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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

José do Telhado

22.06.24 | Manuel

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por Camilo Castelo Branco

 A civilização é a rasa da igualdade: desadadora as distinções; é forçoso que os bandoleiros tenham todos os mesmos tamanhos, e roubem civilizadamente, urbanamente. Ladrão de encruzilhada, que traz o peito à bala e o bacamarte apontado ao inimigo, esse há-de ser o expiatório dos seus confrades, mais alumiados e aquecidos do sol benéfico da civilização. Roubar industriosamente é engenho; saquear a ferro e fogo é roubo. Os daquela escola tropeçam nas honras, nos títulos, nos joelhos dos servis, que lhes rojam em venal humilhação; os outros, quando escorregam acham-se encravados nos artigos 343, 349, 87, 433, 351, e mais cento e setenta artigos do Código Penal.

Diz algum tanto como exemplo desta lastimável anomalia a história de José Teixeira da Silva do Telhado, o mais afamado salteador deste século.

Vulto de romance não o tem, porque neste país nem se completam ladrões para o romance. Disse-me uma dama francesa de eminente espírito, que em Portugal era a natureza, o céu e o ar que faziam os romances. Nem isso minha senhora. Aqui anda sempre o gume do prosaísmo a podar os da natureza, mal eles infloram. Frutos de servir para a novela, levantada da comezinha chaneza dum conto à lareira, nem mesmo os deixam amadurar na fama e nas façanhas de um salteador.

Senão, vejam:

José do Telhado nasceu em 1816, na aldeia de Castelões, comarca de Penafiel. Seu pai era o famigerado Joaquim do Telhado, capitão de ladrões, valente como as armas, e raio devastador em franceses que ele matava, porque eram franceses, e porque eram ladrões, posto que, na qualidade de da nação espoliada, o senhor Joaquim chamasse somente a si o que era fazenda nacional. Um tio-avô de José Teixeira, chamado ele o Sodiano, já salteador de porte, e infestara o Marão durante muitos anos. Se arripiássemos carreira na linhagem do senhor José do Telhado, iríamos encontrar-lhe avoengo em Roma, com uma sabina roubada no colo.

A infância de José Teixeira correu desassinalada dalgum facto que presagiasse as porvindouras maldades. O pai escondia dos filhos o roubo homicida. Voltando das excursões demoradas explicava licitamente a ausência, e regalava a família de farta mesa e esquisitas prendas do estrangeiro, cujos direitos ele não pagava decerto, nem as tomadias lhe eram enccarregadas pelo fisco.

Tinha José Teixeira uma tia, irmã de sua mãe, casada em Lousada com um francês, hábil no lucrativo mester de castrador.

Este francês tinha uma filha, de toda a bizarria e gentileza, muito estimada, e educada com certos ares de senhora. O primo já de criança a preferia a todas, e dos catorze anos em diante sentiu que o magoava a ausência.  Saudoso dela, pediu ao tio que lhe ensinasse o ofício, e o tivesse consigo algum tempo de aprendizagem. O francês anuiu à proposta, e a moça, que adivinhara o segredo, não cabia na pele de contente. Esteve José Teixeira cinco anos na companhia de sua prima, e desses anos falava ele com lágrimas, quando me contava pueris incidentes, entalhados em sua memória com o buril da paixão. Era a caça o seu emprego nas horas desocupadas; mas, as mais das vezes, o caçador assomava num outeiro, donde avistava a varanda, em que sua prima costurava, e aí estava contemplativo nela até que as sombras da noite, baixando da serra, lhe escondiam o lenço branco da prima, que o chamava a repetidos acenos.

Que era isto senão doce poesia, como ela abrolha nas mais bem formadas almas?

Onde estava o instinto do salteador naquele tempo?

Quando ele, ao descer a última quebrada da serra, colhia flores silvestres para toucar os cabelos da prima, que bom coração de Gessner, que eflúvios do meigo Florian lhe recendiam no ambiente da vida!

Forçado já pelo amor e pela honra, José Teixeira, aos dezenove anos, pediu sua prima ao pai. Negou-lha o francês, dizendo que estivera muitos anos a ganhar dote a sua filha para casá-la com lavrador abastado. O moço, amante e honrado, revelou ao tio a culpa, cujo remédio estava no casamento. O francês recebeu a confissão como insulto, e repeliu de si a violentos empurrões o sobrinho. José Teixeira escassamente pôde dizer a sua prima que lhe fosse leal, e o esperasse até ao dia em que ele pudesse desprezar o património.

Foi o moço para Lisboa, e jurou bandeiras no segundo regimento de lanceiros, denominado o da Rainha.

A esbelta figura de José Teixeira era o encanto dos oficiais. Nenhum camarada caía tão airoso na sela, nem meneava mais garboso a lança. O cavalo entendia-lhe o mais ligeiro tremor de pernas, e enfeitava-se orgulhoso do possante e galhardo moço, que lhe embridava os ímpetos, para realçar-lhe as soberbas graças.

Na conhecida revolta dos marechais, em 1837, saiu José Teixeira na comitiva do duque de Saldanha, e mostrou quem era nos combates do Chão da Feira e Ruivães.

«Lá ouvi» — me dizia ele — «a cantiga das primeiras balas, e algumas me queimaram o cabelo, e vinham dizer-me ao ouvido que estivesse sossegado. O barão de Setúbal disse-me uma vez que choviam balas; e eu mostrei-lhe a lança, e disse: cá está o guarda-chuva, meu general: deixe chover!»

Não esqueceu o valente Schwalback o afoito gracejo, quando a derrota lhe desordenava as filas. Como, em remate da luta, tivesse de emigrar para Espanha, o barão de Setúbal levou consigo, como sua ordenança, José do Telhado.

Fez-se a convenção de Chaves, a tempo que o lanceiro recebia carta de sua prima, chamando-o a toda a pressa para se casarem com o consentimento do pai. Requereu o soldado a baixa, e obteve-a do barão de Vilar de Turpim, comandante da terceira divisão militar. Recebeu-o o francês em braços paternais, e dotou a filha com abundantes bens para mediania aldeã.

Ditosos derivaram os primeiros anos deste suspirado enlace. José do Telhado era querido dos seus vizinhos, porque aos ricos nada pedia, e aos pobres dava os sobejos da sua renda e do seu trabalho de castrador. O seu primeiro filho era o complemento daquela conjugal felicidade; e os outros que depois vieram a mais a aumentavam, porque sobrava o pão e o agasalho para todos.

Quem não invejaria José do Telhado há dezoito anos? Quantos, benquistos hoje do mundo e afortunados, olhariam então cobiçosos para o tecto do ditoso casal de Caíde?

José do Telhado, em 1845, levado de sua generosa intrepidez defendeu, na feira de Penafiel, um vizinho perseguido por muitos. Foi luta grandemente desigual, donde ele saiu moribundo, arrancado de entre os muitos que caíram em roda dele. Venceu a morte, ladeado dos carinhos da esposa, que, com suas próprias mãos, lhe curava os ferimentos, e robustecia o espírito qubrantado pelo desaire.

Seguiu-se a revolução popular de 1846.

A populaça carecia de um chefe, e rejeitava os ilustres caudilhos, que saíram de suas casas nobres a especular com o braço do povo. Conclamaram à uma José Teixeira, e quase o forçaram a comandá-los.

O chefe, conhecendo-se obscuro de mais para aceitar a responsabilidade e prestígio de cabecilha guerrilheiro, convenceu os seus amigos da precisão de se ajuntarem, sob outro chefe, às legiões populares que confluíam para a cidade heróica.

Entrou José do Telhado ao serviço da Junta na arma de cavalaria. Comprou cavalo, e fardou-se à sua custa a todo o primor. Repartia do seu dinheiro com os camaradas carecidos, e recebia as migalhas do cofre da Junta para valer aos que de sua casa nada tinham.

José Teixeira empenhou-se grandemente para satisfazer o que era capricho, e em parte largueza de alma.

Acompanhou a expedição a Valpaços, e foi dado como ordenança ao senhor visconde de Sá da Bandeira. As proezas cometidas nessa temerosa sortida batalha, estão escritas na condecoração da Torre-e-Espada, que o general por sua própria mão lhe apresilhou na farda. Fora o caso que do comor duma ribanceira alguns soldados do regimento traidor apontavam as armas ao general, conturbado pela fumaça das descargas. José Teixeira arranca do cavalo a toda a brida, toma as rédeas do cavalo do general, e obriga-o a saltar um valado. Mal deram o salto, passaram as balas poucas polegadas acima da cabeça de ambos. A este tempo três soldados de cavalaria avançavam desapoderados sobre o visconde de Sá. José Teixeira embarga-lhes a arremetida, e desarma o primeiro de um golpe, fere mortalmente o segundo, e persegue o terceiro, que fugia, até lhe arrancar a vida pelas costas. Quando voltou da facção já o general tinha suspensa a medalha, que o valente recebeu com mais delicadeza que entusiasmo de honras.

Feito o convénio de Gramido, José Teixeira arrancou as divisas de sargento e foi para casa, onde o esperava a saudosa e atribulada mulher com os seus cinco filhos.

Como se disse, a casa estava onerada de dívidas, os credores perseguiam-no, e as autoridades, avessas à sua política, esquadrinhavam disfarces para o afligirem.

Joaquim do Telhado, irmão de José, mantinha nessa época as tradições de família, saindo à estrada, com um séquito de populares foragidos à perseguição política.

Mal pude estudar o espírito de José Teixeira na penosa passagem de vida honrada para a malta de seu irmão. Averiguei artificiosamente aquela fase de sua alma; mas ele teimava nesta resposta:

— Eu via-me quase pobre, e perseguido pelos credores e pelas autoridades. Pedi às pessoas importantes, que me sacrificaram, o patrocínio necessário para arranjar uma qualquer ocupação fora da minha terra, mas ninguém me atendeu. Contentar-me-ia com um lugar de guarda do contrato; e, se mo dessem, teria feito muitos serviços, e seria ainda hoje um homem útil e honrado, e teria educado os meus pobres meninos.

José Teixeira nunca proferiu as palavras os meus pobres meninos, que se lhe não vidrassem os olhos.

A hoste de Joaquim do Telhado, quando viu a adesão do valente José, nomeou-o chefe, e o irmão submeteu-se.

Estreou-se José Teixeira na noite de 12 de Dezembro de 1849, salteando de surpresa uma casa na freguesia de Macieira, que tinha nomeada de rica em dinheiro velho. O proprietário, Maciel da Costa, foi ferido, e arrastado para confessar onde tinha a saca das peças, ao mesmo tempo que o criado, seu único doméstico, gemia amarrado de mãos para as costas, pedindo a Deus que terminasse depressa o inventário dos haveres de seu amo.

Era valioso o tesouro do lavrador, e a repartição foi equitativa.

Poucos dias depois, tirada a devassa, José Teixeira foi pronunciado com seu irmão, se bem que Joaquim já o estava nos célebres roubos de Canelas do Douro, Margaride e Baião.

A mulher de José Teixeira, quando soube que seu marido estava culpado num crime, que a infeliz nem sequer sonhara, tentou suicidar-se, e matar com ela os filhos. Contiveram-na eles, de todo desamparados pelo pelo pai, que resolveu ir para o Brasil depois da pronúncia.

De feito, embarcou o fugitivo com passaporte na barca Oliveira em fins de 1849. Apresentou-se no Rio de Janeiro ao cônsul geral, dando-se a profissão de de carpinteiro. Passou à província do Rio Grande do Sul. Tirou em Porto Alegre passaporte para Santa Catarina. Visou-o em S. José, com destino a Sorocaba, em Março de 1851, e já em Novembro desse mesmo ano assaltava em Portugal a casa do doutor António Fabrício Lopes Monteiro, de Santa Marinha do Zêzere.

O Comércio do Porto, bosquejando uma biografia de José do Telhado, até à data da sua prisão em 1859, escreve que ele «voltou do Brasil, segundo se diz, por ter feito um grande roubo naquele império».

Perguntei ao preso que razão teve para sair do Brasil.

— Saudades de minha mulher e dos meus meninos — respondeu.

— Mas é fama que o senhor fizera lá um grande roubo.

— É mentira. Eu andei por lá dezenove meses tão aflito do coração, que não parava em parte nenhuma. Cuidei de morrer de saudades, e por isso vim, sem já me dar de ser preso e enforcado. O que eu queria era estar perto dos meus meninos, e morrer onde minha mulher me aparecesse à hora da morte.

Agora vão em fileira os crimes de José do Telhado, indicados no libelo geral de acusação, depois de sua volta a Portugal.

O assalto do Zêzere, já mencionado, foi infrutuoso por a desesperada tenacidade com que os sitiados se defenderam.

Seguiu-se o vulgarizado assalto de Carrapatelo, à casa de D. Ana Vitória de Abreu e Vasconcelos. Esta senhora estava com visitas, que tinham ido desanojá-la da morte de seu pai, falecido poucos dias antes. Era de noite. Os cães, reclusos em casa, latiam impacientes. Um criado abriu-lhes a porta, e pela abertura recebeu na cabeça um golpe de machado. Penetrou a horda na cozinha, e um dos invasores, para aquietar os gritos do criado, cortou-lhe a voz na garganta com uma bala de pistola. Entraram à saleta onde estavam as espavoridas senhoras, e trouxeram-nas processionalmente à beira do cadáver, observando-lhes que teriam igual destino se fizessem motim, e não entregassem o dinheiro que estava em casa. Entregou a senhora sem hesitação o dinheiro e valores que tinha, excepto um anel, que José do Telhado urbanamente lhe devolveu, tirando-o da mão dum subordinado. O facto seria galante, se o chefe não dissesse, no mesmo ponto, que José Joaquim de Abreu, o recém-morto pai da senhora, tinha trinta mil cruzados em moeda. A dama ignorava que tal dinheiro houvesse em sua casa, e respondeu que só sabia do que entregara. Foram, em seguimento a tal resposta, novamente conduzidas as senhoras ao espectáculo do cadáver, e ajoelharam para receberem a morte.

Neste lance, lembrou-se uma criada que o dinheiro poderia estar no quarto não aberto ainda, desde que o defunto saíra para a cova, e proferiu, em voz alta, a sua conjectura. Ficaram três sentinelas às damas, e José do Telhado entrou ao quarto, arrombou as gavetas, e senhoreou-se das sacas do dinheiro. Voltando à cozinha, mandou erguer as moribundas senhoras, conduziu-as à saleta, onde as tinha encontrado, recomendou-lhes que estivessem caladinhas, que eram bonitas, fechou-as por fora, e retirou-se a passo mesurado.

Eram sete os quinhões a repartir do espólio, reputado em quarenta mil cruzados; mas, passados três meses, encontramos a mesma malta no lugar de Paradela, em Celorico de Basto, saqueando a casa de Domingos Gonçalves Camelo. Vê-se que tinham ambições arremessadas! Abundava aí dinheiro de remota herança, que a senhora Maria Francisca, amante da vida, denunciou à quarta ou quinta cronhada, que lhe deram, em igualdade com o marido.

Na noite de 22 de Maio deu José do Telhado batalha campal à tropa, no local denominado «Eira dos Mouros». O destacamento de Infanteria 2 conseguira capturar dois salteadores, e descera com eles a uma estalagem, para descansar. Aí o surpreendeu a horda com o chefe montado em fogosa égua. Chegou ele ao terreiro da estalagem, e exclamou: «Carregai com quartos, rapazes, que está aqui José do Telhado.»

Saíu fora a tropa, e empenhou-se um tiroteio, que rematou pela retirada do destacamento. O chefe sustentou sempre a vanguarda da avançada, fazendo fogo de pistola e clavina.

Estavam os dois salteadores prisioneiros na cavalariça da estalagem: um fugira logo que rompeu o fogo, o outro ficara na impossibilidade de erguer-se sobre as pernas cortadas de balas.

— Vem! — disse o capitão ao salteador ferido.

— Não posso: matem-me, que estou sem pernas.

— Faz o acto de contrição — retrucou o chefe.

O ferido resmoneou o acto de contrição, e a estalajadeira verteu lágrimas piedosas.

José do Telhado estirou-a com uma bofetada, e desfechou contra o peito do camarada, dizendo:

—Acabaram-se-te os trabalhos, e os meus estão em começo. Adeus! - O cadáver não podia responder a este saudoso vale do seu chefe.

(…)

 (“Memórias do Cárcere”, Camilo Castelo Branco. Parceria A. M. Pereira, 2011)