Joaquim Pessoa

Prólogo
O Rato no fosso é como o Gato no poço
O Rato sabe nadar
O Gato não
*
Quem
Aqui ao meu lado do hospital psiquiátrico Júlio de Matos
saem os doentes para a rua e há um
que se despe e passeia orgulhoso do seu corpo pela Avenida do Brasil até ao Campo Grande
enquanto outro com uma magnífica cabeça que me faz lembrar a do velho Hemingway
se senta à mesa do café e repete incessantemente uma teoria singular sobre o amor
Quase em frente outros dois limpam a seco os pára-brisas dos carros que param no semáforo
a troco de um cigarro de umas moedas ou de um simples movimento de cabeça
do condutor assustado que fecha o vidro da janela
Há dias um deles pediu-me um cigarro. Estou aqui no Júlio acrescentou ele
Vestia unicamente um casaco cinzento e uma toalha enrolada na cintura
Quando caminhava descobria o sexo e
duas adolescentes olhavam fascinadas
*
Leanor
Como eu costumava dizer a verdade não é tudo
e tu dançavas muito bem
comíamos frequentemente nas Galerias Ritz perto do hotel Ritz
e tu fumavas cigarros Ritz
tinhas por mim eu sei uma paixão King Size
beijavas-me a boca no Parque Eduardo VII
enquanto eu beijava a relva e o teu pescoço branco
e mordia os teus seios que olhavam para mim como duas rolas
ah quantas vezes me lembrei da aguarela do Cesário!
hoje já nada sei de ti ficou-me a ponte sobre o Tejo
que é agora a ponte 25 de Abril
e um emprego burocrático e liofilizado onde às vezes escrevo poesia
para não vomitar o senhor director e corto as unhas
olhando depois para as minhas mãos como se eu fosse Deus
e tivesse acabdo de criar o Mundo
com a Torre Eiffel e o Empire State Building
com o Bairro da Musgueira e a Quinta da Calçada
como todos os caixeiros viajantes da política interna
fazendo avisos aos trabalhadores da cintura industrial
com mortos de santiago e as tumbas de Montevideo
com as prisões do Rio os torturados da Bolívia e os
torturadores de Washington
com as Brigadas Vermelhas e a fantochada incrível de Aldo Moro
com Bokassa e Amim
com o Pão de Açúcar e o Sheraton Hotel
com tudo enfim o que um Deus pode criar de melhor
exceptuando a lei sobre o aborto
Leanor: eu também te amava é verdade mas
como eu costumava dizer a verdade não
é tudo
*
Desligando a TV
A esta hora as anémonas nadam evitando o lodo
e Jesus Cristo está ainda sentado à direita de Deus Pai É a ele
que me dirijo para que
evita a poluição das águas;
acenda a luz das auto-estradas;
faça admitir na Guarda Nacional indivíduos capazes;
fiscalize devidamente os empréstimos externos;
esteja ao lado dos operários;
mantenha a cidade limpa;
acabe de vez com a inflação e o contrabando;
não permita lock-outs;
não se alheie das graves dificuldades do Serviço Nacional de saúde;
atenda as preces das mãos solteiras;
não deixe continuar nesta situação o nosso único Zoo;
dê coragem aos que julgam que já não há nada a fazer;
tire da cabeça dos nossos governantes a ideia maluca de
mandarem construir uma central nuclear;
impeça o desvio dos nossos aviões;
dê um empurrãozinho na Habitação Social;
veja bem o que se está a passar com os impostos;
dê também uma olhadela pela Secretaria de Estado da Cultura;
ajude o mais possível as nossas colheitas;
E temos barba e sabemos onde morreu Guevara
em quantos pedaços as balas lhe estilhaçaram o coração de pólvora e cristal
e amamo-nos uns aos outros como pequenos faunos
engatilhando coisas sem qualquer sentido
doidos por ver um filme de cow-boys em vez de O último ano em Marienbad
ou Providence
lucidamente certos de que estamos errados
quando assumimos o difícil papel de intelectuais numa sociedade que ainda não sabe o que quer
e somos o Touro e a Virgem e cruzamo-nos
devidamente perfumados à procura da luz nos pátios
quando ela se encontra na rua
esforçando-nos por entrar nos restaurantes com um ar digno
sem ao menos piscar um olho à rapariga da caixa
para podermos dialogar à mesa com a nossa imagem
cheios de convicções até ao desespero e
tão desesperados como se não pudéssemos pagar
a conta
(“Obra Poética 03”, Joaquim Pessoa. Litexa Editora, 2002)
*
Poeta de Combate
Poeta de combate me chamaram.
De combate serei. Não mercenário!
Poeta de combate é um operário
das palavras que nunca se entregaram.
Poeta de combate! E porque não?
Sou poeta. Serei também soldado.
O meu canto será um canto armado
e o meu nome de guerra uma canção.
Poeta de combate me quiseram
os que cedo da luta desertaram
ou aqueles que nunca combateram.
Poeta de combate eu hei de ser
até quando o meu povo precisar
ou nada mais houver a combater.
(in "Amor Combate", Joaquim Pessoa. Moraes Editores)