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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

A Torre de Babel ou a Porra do Soriano

16.09.23 | Manuel

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Poema de Guerra Junqueiro

Pedro Soriano foi o herói de um casamento simulado que houve em Lisboa. Tinha o membro viril desenvolvidíssimo. Uns amigos de Junqueiro encarregaram-se de lhe apresentar o Soriano porque, tendo contado a Junqueiro a enormidade do membro, ele dissera que exageravam. Junqueiro viu e exclamou: «Tamanho membro merece um poema».

Esse poema é o que se segue:

Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
     Para o cantar inteiro e para o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
     Dez séculos!
          Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem colhões que ideia vaga
das nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
     Mastro de Leviathan! Iminência revel!
     Estando murcho foi a Torre de Babel
     Caralho singular! É contemplá-lo
                                                               É vê-lo teso!
Atravessaria o quê?
                                  O sete estrelo!!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra
          É uma porra, arquiporra!
                                                 É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder a Terra, Eva no Paraíso!!
          É uma porra infinita, é um caralho insone
que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.

Oh, caralho imortal! Oh glória destes lusos!
Tu podias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde é que há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
          Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
          – Nada, nada contém a porra do Soriano!!

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita??
– Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe dá de abrir talvez um dia um terramoto
para que desague, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langolha!!!

A porra do Soriano, é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
          Onde é que ela começa?
                                               Onde é que ela termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento
que porra de pardal e porra de jumento??
     Porra!
                Mil vezes porra!
                                      Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmo num minuto!!!

*

O Casamento Simulado

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 Ao apresentar o retrato de Maria Eugénia conjuntamente com a sua predilecta amiga de então, Leopoldina, vamos descrever os mais pronunciados traços fisionómicos daquela suposta mártir, em vista dos quais facilmente se compreende e conclui a devassidão de tal rapariga.

A facilidade com que aos dezassete anos se prestava a fotograr-se em variadíssimos costumes já de per se é indício frisante de que lhe era agradável a variedade.

Pois mostrará bom senso quem admitir que a mulher cujo olhar astucioso e sensual, que ali se divisa, seja a adolescente e pudica menina que, três anos depois, dizem que foi enganada a um terceiro andar persuadida de que era uma igreja, casada religiosamente às 11 horas da noite, em uma capela fingida, sendo o celebrante fingido, o noivo fingido, fingidas as testemunhas, tudo fingido?

Não, mil vezes não.

Naquela idade revelou logo Maria Eugénia querer com a sua fatal beleza angariar amantes com quem pudesse saciar os furores da sua sensualidade, desprezando as considerações do mundo pela virtude, adquiridas pela honestidade.

Todo o sou empenho, todo o seu cuidado era fazer conquistas, e ciente de que era desejada, espicaçar com atractivos c ciúmes o coração dos desgraçados que a requestassem. E para isso, para alcançar esse fim, era preciso um qualquer meio para apresentar-se a curiosidade pública, sempre ávida de sensações. A fotografia foi o expediente tomado.

Seria exposta à venda, comprada, mostrada e, assim, tornando-se conhecida e tendo antes tido o cuidado de haver ocultado convenientemente alguns traços quo pudessem compromete-la a, os concorrentes pululariam de todos os lados.

Arrojou-se até a ir tirar o retrato quo apresentamos, estando grávida, o que bem se reconhece ao mais simples relancear de olhos e ainda pela circunstância de se ter colocado por detrás de uma decoração qualquer. Como já no começo da vida havia tanta perversão na sua alma!

O sou olhar provocador, a sua pose, a companhia igualmente desacreditada que escolhera para com ela se retratar em grupo, são provas evidentíssimas de que o seu temperamento extraordinariamente sensual estava muito longe do recato, da decência e do decoro, qualidades inerentes às meninas honestas, cuja educação seja atendida pelas mães.

Tem Maria Eugénia as características de todas as mulheres libertinas: colo saliente, lábios grossos e boca esponjosa, raiz nasal encovada, testa curta, o cabelo corredio, tez pálida.

Todas as mundanas, as mais perigosas, reúnem aqueles sinais de depravação, o orgulho, a astúcia, e a tendência para o galanteio, todos os ardis de concupiscência. Maria Eugénia usa destes naturais predicados com requintada hipocrisia e não menus rara inteligência, mais de admirar em uma mulher boçal, tornada não se sabe como em emérita comediante.

O embuste de que tão fina e habilmente se revestiu no papel de ingénua, iludindo autoridades e o público com as suas falsas declarações, é a prova mais cabal de que possui mais uma infame qualidade miseravelmente vingativa.

Tão nojenta é a sua índole que nem mesmo respeitou um sentimento que as mais abjectas prostitutas conservam para com as suas infelizes companheiras de infortúnio, e a que elas, no meio do seu enlameado viver, classificam de decoro, compromisso tácito que todas guardam para com aquelas a quem têm por amigas, não as traindo com os seus amantes. Pois nem isso mesmo Maria Eugénia respeitou, pois que atraiçoou a sua predilecta amiga Leopoldina roubando-lhe o amante. Comprovaremos este acto.

*

Entre os muitos documentos que obtivemos e para o diante publicaremos, vamos dar a primazia a uma carta que o inapreciável dr. João de Deus dirigiu à respeitabilíssima mãe de Pedro Soriano algum tempo depois de ele ter favorável decisão no agravo que subiu à Relação de Lisboa.

Não há aí ninguém que deixe de reconhecer os sublimes dons de alma do admirável poeta, a bonomia do mestre estimadíssimo, as prodigalidades do mais útil e generoso esmoler da civilização popular, as suas inexcedíveis qualidades de homem de bem e pai exemplar, o integérrimo carácter inconcusso daquele coração nobre e puro, intransigente um ápice sequer com a mais leve acção menos digna; por isso, embora companheiro de Coimbra, patrício e amigo dedicado de Pedro Soriano, seria incapaz de faltar à verdade e a sua consciência, e não diria, a não ser com a mais intima e profunda convicção, que sente tamanho infortúnio como se o Pedro fosse pessoa da sua família.

(“A Torre de Babel ou a Porra do Soriano”, Guerra Junqueiro. Tinta da China, 2011)

Imagem de destaque: Pedro Soriano, retrato em Galeria de Criminosos Célebres. História da Criminologia Contemporânea, Lisboa, Empresa do Almanaque Palhares, 1908, Volume VII.