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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

A vida revolucionária do poeta MARCOS ANA

12.08.23 | Manuel

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Duas penas de morte

Quando saiu da prisão de Burgos, no início de 1962, Fernando Macarro Castillo cumprira 23 anos atrás das grades, tendo-se desenvencilhado de duas penas de morte. O táxi que o levava a Madrid foi obrigado a parar várias vezes porque ele enjoava continuamente. Os horizontes abertos entonteciam-no, desabituado que estava dos amplos espaços da liberdade. Uma intensa campanha internacional levara Franco a fazer um decreto não dirigido nominalmente a ele, mas em que ele era o único contemplado, o único a quem se franqueavam as portas do cárcere!

Fernando Macarro, mais conhecido no universo político e literário pelo pseudónimo Marcos Ana, nasceu a 20 de Janeiro de 1920, em Ventosa del Rio Al Mar, uma aldeiazinha de cinquenta ou sessenta casas, a uma vintena de quilómetros de Salamanca. Contava seis anos quando o pai, camponês sem terra, arranjou trabalho de hortelão em Alcalá de Henares, perto de Madrid. Aí obteria também o único emprego da sua vida, numa sapataria. Militou nas Juventudes Católicas e aos 15 anos foi distribuir uns folhetos a um comício das Juventudes Socialistas (JS).

«Ao ouvir um orador, dei conta que aquilo é que era mesmo comigo! Produziu-me uma impressão muito forte. Os meus pais, a principio, não entendiam o que se passava. Aliás, eu vivia numa contradição imensa, pois sem deixar de ser católico, passara logo para as JS. Quando, anos mais tarde, mataram meu pai, durante um bombardeamento da Legião Condor, em Alcalá de Henares, a minha mãe contou-me que nas eleições de Fevereiro de 1936, as que deram a vitória à Frente Popular, sabendo a minha orientação política e, ao mesmo tempo, pressionados pelo patrão, meus pais hesitaram muito quanto ao voto. Por fim concordaram em votar, mas um à direita e o outro à esquerda!»

Pouco depois, como se sabe, estalou a guerra.

«Alistei-me logo num batalhão de milicianos chamado Liberdade. Avançámos imediatamente para a Serra. Deram-me uma espingarda, que era mais alta que eu! Mas, pouco depois, quando as milícias se constituíram em Exército Popular, mandaram-me embora com os de menor idade...»

Entretanto, a 7 de Novembro de 1936, com Santiago Carrillo e muitos outros, Fernando entra para o Partido Comunista de Espanha (PCE), pois «era a organização que revelava melhor consciência política na situação então vivida».

Regressado a Alcalá de Henares, Femando Macarro coordena as Juventudes Socialistas Unificadas, desenvolvendo intensa actividade. Mas não tarda a haver necessidade de homens para as frentes. E Marcos Ana integra-se no conjunto de catorze mil jovens voluntários. O ministro da Guerra, Indalecio Prieto, inicialmente renitente, acaba por aceitá-los, mas fá-los distribuir por diversas unidades.

«Com 18 anos, escrevia para jornais e, dava formação política, pelo que passei logo a comissário na 44ª Brigada, que operava na zona de El Pardo, defendendo Madrid. Recordo-me da primeira noite de sentinela, pois creio que então se me abriu o espírito poético».

Nasceria ali o poeta de nomeada internacional íntimo de Neruda e de Alberti? Aliás este, na carta com que o saudou como homem finalmente livre, dizia:

«O teu nome passou de boca em boca, desde a Universidade à pequena reunião de vizinhos.»

Os primeiros versos de Marcos Ana sairiam clandestinamente da prisão e foram publicados primeiro com o pseudónimo Cela 42, a do seu isolamento, aquela em que mais tempo esteve encerrado pesando-lhe uma condenação à morte, e depois coma composição dos nomes de seus pais, Marcos Ana, pelo qual hoje continua a responder. É este poeta que, aos 78 anos, está a organizar, enfim ele próprio, o seu verdadeiro primeiro livro de poemas! É que a obra poética de Marcos Ana está espalhada por livros, antologias, folhetos e discos, um pouco por toda a parte, mas quase tudo quanto publicou escapado ao seu controlo ou revisão. Mostra-me um LP com as vozes de Alberti e Maria Teresa León dizendo os seus poemas.

Quando começou a escrever? Digamos que a sua mão começou a fazer-se num encontro com os poemas que lhe mandaram, ocultos na palha de um colchão, quando ele estava numa cela de castigo que penetrou na prisão. Eram folhas arrancadas de livros. Sentiu então que tinha algo dizer. Assim, tal como entravam livros e cartas, saíam das cadeia poemas que o aparelho comunista distribuía pelo mundo.

«Em Burgos, Alberti foi dos primeiros apoios que tive enquanto escritor. Ali passei os últimos 18 dos 23 anos de cadeia.»

«Como o prenderam?»

«Ao terminar a guerra, disseram-nos que em Alicante havia barcos ingleses e franceses para nos evacuarem. Lá fui com outros camaradas, já saíra o último! Ficámos uns 35 mil, acabando presos pela Divisão Littorio. Foi em Abril de 1939, e não voltei a ser livre até 1962. Dali levaram-nos ao campo de concentração de Albatera, em Orihuela. Fuzilavam os que tentavam fugir. E foi mesmo durante uma execução que aproveitei para me escapar. Prenderam-me dois meses depois em Madrid, por denúncia. Entrei então para a cadeia de Porlier, também aqui na capital. Era uma antiga casa de padres.»

«Como é que se livrou de uma das condenações à morte?»

«Eu tinha muita actividade e procuravam afastar-me dos outros para não os influenciar. Mas nesta prisão não havia celas de castigo e meteram-me numa sala onde estavam maçons . Havia ali muita gente importante. Sendo o mais novo, era o rapaz . E quando, por causa de um jornal clandestino na cadeia me condenaram à morte, criou-se ali uma comissão para me salvar a vida.»

Explica:

«Havia um auditor geral no activo, aqui em Madrid, que era maçon , mas os franquistas não sabiam. Assim, deram-me uma carta para ele, que fiz sair clandestinamente. Então, o meu irmão foi a casa do auditor que, perante a carta, se pôs nervoso e disse-lhe: Vou fazer o que puder, mas não passe mais por aqui, hem? O certo é que fui indultado. Estava em Ocaña, e nas prisões quando um processo de grupo de preso se resolvia, liam os nomes dos que tinham sido comutados. Os outros já sabiam que seriam fuzilados. Foi a 5 de Abril de 1946, chamaram-nos, disseram os nomes dos outros, mas o meu não. Então, passei a noite a escrever cartas à família, ao Partido e escondia-as nos lugares donde seriam recolhidas. Ouvia as portas de outros camaradas que levavam a fuzilar, as botas dos guardas, as chaves nas fechaduras, as grades a abrirem. Amanheceu e ninguém me chamou.

Quando, de manhã, saímos ao pátio, chegou um telegrama com o meu indulto. Foi o que fez o auditor, à última hora propôs o meu indulto, alegando que as minhas faltas haviam sido cometidas em menor idade. No código há o Artigo 211 que diz que pelo cometido entre maior de 16 e menor de 18 a pena baixa um grau, e foi de pena de morte a cadeia perpétua. Mas houve camaradas meus de menor idade que foram fuzilados...»

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Fig: Livro com poemas de Marcos Ana, edição argentina. (Foto in “Trincheiras”)

«Um pedacinho de céu...»

Quando Marcos Ana foi posto em liberdade, do formidável coro daqueles que montaram a campanha para a sua libertação, destacam-se duas cartas. Qualquer delas é a exaltação do Homem, do Combatente e do Poeta. Uma, procedente do Chile, era subscrita por um dos nomes que mais prestigiaram o Prémio Nobel de Literatura, Pablo Neruda, e a outra por Rafael Alberti e Maria Teresa León, nomes fundamentais da Literatura Espanhola.

Neruda, comovido e comovente:

Desde aqueles dias em que perdemos – os povos e os poetas – a guerra, perdemos também todos grande parte da poesia e muitos perderam a vida e a liberdade. Assim morreram-me muitos poetas e também nós sofremos tormento e morte. Acrescentamos uma e outra cruz à necrologia deste tempo e trazemos estas cruzes no nosso próprio peito para que não possam ser esquecidas. Reprovamos a todos o esquecimento que não aceitamos, nós os que continuamos feridos.

Exaltando Marcos Ana:

Por isso, quando sais a respirar a pobre liberdade espanhola que pouco significariam estas palavras não levassem nelas a tua própria paixão, a mesma luta tua e nossa comum esperança. Tu és o rosto que esperávamos, ressurrecto, resplandecente como se em ti voltassem a viver lutando os que tombaram.

E a terminar:

Recebemos-te na ardente poesia militante que continuará lutando porque não só tem sílabas como sangue. Abraçamos-te com infinita ternura e com a viva fraternidade de quem sempre te esperou.

Maria Teresa León e Rafael Alberti:

Hoje sabemos o que é o júbilo. Estamos contentes. Saíste dos anos amargos com a tua juventude intacta. Estreias a vida. Entraste pela porta grande no amor da tua gente: a tua gente somos nós, a tua família, a que sofria esperando.

E fico a pensar na resposta de Marcos Ana, de coração apertado, a estes dois escritores seus amigos, quando lhe perguntaram como era a vida na prisão:

A minha vida
Posso contá-la em duas palavras:

Um pátio.

E um pedacinho de céu onde às vezes passam
uma nuvem perdida e algum pássaro
fugindo das suas asas.

(Texto retirado da obra de José Viale Moutinho “Trincheiras”, editora Ausência, Vila Nova de Gaia, 2003. Um livro a ler, assim como toda a obra de Viale Moutinho sobre a Guerra Civil de Espanha; o escritor português que mais se tem dedicado a deixar ficar na memória colectiva escrita a terrível guerra civil que fez mais de 1 milhão de mortos, e que a actual classe política espanhola pretende apagar e absolver.)