polônia que havia sido vítima do criminoso nazista, e cujo caso era conhecido pela inteligência da Argentina. 

Apesar de testemunhar contra Mengele, a quem descreveu como a "sádico patológico" antes da imprensa, o ‘Anjo da Morte’ não foi preso.

"Eu conheci Mengele. Eu o conhecia bem. Vi-o muitas vezes no campo de Auschwitz, com o uniforme de coronel da SS e, ainda por cima, o casaco médico branco, Furmansaki afirmou na entrevista documentada: "Ele reuniu gêmeos de todas as idades no campo e os submeteu a experimentos que sempre terminavam em morte. Entrar crianças, idosos e mulheres... que horror! Vi-o separar uma mãe da filha e mandar uma das duas para a morte certa. Nunca esqueceremos isso", acrescentou.

O laboratório médico em Buenos Aires 

A pasta Mengele também mostra um momento surreal quando, em 1956, o criminoso nazista obteve uma cópia legalizada de sua certidão de nascimento original na Embaixada da Alemanha Ocidental em Buenos Aires e pôde usar seu nome original sem quaisquer restrições, mais uma prova do confortável que sentiu em solo argentino.

Em outro ato de tolerância sem precedentes por parte das autoridades, está documentado que Mengele foi visitado por seu pai no país sul-americano e que até tinha uma empresa de laboratório médico instalada em Buenos Aires. O relatório do Governo argentino sobre as suas atividades comerciais demonstra de forma confiável que as autoridades conheciam detalhadamente a identidade e as atividades do criminoso no país.

"Informo a Sede que a partir das investigações realizadas a fim de cumprir a OB referenciada, verifica-se que José Mengele atuou como sócio nos laboratórios médicos ‘FADRO-FARM’ localizados na Rua Drysdale 3573, em Carapachay, Distrito Vicente López, e com escritórios, desde julho deste ano, na Rua Cramer 860, Capital. O sujeito, quem aparece como médico, ingressou na empresa em 10 de julho de 1958, como sócio contribuinte de 10.000 pesos de capital, e aposentou-se da empresa em abril de 1959", afirma o relatório. 

Peregrinação pela América do Sul

Antes da patente vida aberta que Mengele levava abertamente na Argentina, foi a própria Alemanha Ocidental que emitiu uma ordem de prisão e extradição para os nazistas em 1959, um pedido que foi negado por um juiz local que argumentou que Mengele era vítima de "perseguição política".

Foi só depois de uma série de pressões a nível internacional em relação ao Governo argentino que o próprio Mengele decidiu deixar o país para se mudar para o Paraguai, onde viveu sob o protetorado do ditador Alfredo Stroessner, cuja família era originária da mesma cidade alemã que ele. 

A pasta Mengele junta-se aos ficheiros que documentam a sua presença oculta no continente americano. Sabe-se que o criminoso nazista estava fugindo da Mossad, o serviço de inteligência estrangeiro de Israel, e que ele fez peregrinações pelas nações do Cone Sul por décadas.

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Últimos anos no Brasil

Mengele teria feito a última paragem de sua peregrinação quando entrou clandestinamente no Brasil por volta de 1960. Sabe-se que ele foi ajudado por agricultores brasileiros alemães que simpatizavam com os nazistas e ajudaram-no a encontrar refúgio em diferentes casas rurais. 

Durante as duas últimas décadas de sua vida, ele foi hospedado em propriedades das famílias alemãs Bossert e Stammer em São Paulo, e até se permitiu ao luxo para usar a versão portuguesa do seu nome verdadeiro, embora também tenha usado o pseudônimo de Peter Hochbichler. 

Mengele morreu em 1979 depois de sofrer um derrame enquanto nadava no mar na cidade costeira de Bertioga, no Brasil. Seus restos mortais foram enterrados sob o nome de Wolfgang Gerhardt, outra das múltiplas identidades falsas, mas pistas diferentes levaram este último a desmascarar postumamente seus enganos covardes.

Fonte

Há 70 anos, Rosa Parks se tornava um símbolo da luta pelos direitos civis nos EUA

02.12.25 | Manuel

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Dias antes de morrer, no ano de 2005, Rosa Parks concedeu uma entrevista ao Aventuras na História na qual comentou sobre o episódio no ônibus; confira!

Por Giovanna Gomes

Hoje completam-se 70 anos do episódio que transformou uma costureira de Montgomery em uma das principais personalidades da história da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Rosa Parks, nascida em 1913 no Alabama, ficou conhecida mundialmente quando, em 1º de dezembro de 1955, se recusou a ceder seu assento a um passageiro branco em um ônibus. O ato corajoso desencadeou o boicote aos ônibus de Montgomery, um movimento de 381 dias que, com apoio de Martin Luther King Jr. e outras figuras, mudou para sempre a história da luta antirracista.

Dias antes de morrer, em 24 de outubro de 2005, Rosa Parks concedeu ao Aventuras na História uma entrevista que provavelmente foi sua última conversa com jornalistas brasileiros — e talvez sua última entrevista no mundo. Ainda lúcida aos 92 anos, a americana falou na ocasião sobre o passado, o presente e seu desejo de um futuro mais justo. Em vários momentos, deixou transparecer tanto o orgulho pela caminhada quanto a tristeza pelo que ainda precisava ser feito.

Ao relembrar o dia do ônibus, Parks afirmou que, desde então, “as relações raciais melhoraram muito”. Mas descreveu o peso da segregação vivida na juventude: “Quando aconteceu o incidente do ônibus, a escravidão já tinha terminado havia quase um século [a abolição nos Estados Unidos aconteceu no dia 6 de dezembro de 1865], mas os negros ainda não podiam frequentar os mesmos restaurantes que os brancos, as mesmas escolas, os mesmos mercados… Nem mesmo votar ou sentar nos mesmos assentos do ônibus.” Era, em suas palavras, “uma segregação racial legalizada”, diante da qual se caminhava “de cabeça baixa”. Disse ainda que não houve um único dia em que não tenha se sentido humilhada.

Sobre seu papel no Movimento pelos Direitos Civis, foi direta: “Eu não imaginava que ficaria envolvida até o pescoço…”, mas lembrou que o anseio por lutar por mudanças já vinha de bem antes. Ela e o marido entraram para a National Association for the Advancement of Colored People [NAACP, entidade de defesa dos direitos dos negros] em 1943, época em que o tema dos ônibus ocupava grande parte das discussões: “Nós éramos maioria, o sistema de ônibus dependia da gente. E obedecíamos às regras deles sem questionar.”

Episódio anterior

Parks contou também que, anos antes do episódio decisivo, já havia enfrentado o mesmo motorista: Rosa não quis descer certa vez e foi expulsa depois de discutir com o motorista. Nada além aconteceu naquela ocasião, mas em 1955 o cenário era outro: “Estávamos mais unidos e conseguimos chamar a atenção de todos para a minha prisão, a nossa situação e, claro, para o boicote.” O gesto não foi planejado, “mas já era esperado por causa de toda a tensão que havia entre negros e brancos”.

Sobre os 381 dias do boicote, ela recordou: “A cada dia, eu sentia nosso povo mais unido.” Disse que Martin Luther King Jr. “comoveu o país com a nossa causa” e que, mesmo diante das dificuldades, não tinha dúvida de que venceriam. Perdeu o emprego pouco depois, mas assumiu a luta em tempo integral. Porém lembrou que o fim do boicote não encerrou os problemas: “Enquanto existir gente que não acredita em liberdade e justiça para todos, meu trabalho não terá terminado.”

Na entrevista, Parks também falou do Instituto Rosa & Raymond Parks para o Autodesenvolvimento, fundado em 1987: “Temos uma pequena equipe e muitos voluntários maravilhosos.” Orgulhou-se dos mais de 6 mil jovens e crianças atendidos e do programa Pathways to Freedom, que reúne participantes de vários países. Disse que o objetivo era simples: “fazer com que cada um descubra o que há de melhor em si mesmo.”

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Rosa Parks em 1956 e em 1999 – Crédito: Getty Images

Mesmo aposentada havia três anos, continuava presente: “Tenho um amor verdadeiro pela minha causa, o que não me deixa cansar.” E explicou por que ainda participava de encontros com jovens: “Acho que é importante para eles conhecerem de perto minha história.”

Em seguida, o AH mencionou estudo da Universidade de Harvard, conduzido pelo Civil Rights Project. A pesquisa na época apontou que as escolas americanas vinham enfrentando um processo de nova segregação racial desde o Caso Dowell, de 1991, quando a Suprema Corte autorizou o retorno do zoneamento escolar por bairros. Em questão de uma década, a presença de alunos negros em escolas de maioria branca diminuiu cerca de 10%.

Sobre essa volta da segregação nas escolas americanasParks foi firme: “É um desgosto terrível. É um pesadelo ver crianças crescendo separadas por raças.” E quando o tema foi a ascensão de grupos racistas, respondeu: “Eles não sabem que quem sente ódio está destruindo tanto o outro quanto a si mesmo. Mas eu estou consciente de que sempre vai haver sofrimento no mundo e pessoas que escolhem odiar. Por isso é importante ouvir a voz da paz. Eu acho que nós perdemos gerações quando não enchemos os corações dos jovens de paz e de objetivos positivos.”

Cinquentenário do boicote

Com 92 anos, Rosa Parks revelou que já não andava de ônibus — havia parado em 1999 —, mas falava animada sobre os planos para o cinquentenário do boicote: “Teremos muitas festas… O Instituto Rosa & Raymond Parks vai comemorar a data de minha prisão, o início e o fim do boicote, meu aniversário de 93 anos… O calendário de festas estará no nosso site em breve.”

Questionada sobre a imagem que tinha sobre Martin Luther King Jr., a ativista resumiu: “A de um homem forte, carismático e determinado a dar a vida pelos seus ideais. Eu não estaria dando esta entrevista agora se meu caminho não tivesse cruzado com o de Martin Luther King no episódio do ônibus.”

E, ao ser convidada a listar figuras negras contemporâneas que admirava, preferiu não correr o risco de esquecer alguém: “São muitos e, infelizmente, nem todos são conhecidos da grande mídia. É melhor nem começar a listar. Estou com 92 anos e, você sabe, a chance de a memória falhar e eu esquecer alguém é grande.”

Imagem de destaque: Rosa Parks reproduzindo a cena que mudou os rumos da história - Crédito: Getty Images

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.

Fonte