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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

Mário Cesariny

09.08.23 | Manuel

 

m cezariny.jpg

De profundis amamus

Ontem às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
é há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados     maravilhosos      únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

*

O regresso de ulisses

O HOMEM É UMA MULHER QUE EM VEZ DE TER UMA CONA TEM UMA PIÇA, O QUE EM NADA PREJUDICA O NORMAL ANDAMENTO DAS COISAS E ACRESCENTA UM TIQUE DELICIOSO À DIVERSIDADE DA ESPÉCIE. MAS O HOMEM É UMA MULHER QUE NUNCA SE COMPORTOU COMO MULHER, E QUIS DIFERENCIAR-SE, FAZER CHIC, NÃO CONSEGUINDO COM ISSO SENÃO PRODUZIR MONSTRUOSIDADES COMO ESTA FAMOSA «CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL» SOB A QUAL SUFOCAMOS MAS QUE, FELIZMENTE, VAI DESAPARECER EM BRVE.

PELO CONTRÁRIO, A MULHER, QUE É UM HOMEM, SOUBE SEMPRE GUARDAR DISTÂNCIAS E NUNCA PRETENDEU SUBSTITUIR-SE À VIDA SISTEMATIZANDO PUERILIDADES, COMO FILOSOFIA, AVIAÇÃO, CIÊNCIA, MÚSICA (SINFÓNICA), GUERRAS, ETC… ALGUNS PEDANTES QUE SE TOMAM POR LIBERTADORES DIZEM «ESCRAVA DO HOMEM» E ELA RI ÀS ESCÂNCARAS, COM A SUA CONA, QUE É UM HOMEM.

 

DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS, ANTES DO ROBOTSTÓNICA GREGA, OS ÚNICOS HOMENS-HOMENS QUE APARECERAM FORAM OS HOMENS-MEDICINA, OS HOMENS-XAMÃS (HOMOSSEXUAIS ARQUIMULHERES), ESSES E AS AMAZONAS (SUPER-MULHERES-HOMENS). MAS UNS E OUTRAS ERAM DEMAIS, E DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS ERAM DEMAIS DEMAIS. E DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS QUE PENÉLOPE ESPERA O REGRESSO DE ULISSES. MAS O REGRESSO DE ULISSES É O HOMEME QUE É UMA MULHER E A MULHER QUE É UMA MULHER QUE É UM HOMEM.

*

Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos"

Pena Capital (Assírio & Alvim, 2004)

*

História de cão

eu tinha um velho tormento

eu tinha um sorriso triste

eu tinha um pressentimento

 

tu tinhas os olhos puros

os teus olhos rasos de água

como dois mundos futuros

 

entre parada e parada

havia um cão de permeio

no meio ficava a estrada

 

depois tudo se abarcou

fomos iguais um momento

esse momento parou

 

ainda existe a extensa praia

e a grande casa amarela

aonde a rua desmaia

 

estão ainda a noite e o ar

da mesma maneira aquela

com que te viam passar

 

e os carreiros sem fundo

azul e branca janela

onde pusemos o mundo

 

o cão atesta esta história

sentado no meio da estrada

mas de nós não há memória

 

dos lados não ficou nada

*

Em forma de poema

dou os meus prantos às procelas
para que cessem e me deixem
dou os meus sonhos às estrelas
para que os meus sonhos não se queixem

fico só como o lobisomem
na estrada sem forma e sem fundo
meus sonhos no ar dormem dormem
à espera da manhã do mundo

vê tu se nesta alegoria
descobres porque estou inteiro
e nunca terei agonia
sem fartar meus sonhos primeiro

*

o futuro rei rapAz de espadas

Morfologia psicológica:

a coroa – o sexo

o ceptro – a vírgula

as asas – as garras

as pernas – o fogo

a cabeça – o túnel

a mão esquerda – a gruta

a pata direita – a lua

os pés – o desejo

as membranas – o olhar

 

Primeiro surgimento experimentado:

o caso Mirin Dajos, na Holanda.

Mário Cesariny (1923-2006)
Manual de Prestidigitação (Assírio & Alvim, 2005)