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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

Joaquim Pessoa

21.02.24 | Manuel

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 Prólogo

O Rato no fosso é como o Gato no poço

O Rato sabe nadar

O Gato não

 *

Quem

Aqui ao meu lado do hospital psiquiátrico Júlio de Matos

saem os doentes para a rua e há um

que se despe e passeia orgulhoso do seu corpo pela Avenida do Brasil até ao Campo Grande

enquanto outro com uma magnífica cabeça que me faz lembrar a do velho Hemingway

se senta à mesa do café e repete incessantemente uma teoria singular sobre o amor

 

Quase em frente outros dois limpam a seco os pára-brisas dos carros que param no semáforo

a troco de um cigarro de umas moedas ou de um simples movimento de cabeça

do condutor assustado que fecha o vidro da janela

 

Há dias um deles pediu-me um cigarro. Estou aqui no Júlio acrescentou ele

Vestia unicamente um casaco cinzento e uma toalha enrolada na cintura

Quando caminhava descobria o sexo e

duas adolescentes olhavam fascinadas

 *

Leanor

Como eu costumava dizer a verdade   não é tudo

e tu dançavas muito bem

comíamos frequentemente nas Galerias Ritz perto do hotel Ritz

e tu fumavas cigarros Ritz

tinhas por mim eu sei uma paixão King Size

beijavas-me a boca no Parque Eduardo VII

enquanto eu beijava a relva e o teu pescoço branco

e mordia os teus seios que olhavam para mim como duas rolas

ah quantas vezes me lembrei da aguarela do Cesário!

hoje já nada sei de ti ficou-me a ponte sobre o Tejo

que é agora a ponte 25 de Abril

e um emprego burocrático e liofilizado onde às vezes escrevo poesia

para não vomitar o senhor director e corto as unhas

olhando depois para as minhas mãos como se eu fosse Deus

e tivesse acabdo de criar o Mundo

com a Torre Eiffel e o Empire State Building

com o Bairro da Musgueira e a Quinta da Calçada

como todos os caixeiros viajantes da política interna

fazendo avisos aos trabalhadores da cintura industrial

com mortos de santiago e as tumbas de Montevideo

com as prisões do Rio os torturados da Bolívia e os

torturadores de Washington

com as Brigadas Vermelhas e a fantochada incrível de Aldo Moro

com Bokassa e Amim

com o Pão de Açúcar e o Sheraton Hotel

com tudo enfim o que um Deus pode criar de melhor

exceptuando a lei sobre o aborto

 

Leanor: eu também te amava é verdade mas

como eu costumava dizer a verdade não

é tudo

 *

Desligando a TV

A esta hora as anémonas nadam evitando o lodo

e Jesus Cristo está ainda sentado à direita de Deus Pai  É a ele

que me dirijo para que

evita a poluição das águas;

acenda a luz das auto-estradas;

faça admitir na Guarda Nacional indivíduos capazes;

fiscalize devidamente os empréstimos externos;

esteja ao lado dos operários;

mantenha a cidade limpa;

acabe de vez com a inflação e o contrabando;

não permita lock-outs;

não se alheie das graves dificuldades do Serviço Nacional de saúde;

atenda as preces das mãos solteiras;

não deixe continuar nesta situação o nosso único Zoo;

dê coragem aos que julgam que já não há nada a fazer;

tire da cabeça dos nossos governantes a ideia maluca de

mandarem construir uma central nuclear;

impeça o desvio dos nossos aviões;

dê um empurrãozinho na Habitação Social;

veja bem o que se está a passar com os impostos;

dê também uma olhadela pela Secretaria de Estado da Cultura;

ajude o mais possível as nossas colheitas;

 

E temos barba e sabemos onde morreu Guevara

em quantos pedaços as balas lhe estilhaçaram o coração de pólvora e cristal

e amamo-nos uns aos outros como pequenos faunos

engatilhando coisas sem qualquer sentido

doidos por ver um filme de cow-boys em vez de O último ano em Marienbad

ou Providence

lucidamente certos de que estamos errados

quando assumimos o difícil papel de intelectuais numa sociedade que ainda não sabe o que quer

e somos o Touro e a Virgem e cruzamo-nos

devidamente perfumados à procura da luz nos pátios

quando ela se encontra na rua

esforçando-nos por entrar nos restaurantes com um ar digno

sem ao menos piscar um olho à rapariga da caixa

para podermos dialogar à mesa com a nossa imagem

cheios de convicções até ao desespero e

tão desesperados como se não pudéssemos pagar

a conta

(“Obra Poética 03”, Joaquim Pessoa. Litexa Editora, 2002)

*

Poeta de Combate

Poeta de combate me chamaram.
De combate serei. Não mercenário!
Poeta de combate é um operário
das palavras que nunca se entregaram.
Poeta de combate! E porque não?
Sou poeta. Serei também soldado.
O meu canto será um canto armado
e o meu nome de guerra uma canção.
Poeta de combate me quiseram
os que cedo da luta desertaram
ou aqueles que nunca combateram.
Poeta de combate eu hei de ser
até quando o meu povo precisar
ou nada mais houver a combater.

(in "Amor Combate", Joaquim Pessoa. Moraes Editores)