Inflação, instrumento para aumentar os lucros do capital

Inflação subiu para 5,3% no mês de Março, o valor mais alto em 28 anos. Entretanto a economia trava pela segunda semana consecutiva devido à guerra na Ucrânia (doravante, a guerra vai servir de desculpa para todas as misérias nacionais).
No resto da Europa, a situação não é melhor: A inflação média na zona euros disparou para os 7,5%, no mês de Março.
A inflação na Alemanha sobe para 7,3% em Março, um máximo em 40 anos, preparando-se para racionar o gás, na eventualidade de a Rússia vir a fechar a torneira caso não o pague em rublos a partir de amanhã, dia 1 de Abril. E não deverá ser mentira embora a data. E não nos esqueçamos que se trata do país que é considerado a “locomotiva da Europa”.
Em Espanha e em Março, a taxa de inflação fixou-se em 9,8%, o valor mais elevado desde 1985. Março de 2022 está a ser um mês lixado.
Não será despiciendo lembrar – parece que muitos portugueses até nem sabem! – que Portugal é um mero prolongamento da economia vizinha, basta dar uma passeata pelos centros comerciais e pelos hipermercados para constatar que a maior parte das lojas ou dos produtos à venda são de origem espanhola. O nosso maior parceiro comercial… é a Espanha. E toda a economia dita “nacional” está dominada pelo grande capital espanhol (a maioria da banca pertence aos nuestros hermanos), por sua vez, ligado ao grande capital financeiro internacional, exemplo: BBVA, o maior banco da Península pertence ao Black Rock, maior fundo de investimento do mundo, e é americano.
Concluindo: se a Alemanha e a Espanha apanharem resfriado, nós temos pneumonia, e grave.
Como a banca e toda a economia da Europa Ocidental se encontra dependente e cada vez mais subjugada à economia do país ainda considerado “o mais rico do mundo” e, à semelhança do que aconteceu em 2008 com a crise dos “subprimes” que foi exportada para a Europa, a crise irá agravar-se ainda mais passados estes 14 anos: Nos EUA, o índice de preços ao consumidor subiu 7,9% até Fevereiro, a maior alta em 40 anos; mas imprensa não mainstream fala no dobro (16%).
Por isso, Lagarde, “xerife” do BCE, avisa que guerra cria "incerteza considerável" na economia europeia. Ou seja, uma maneira simpática de dizer que a crise, própria e inerente à economia capitalista, não tem outro caminho para a “solução”, devido à “guerra”. A solução é a INFLAÇÃO, para além da própria GUERRA. Uma excelente forma de as empresas aumentarem os lucros, na justa medida em que vendem mais caro e mantêm inalterados os custos do trabalho. Melhor ainda o preço da mercadoria “força de trabalho” desvaloriza. É só ganhos. Contudo, há um factor adicional para a Europa e desagradável, terá de comprar a energia e os combustíveis mais caros senão quiser usar o rublo.
O resultado será e já se está a sentir: INFLAÇÃO, ESTAGNAÇÃO ECONÓMICA E DESEMPREGO. Este ainda em lume brando, mas depressa iremos assistir ao encerramento em catadupa de empresas, seja na Alemanha, Espanha ou Portugal ou em toda a União Europeia. Será uma questão de (pouco) tempo.
Costa disse no acto da tomada de posse do governo que: “Viramos a página da austeridade. Estamos a virar a página da pandemia. Vamos virar a página da guerra”.
O que vale é que a mentira não paga imposto, mas tem a perna curta:
- sempre estivemos em austeridade, em tempo de governo PS foi apenas mitigada;
- a pandemia foi uma habilidade para recapitalização com fundos públicos das empresas falidas e meter medo às pessoas para a tormenta que se avizinha;
- a guerra em capitalismo está sempre presente e a da Ucrânia poderá ser uma simples antecâmara de uma guerra mais ampla e devastadora.
Em Portugal a guerra será a guerra dos trabalhadores e dos cidadãos em geral contra este governo de maioria absoluta e que irá comportar-se como “quero, posso e mando” e a INFLAÇÃO, pela qual se desresponsabilizará, é e será um instrumento ainda mais eficaz do que os cortes dos salários e das pensões feitos pelo governo do PSD/CDS/Passos Coelho.
Uma inflação 9% este ano significará, depois de descontados os 0,9% de aumentos, um corte de um subsídio, que jamais será recuperado.
O governo prepara-se para aumentar os salários em 2023 num valor inferior à taxa de inflação que vier a registar-se no final do ano, embora prometa um reforço ainda este ano dos salários dos trabalhadores da Função Pública. As verbas previstas no Plano de Estabilidade para aumentos salariais ficam pelos 200 milhões euros. No entanto, o governo prepara aumentar o orçamento da Defesa em mais mil milhões de euros. O armamento e a guerra estão primeiro.
Não nos cansamos de repetir que a inflação é uma habilidade do capital em recuperar aquilo que por vezes é obrigado a ceder aos trabalhadores e, nomeadamente em situação de crise como esta de baixa tendencial da taxa do lucro, de aumentar os lucros, isto é, manter a acumulação da riqueza; sem este processo o capitalismo simplesmente implode. Daí não basta à classe operária e ao povo ficarem por simples reivindicações economicistas e têm obrigatoriamente de olhar para mais longe: mudança desta economia de mercado e de exploração para uma economia que tenha como objectivo a satisfação das necessidades humanas - única forma de emancipação de toda a Humanidade.
O caso do aumento dos combustíveis é bem esclarecedor: o crude que deu origem aos combustíveis que agora estão a ser vendidos a preço exorbitante foi comprado pelas gasolineiras há dois meses e por cerca de 70 dólares o barril. É a especulação pura e dura, apoiada pelo governo que se limita, com fundos públicos, a financiar a inflação com o denominado "autovoucher". A especulação dos preços do gás ou dos alimentos obedece ao mesmo processo.
Para reverter a diminuição do poder de compra de quem trabalha e o aumento da miséria, a luta terá de extravasar para a rua. Não faltará muito tempo para que a revolta expluda e nem o PS, considerado um bombeiro social da luta de classes devido à sua base social predominantemente pequeno-burguesa, e nem o PCP, cuja condição para sobrevivência após o 25 de Novembro foi a colaboração e integração no sistema, conseguirão controlar a tormenta revolucionária.