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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

Há 70 anos, Rosa Parks se tornava um símbolo da luta pelos direitos civis nos EUA

02.12.25 | Manuel

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Dias antes de morrer, no ano de 2005, Rosa Parks concedeu uma entrevista ao Aventuras na História na qual comentou sobre o episódio no ônibus; confira!

Por Giovanna Gomes

Hoje completam-se 70 anos do episódio que transformou uma costureira de Montgomery em uma das principais personalidades da história da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Rosa Parks, nascida em 1913 no Alabama, ficou conhecida mundialmente quando, em 1º de dezembro de 1955, se recusou a ceder seu assento a um passageiro branco em um ônibus. O ato corajoso desencadeou o boicote aos ônibus de Montgomery, um movimento de 381 dias que, com apoio de Martin Luther King Jr. e outras figuras, mudou para sempre a história da luta antirracista.

Dias antes de morrer, em 24 de outubro de 2005, Rosa Parks concedeu ao Aventuras na História uma entrevista que provavelmente foi sua última conversa com jornalistas brasileiros — e talvez sua última entrevista no mundo. Ainda lúcida aos 92 anos, a americana falou na ocasião sobre o passado, o presente e seu desejo de um futuro mais justo. Em vários momentos, deixou transparecer tanto o orgulho pela caminhada quanto a tristeza pelo que ainda precisava ser feito.

Ao relembrar o dia do ônibus, Parks afirmou que, desde então, “as relações raciais melhoraram muito”. Mas descreveu o peso da segregação vivida na juventude: “Quando aconteceu o incidente do ônibus, a escravidão já tinha terminado havia quase um século [a abolição nos Estados Unidos aconteceu no dia 6 de dezembro de 1865], mas os negros ainda não podiam frequentar os mesmos restaurantes que os brancos, as mesmas escolas, os mesmos mercados… Nem mesmo votar ou sentar nos mesmos assentos do ônibus.” Era, em suas palavras, “uma segregação racial legalizada”, diante da qual se caminhava “de cabeça baixa”. Disse ainda que não houve um único dia em que não tenha se sentido humilhada.

Sobre seu papel no Movimento pelos Direitos Civis, foi direta: “Eu não imaginava que ficaria envolvida até o pescoço…”, mas lembrou que o anseio por lutar por mudanças já vinha de bem antes. Ela e o marido entraram para a National Association for the Advancement of Colored People [NAACP, entidade de defesa dos direitos dos negros] em 1943, época em que o tema dos ônibus ocupava grande parte das discussões: “Nós éramos maioria, o sistema de ônibus dependia da gente. E obedecíamos às regras deles sem questionar.”

Episódio anterior

Parks contou também que, anos antes do episódio decisivo, já havia enfrentado o mesmo motorista: Rosa não quis descer certa vez e foi expulsa depois de discutir com o motorista. Nada além aconteceu naquela ocasião, mas em 1955 o cenário era outro: “Estávamos mais unidos e conseguimos chamar a atenção de todos para a minha prisão, a nossa situação e, claro, para o boicote.” O gesto não foi planejado, “mas já era esperado por causa de toda a tensão que havia entre negros e brancos”.

Sobre os 381 dias do boicote, ela recordou: “A cada dia, eu sentia nosso povo mais unido.” Disse que Martin Luther King Jr. “comoveu o país com a nossa causa” e que, mesmo diante das dificuldades, não tinha dúvida de que venceriam. Perdeu o emprego pouco depois, mas assumiu a luta em tempo integral. Porém lembrou que o fim do boicote não encerrou os problemas: “Enquanto existir gente que não acredita em liberdade e justiça para todos, meu trabalho não terá terminado.”

Na entrevista, Parks também falou do Instituto Rosa & Raymond Parks para o Autodesenvolvimento, fundado em 1987: “Temos uma pequena equipe e muitos voluntários maravilhosos.” Orgulhou-se dos mais de 6 mil jovens e crianças atendidos e do programa Pathways to Freedom, que reúne participantes de vários países. Disse que o objetivo era simples: “fazer com que cada um descubra o que há de melhor em si mesmo.”

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Rosa Parks em 1956 e em 1999 – Crédito: Getty Images

Mesmo aposentada havia três anos, continuava presente: “Tenho um amor verdadeiro pela minha causa, o que não me deixa cansar.” E explicou por que ainda participava de encontros com jovens: “Acho que é importante para eles conhecerem de perto minha história.”

Em seguida, o AH mencionou estudo da Universidade de Harvard, conduzido pelo Civil Rights Project. A pesquisa na época apontou que as escolas americanas vinham enfrentando um processo de nova segregação racial desde o Caso Dowell, de 1991, quando a Suprema Corte autorizou o retorno do zoneamento escolar por bairros. Em questão de uma década, a presença de alunos negros em escolas de maioria branca diminuiu cerca de 10%.

Sobre essa volta da segregação nas escolas americanasParks foi firme: “É um desgosto terrível. É um pesadelo ver crianças crescendo separadas por raças.” E quando o tema foi a ascensão de grupos racistas, respondeu: “Eles não sabem que quem sente ódio está destruindo tanto o outro quanto a si mesmo. Mas eu estou consciente de que sempre vai haver sofrimento no mundo e pessoas que escolhem odiar. Por isso é importante ouvir a voz da paz. Eu acho que nós perdemos gerações quando não enchemos os corações dos jovens de paz e de objetivos positivos.”

Cinquentenário do boicote

Com 92 anos, Rosa Parks revelou que já não andava de ônibus — havia parado em 1999 —, mas falava animada sobre os planos para o cinquentenário do boicote: “Teremos muitas festas… O Instituto Rosa & Raymond Parks vai comemorar a data de minha prisão, o início e o fim do boicote, meu aniversário de 93 anos… O calendário de festas estará no nosso site em breve.”

Questionada sobre a imagem que tinha sobre Martin Luther King Jr., a ativista resumiu: “A de um homem forte, carismático e determinado a dar a vida pelos seus ideais. Eu não estaria dando esta entrevista agora se meu caminho não tivesse cruzado com o de Martin Luther King no episódio do ônibus.”

E, ao ser convidada a listar figuras negras contemporâneas que admirava, preferiu não correr o risco de esquecer alguém: “São muitos e, infelizmente, nem todos são conhecidos da grande mídia. É melhor nem começar a listar. Estou com 92 anos e, você sabe, a chance de a memória falhar e eu esquecer alguém é grande.”

Imagem de destaque: Rosa Parks reproduzindo a cena que mudou os rumos da história - Crédito: Getty Images

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.

Fonte