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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

A greve geral de 27 de Junho de 2013

08.11.25 | Manuel

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Se puderem, o governo do PSD/PP-CDS e Cavaco Silva trarão o fascismo

Crónica escrita em 29 de Junho 2013

A greve geral de 27 de Junho decorreu nos moldes esperados: foi pacífica, como toda agente contava, os sindicalistas fizeram bem o seu trabalho não exigindo o derrube do governo em termos práticos; teve uma enorme adesão no sector público dos transportes, saúde e ensino, como também era de esperar, como que um coroar do êxito da greve dos professores que fora levantada dois dias antes. E como seria de prever, a polícia, à semelhança do que fizera na greve de Novembro de 2012, ensaiou nova manobra de repressão e de intimidação sobre cidadãos portugueses que ousaram levar para a rua a greve que se queria dentro de portas e pacífica: canalizou um grupo de 226 manifestantes para um dos acessos da Ponte 25 de Abril para os acusar de perturbação da ordem pública e do trânsito rodoviário (o "corte da via de trânsito" foi criminalizado por um governo PS, como não poderia deixar de ser) e criar uma base de dados de perigosos “terroristas” – à boa maneira americana, coisa até proibida depois do 25 de Abril.

Apesar do pacifismo e de sectores privados não terem aderido, como seria de desejar em greve geral, esta greve não deixou descansadas as boas consciências do establishment (e do governo, em particular, depois da derrota com os professores); quer pelo descontentamento da massa dos trabalhadores, que é bem patente embora não tenham aderido em grande parte; quer pela forte adesão dos trabalhadores da administração pública; quer ainda, contrariando todos os esforços dos media corporativos para descredibilizar a greve, pela simpatia manifestada pelos cidadãos em geral que, por uma ou outra razão não faziam greve, não deixavam de transparecer um outro ambiente, abertamente desfavorável ao governo e ao respectivo establishment.

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Este governo PSD/PP-CDS/Cavaco Silva, se lhe derem verga e tempo, irá trazer o fascismo a Portugal, e os indícios são mais que muitos: desde os actos ilegais e intimidatórios das polícias às sentenças condenatórias de uma justiça subserviente e cobarde contra os cidadãos que publicamente manifestam opinião contra o governo ou algum dignatário mais detestável, desde os ataques soezes à greve dos professores às ameaças de alteração da lei da greve, desde o desrespeito das decisões do Tribunal Constitucional sobre o pagamento dos 13º e 14º subsídios aos trabalhadores à teimosia de caciques locais do PSD em concorrer a câmaras municipais atropelando a lei e as decisões dos tribunais. Se não se levantar uma onda gigante de revolta popular, que não caberá numa só greve geral das centrais sindicais da ordem, o fascismo estará aí (cá) dentro em breve.

Nas greves gerais que se realizaram contra o governo fascista PSD/PP-CDS, a polícia ensaiou manobras de intimidação e de controlo de cidadãos pacíficos, cujo único crime é o de terem saído à rua manifestando abertamente a sua indignação e desacordo contra um governo que só tem governado contra os trabalhadores e negando o que prometera antes de ser eleito. Em Novembro foi que se viu, a própria polícia organizou uma intifada para servir de pretexto a um treino de pancadaria e de detenção e identificação de cidadãos mais ousados. Não se compreende que a polícia de intervenção tivesse estado tanto tempo sob pedradas lançadas por indivíduos encapuçados, podendo ter acabado de imediato com a provocação e, depois de ter carregado, não ter identificado os provocadores. Agora, nesta greve geral, a manobra foi mais que denunciadora, foi a própria polícia que, aproveitando o entusiasmo e ingenuidade de alguns manifestantes anarquistas (que tanto barafustam contra o estado e se deixam enganar tão facilmente), os conduzem docilmente para o acesso das Amoreiras à Ponte 25 de Abril, utilizando a mesma táctica da “caixa” pela qual controlam as claques do futebol, gente esta ordeira e até colaborante com a polícia.

São exemplos que depois são devidamente mediatizados, foi ver o jornalista destacado pela SIC a tentar pressionar os jovens entrevistados e que estiveram no putativo "corte da via de trânsito" a declarar que sabiam ao que iam, num natural complemento da bufaria. Estas manobras poderão quanto muito amedrontar algumas franjas da pequena-burguesia mais reivindicativa, mas temerosa de perder alguns “privilégios” do modo de vida burguês, que só irão incitar ainda mais as grandes massas da juventude e dos trabalhadores que se dispuserem aberta e decididamente à luta – lembremo-nos que foi a repressão sobre um punhado de estudantes que se reuniam em solidariedade com a luta do povo vietnamita que desencadeou todo o Maio de 68. Agora não se tratará de uma vulgar revolução democrática e patriótica dentro do quadro institucional burguês.

Para além da criação de bases dados pessoais, proibidos logo após o 25 de Abri e ilegais pela Constituição da República, das detenções arbitrárias em massa, e não deste ou daquele manifestante mais atrevido, atitudes que indignaram e surpreenderam a própria Ordem dos Advogados, e espancamentos cobardes, e da colaboração de alguns juízes mais subservientes ao poder político, desmentindo a tão apregoada independência entre poderes institucionais, o governo fascista quer impor a lei da rolha. Ainda recentemente um pacato cidadão, pelo facto banal e repetido diariamente por milhões de portugueses descontentes, de mandar “trabalhar” o chefe da quadrilha que rouba constantemente o povo português, foi condenado a pena de multa de 1300 euros, caso contrário seria preso; e um jornal da província, “O Mirante” de Santarém, não sabemos se afecto ao PSD local, foi multado em 2500 euros por chamar “idiota” a um ex-governante do PS. Ambos os casos são indicativo de que é proibido insultar os que nos (des)governam, haja ou não razão para isso, porque o respeitinho é uma coisa muito bonita, como no tempo do “botas” de Santa Comba.

O ministro das polícias prepara uma lei a fim de proibir os graffitis, ou colagem de cartazes fora do período eleitoral; caso seja aprovado, quem quiser pintar um mural, e alguns deles com verdadeiro valor artístico, em parede de propriedade pública ou privada, para além de possuir autorização escrita do proprietário, terá ainda de meter projecto e pedir previamente uma licença à câmara municipal. E "só os projectos aprovados poderão ser pintados e não ideias de revolução", como teme "Nomen", um dos mais polémicos writers nacionais, e todos os cidadãos amantes da liberdade. "A liberdade de expressão vai ser metida num saco", e definitivamente, se deixarmos; o governo planeia, depois de ter como certa a fidelidade dos media corporativos, controlar os media regionais que possam furar o controlo e as próprias ruas que são praticamente o único sítio a que o cidadão comum tem acesso para livremente expressar as suas ideias e reivindicações.

A recente greve dos professores teve o condão de unir os professores, uma classe de trabalhadores do estado tidos como individualistas e que tinham sofrido uma derrota no anterior governo, apesar de ter sido mais por culpa dos seus dirigentes sindicais que claudicaram do que propriamente por culpa própria; e teve também o condão de encostar às cordas um governo fascista, que quis mostrar-se inflexível e forte, mas que não passa de fraco e até facilmente derrotável se os trabalhadores se unirem sob uma bandeira de determinação e de ataque às verdadeiras causas dos seus problemas e desta política de austeridade. Independentemente de se saber ao certo se foi um “acordo” ou um “entendimento” o que pôs fim à greve dos professores e de nenhuma das partes ter reconhecido que sofreu um recuo, a realidade é que o governo viu gorada a tentativa de aplicar, pelo menos para já, as medidas que tinha no bolso para os professores, a começar e a acabar nos despedimentos imediatos. Terá havido um adiamento, o lobo perde os dentes e não os intentos, o quer dizer que os professores não poderão dormir descansados e devem preparar-se para futuras e mais árduas lutas – assim como os restantes trabalhadores da função pública, que juntando-se conseguirão ousar derrubar este governo fascista.

A greve dos professores teve outra virtude que foi atirar para fora da toca todo o reacionário empacotado de democrata, e foi ver gente tipo MST a perorar contra o abuso do direito à greve, e a defender farisaicamente os “interesses” dos pobres jovens estudantes (entenda-se, do governo). A par dos lacaios, os amos também não conseguiram conter-se e foi ouvir: “ Há desproporção entre o direito à greve e o interesse público; assumo aqui publicamente o compromisso de mudar a lei impedindo que as famílias e os estudantes sejam afetados. ” Já antes, o desbocado presidente do GR da Madeira (que tem como função dizer abertamente o que os colegas do partido calam em público e não foi por acaso que o homenzinho desabafou) defendera a proibição de greves nos sectores da saúde, justiça, transportes e, como seria de esperar, as forças de segurança e forças armadas. E será aqui que o governo, caso ainda tenha tempo de o fazer, irá proibir de imediato as greves e, por extensão, a todos os trabalhadores assalariados.

Esta gente só gosta, e mesmo destes com limitações, de leis ou direitos formais que possam controlar ou espezinhar a pés juntos. Esta gente mostrou mais uma vez que não presta e que só quer respeitinho e ordem. Querem de novo o Salazar, mas como os tempos não estão para já para caudilhos, tentam impor uma democracia musculada, um fascismo mais soft, desmascarando que a democracia burguesa só é útil e funciona na medida em que os trabalhadores colaborarem na sua própria exploração, porque logo que o deixem de o fazer e se preparam para a revolta, a cenoura é rapidamente substituída pelo cacete. Está no sangue do capitalismo e da sua democracia parlamentar burguesa, esta sempre no seu papel de ovo da serpente.

29 de Junho 2013