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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

George Ehrenfried Grosz

27.07.22 | Manuel

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George Grosz nasceu em Berlim, em 1893. É expulso da escola antes de completar o ensino obrigatório, por agredir um professor, situação que lhe cria grandes entraves a prosseguir uma carreira “séria”.

Decide tornar-se artista, aspirando ser um pintor de género, ideia que cedo abandonará para se dedicar à ilustração e à caricatura. Frequenta a Academia de Dresden e a Escola de Artes de Berlim, onde se depara com a valorização da arte enquanto transmissora dos grandes ideais clássicos. Grosz distancia-se desta visão por acreditar que, à maneira de Baudelaire, o artista tem de se vincular ao seu próprio tempo e não a um passado longínquo.

A cidade de Berlim fomenta a atracção de Grosz pela metrópole moderna e pela manifestação da vida vulgar e marginal. Interessa-se por situações bizarras, particularmente as que incluem crimes, assassínios, suicídios e violações. Grosz absorve os comportamentos excêntricos, não por representarem anomalias sociais, mas por acreditar que estes eram constituintes de todos os seres.

Começa a publicar ilustrações e caricaturas em periódicos alemães como Ulk e Lustige Blatter , que se centravam em temas eróticos, crimes e orgias. São obras que incorporam elementos futuristas, como a essência do movimento, mas que se afastam deste movimento no tratamento compositivo e formal assumido por Grosz.

Apesar de ser um profundo opositor da política alemã, voluntaria-se para a Primeira Guerra Mundial para fugir às consequências da obrigatoriedade. Sofre um severo ataque de sinusite que justifica uma dispensa do campo de batalha, sendo recrutado novamente passado pouco tempo. A situação torna-se insustentável e, em 1917, Grosz tenta suicidar-se. Considerado um crime grave de guerra, o artista é condenado à morte, vindo a ser salvo pela influência de um patrono, o conde Kessler.

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Imagem: O Agitador – George Grosz

Depois de sair da guerra, a sua arte ganha uma nova dimensão. Enche as suas obras do seu próprio ódio, protesta contra a propaganda de guerra alemã e transforma-se, segundo as suas próprias palavras, num “propangandista da revolta social”. Grosz incorpora a luta contra a guerra, tornando-se um artista explicitamente político, atacando e denunciando as classes dirigentes responsáveis e exploradoras da guerra, num discurso pautado por sarcasmo e ironia.É um dos membros fundadores do grupo Dadá de Berlim, conjuntamente com John Heartfield, Otto Dix, Max Ernst e Kurt Schwitters. É dentro das explorações dadá que inventa com Heartfield a fotomontagem.

Quer nos seus desenhos lineares a tinta-da-china, quer nos seus óleos, Grosz constrói um discurso estético de ataque à classe burguesa e à classe dirigente, tendo sido várias vezes acusado e processado por ofensa à moral pública e por blasfémia. Estes escândalos ajudaram a desenvolver e a consolidar a sua carreira, não apenas a nível nacional, mas também além-fronteiras.

As composições desta época desenvolvem-se através do uso de técnicas futuristas e cubistas, sintetizando na mesma imagem aspectos contraditórios da sociedade. Grosz irá beber igualmente ao Expressionismo alemão no uso de cores fortes e de uma perspectiva distorcida, assim como sofrerá influências do construtivismo na estrutura espacial dos seus quadros.

A crítica à corrupção social vivida na Alemanha tecida por Grosz fundamenta-se numa atitude essencialmente negativa e caótica do mundo contemporâneo. A dissolução das leis da perspectiva efectivada pelo artista expressa uma estratégia de tradução desse mundo que se desfazia caoticamente em bocados.

No ?nal da década de 20 inicia um forte ataque a Hitler e ao partido nazi. Será igualmente nesta época que colabora na revista Der Querchnitt , em que também participa Mário Eloy, tendo sido ambos incorporados no movimento da Nova Objectividade.

Grosz torna-se cada vez mais indesejado e odiado na Alemanha, abandonando a sua terra natal quando, em 1932, é convidado para leccionar na Arts Student League, em Nova Iorque.

Nos Estados Unidos, o seu trabalho muda radicalmente. Dada a mudança de contexto, o ataque às classes sociais deixa de ser pertinente, e a sua estética, crua e implacável, dissolve-se, dando lugar a trabalhos de pouco interesse. As suas últimas obras serão colagens, semelhantes às do período dadaísta, acrescidas de uma influência pop. De relevância na sua estada nos Estados Unidos é a actividade pedagógica que exercita.

Volta para Alemanha em 1958, dizendo que o seu sonho americano se tinha transformado numa bola de sabão. Morre um mês após a sua chegada, ao cair num lance de escadas.

(Texto de Filipa Oliveira, no site da Fundação Calouste Gulbenkian)

Imagem de destaque: Auto-retrato, 1937 – George Grosz