A crise académica de 1962 ou a revolta dos filhos-família contra o fascismo
23.03.22 | Manuel
![Criseacademica1969_1[1] (1).jpg](https://fotos.web.sapo.io/i/Bc3189782/22268411_WZmR8.jpeg)
A autonomia universitária, atropelada com violência inaudita, surge agora como causa capaz de unificar a luta. A brutalidade da polícia contra os estudantes deixa as famílias traumatizadas. Tal como em 1956, são os meninos das classes altas quem sente a mão pesada do regime.
Na reunião fala-se em luto académico, mas não sobra tempo para grandes decisões. A polícia invade as instalações e obriga os alunos a dispersarem.
À noite, na associação de Económicas, no Quelhas, a RIA decide o luto académico, eufemismo para greve às aulas. Depois de uma consulta aos representantes das várias faculdades, parece haver força para avançar. Mesmo nos casos mais problemáticos, como a Faculdade de Letras, onde a presença maioritária de mulheres torna as coisas aparentemente mais difíceis.
O regresso às aulas marca a paralização da Universidade. Para tentar uma condenação unânime, decreta-se o luto académico com base na defesa dos valores corporativos da Universidade e da sua autonomia. Piquetes de estudantes, à porta das faculdades, explicam a situação aos colegas. Os que normalmente mostram total desinteresse pelas questões associativas sentem-se atingidos e solidarizam-se com o protesto. E lançado o comunicado zero que dá conta dos acontecimentos de sábado e apela à união: «Colega, o estudante está de luto. Protesta contra o vandalismo polícia até que se realize o Dia do Estudante. Até que seja reaberta a Cantina Universitária. Até que sejam libertos os estudantes presos. Continua ainda mais unido aos teus dirigentes.»
Nos jornais é divulgada uma nota oficiosa do Ministério da Educação: «Elementos de acção declaradamente subversiva tentaram desviar das actividades escolares alguns estudantes universitários, liceais e até das escolas do magistério primário e colégios particulares, com o pretexto de reuniões, colóquios e convívios a efectivar em Lisboa, nos dias 24, 25 e 26».
Não obstante as insinuações, o movimento junta aos estudantes alguns professores, como Lindley Cintra, Maria de Lurdes Belchior, Castro Mendes, Rui de Oliveira e Oliveira Marques. O próprio reitor não hostiliza os estudantes que, por sua vez, o apresentam como mais uma vítima dos ataques à autonomia universitária.
A grande proximidade entre três importantes faculdades – Letras, Medicina e Direito – resulta num pólo aglutinador das forças estudantis. Aberta a crise, as várias associações e o próprio movimento têm um comando unificado, a RIA, onde são geridas as diversas posições e conciliadas, a custo de longas horas de vigília, as diferentes tendências políticas. Outro aspecto inovador, em Lisboa, são os plenários. O Estádio Universitário é o cenário escolhido e o tempo primaveril convida à participação.
As águas continuam turvas na capital. No dia 27, a imprensa divulga nova nota do Ministério da Educação onde se apresentam as razões da proibição do Dia do Estudante. Por um lado, os estudantes solicitaram autorização para o evento apenas com uns dias de antecedência e sem apresentarem o programa. Por outro, a intervenção da polícia ficou a dever-se ao conhecimento antecipado de «planos perturbadores da vida escolar e da própria ordem pública».
Os estudantes contra-atacam. É o início da batalha dos comunicados. A equipa de redactores, liderada por Manuel Lucena em muitas noites de insónia forçada, não tem mãos a medir. Pesam-se as palavras e as estratégias, estudam-se ofensivas e respostas.
É através de um comunicado que os estudantes respondem às notas oficiosas do ministério: há 20 dias que as intenções de realizar o Dia do Estudante foram dadas a conhecer oficialmente e o ministro foi convidado a participar. Também se refutam as afirmações do programa radiofónico «Rádio Moscovo Não Fala Verdade» onde os estudantes são acusados de serem «arrastados por profissionais comunistas pagos por Moscovo».
A pressão causada pela paralização da universidade e pela indignação pública obriga Lopes de Almeida a receber os estudantes. José Vasconcelos Abreu, presidente da Associação de Direito, e Eurico de Figueiredo vão negociar com o ministro uma nova data para a realização do Dia do Estudante.
À noite, em virtude da aparente abertura ao diálogo manifestada pelo ministro, fica decidido levantar o luto académico. Tanto mais que acabam de ser libertados os estudantes presos no sábado e há jantar de confraternização na cantina, entretanto reaberta.
Os ânimos estão mais serenos, apesar de 28 de Março amanhece com a Cidade Universitária pejada de panfletos da organização da extrema-direita Movimento Jovem Portugal, acusando os dirigentes associativos de traição à pátria e comunismo.
Nova reunião com o ministro estabelece a realização do Dia do Estudante para 7 e 8 de Abril. Sem perdas de tempo, nessa tarde entregue aos reitores o programa das celebrações.
O último dia do mês é apaziguador. Marcello Caetano comparece perante Lopes de Almeida que lhe pede que permaneça no cargo de reitor. Aceite o pedido, reitor e ministro celebram juntos o décimo aniversário do CDUL.
O rescaldo do 24 de Março também não é pacífico em Coimbra. Depois da ida atribulada a Lisboa, os dirigentes da Associação Académica expõem ao reitor Braga da Cruz a sua indignação pelo sucedido. A recepção é pouco cordial. Alguns dos estudantes que distribuem o comunicado nº 0 das associações lisboetas são presos e, ainda que libertados logo a seguir, a manobra não passa despercebida. Está lançada a chama. Nessa noite um plenário participado por quase dois mil estudantes decide solidarizar-se com os colegas alfacinhas decretando o luto académico.
Dispostos a mostrar a sua força, os estudantes trocam o almoço do dia 27 por uma concentração em frente da reitoria. Braga da Cruz, não só aceita recebê-los nessa tarde como abranda um pouco os traços da sua autoridade férrea e pede desculpas pelo comportamento agressivo do dia anterior. E acena com a possibilidade de ficar sem efeito o processo mandado instaurar pelo Ministério à AAC em virtude do Encontro Nacional de Estudantes. Tal como em Lisboa, é levantado o luto, mas na manhã seguinte sabe-se que corre na Polícia Judiciária um processo contra a Académica por causa do Encontro Nacional de Estudantes. O reitor vestia afinal a pele do cordeiro.
Outro episódio tinha marcado o final de Março. O Via Latina, ex-líbris da imprensa universitária coimbrã, vê a sua publicação suspensa num folhetim rocambolesco. Afãs tado da direcção do jornal pela censura, que não aprova o seu nome, José Carlos Vasconcelos fora substituído por um bom aluno escolhido à pressa. António Avelãs Nunes é pois o director da equipa que quer fazer do Via Latina um semanário quando uma manobra atrevida acaba por lhe calar as notícias.
Esperando que a comissão de censura mantenha nas mesmas funções um coronel quase cego, José Carlos Vasconcelos convenceu os colegas a incluírem a notícia da realização do Dia do Estudante na secção da última página, dedicada a pequenos assuntos, a Tuna, o Orfeão e afins. Para o estratagema ter êxito, pedem ao gráfico de serviço, Eduardo Batarda, que pagine a secção «Via Férrea» com um corpo de letra ainda mais pequeno que o habitual. No fim de um arrazoado imenso de notícias são escondidas as palavras que anunciam o Dia do Estudante para 24 de Março. Posto o carimbo de «visado» na secção, os estudantes levam mais longe a ousadia e puxam para a primeira página a notícia que os olhos cansados do coronel velhinho não conseguiram ler. O golpe sai caro: a edição seguinte é ainda sujeita a provas, mas o jornal é encerrado.
(“Grandes Planos”, de Gabriela Lourenço, Jorge Costa e Paulo Pena. Âncora Editora/Associação 25 de Abril. Lisboa, 2001)