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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

Matar sem prazer

10.09.23 | Manuel

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Ernest Hemingway

Jordan podia verificar com o binóculo a identidade dos aviões, mas preferiu não o fazer. Pouco se lhe dava naquela noite que fossem amigos ou inimigos e a verificação podia decepcionar o seu companheiro. Voavam na direcção de Segóvia e não pareciam ser os aviões verdes de asas vermelhas, adaptação russa dos Boeing P-32 a que os espanhóis chamavam Moscas . As cores não eram visíveis àquela hora, mas a linha dos aparelhos indicava isso. Sim. Era uma patrulha fascista que regressava.

A sentinela permanecia de pé na outra guarita, de costas para eles.

– Vamos – disse Jordan, e começou a galgar a subida, sempre cautelosamente.

Anselmo seguia-o, a uns cem metros de distância. Quando perderam a ponte de vista o rapaz parou à espera do velho, o qual lhe ganhou a dianteira e retomaram a subida já dentro da escuridão nocturna.

– Temos uma aviação formidável – observou o guia radiante.

– Sim, temos.

– E havemos de vencer.

– É preciso que vençamos.

– E depois de termos vencido, voltarás cá para caçar.

– Caçar o quê?

– O javali, o urso, o lobo, o cabrito montês...

– Gostas de caçar?

– Sim, homem. Mais do que tudo. Na minha aldeia todos caçamos. E tu?

– Não – disse Robert Jordan. – Não gosto de matar animais.

– Comigo dá-se o contrário – murmurou o velho. – O que não gosto é de matar homens.

– Ninguém gosta, a menos que se tenha a cabeça perturbada – volveu Jordan. – Mas sendo necessário pouco se me dá... sendo pela causa.

– Sim, é coisa diferente – assentiu Anselmo. – Na minha casa, quando eu tinha casa, porque hoje é coisa que não tenho, havia as presas dos javalis que matei na floresta lá em baixo. E peles de lobos que abati no Inverno, caçando na neve. Nos arredores da aldeia matei, numa noite de Novembro, quando regressava a casa, um lobo enorme. Havia quatro peles de lobo no soalho da minha casa. Já estavam gastas pelo uso, mas eram peles de lobo. Havia também os chifres de um cabrito montês que matei no alto da Sierra e uma águia de asas abertas e os olhos amarelos, iguais aos olhos verdadeiros de uma águia viva. Coisa muito bonita e que dava prazer olhar.

– Sim – concordou Jordan.

– Na porta da igreja da minha aldeia pregaram a pata de um urso que matei na Primavera. Encontrei-o numa colina coberta de neve, virando um tronco de madeira com a pata.

– Quando foi isso?

– Há uns seis anos atrás. E cada vez que eu via aquela pata, tal qual a mão de um homem, só com garras compridas, seca e pregada pela palma à porta da igreja, sentia um verdadeiro prazer.

– Orgulho, não é?

– Orgulho de me lembrar do encontro com o urso na montanha, nesse começo de Primavera. Mas matar um homem, que é um homem como nós, não é coisa que me dê orgulho.

– Não se lhe pode pregar a pata na porta da igreja – disse Robert Jordan.

– Não. E uma barbaridade tão grande que nem se pode pensar nela. No entanto a mão do homem parece-se com a pata do urso.

– Também o peito do homem é igual ao peito do urso – disse Jordan. – Tirada a pele do urso, as semelhanças musculares são notáveis.

– Sim. Os ciganos acreditam que o urso é irmão do homem.

– Os índios da América também – observou Jordan. – Quando matam um urso, pedem-lhe desculpa e perdão. Penduram-lhe a cabeça numa árvore e pedem-lhe perdão antes de se retirarem.

– Os ciganos acreditam que o urso é irmão do homem porque, tirada a pele, tudo é igual e também porque o urso bebe cerveja, gosta de música e sabe dançar.

– O mesmo pensam os índios.

– Os índios serão ciganos?

– Não, mas em relação ao urso pensam como os ciganos.

– Compreendo. Os ciganos também acham que o urso é irmão do homem porque gosta de roubar.

– Tens sangue cigano?

– Não, mas conheço-os bem. Lidei muito com eles, principalmente depois do movimento. Há muitos nas montanhas. Para os ciganos não é pecado matar fora da tribo. Eles negam que seja assim, mas é verdade.

– São como os mouros.

– Sim, mas os ciganos têm um ror de leis secretas que negam ter. A guerra tornou-os maus como dantes eram.

– Eles não compreendem as razões da guerra. Não sabem a razão por que combatemos.

– É verdade – confirmou o velho. – Só sabem que há guerra e que por isso podem matar como antigamente, sem que ninguém lhes peça contas.

– Tu já mataste alguém? – inquiriu Jordan animado pela intimidade que a escuridão favorecia e por um dia passado em comum.

– Sim, muitas vezes. Mas nunca me senti satisfeito. Para mim matar um homem é pecado. Mesmo quando são fascistas que é preciso matar. Eu, por mim, acho grandes diferenças entre um homem e um urso e não acredito nessa bruxaria dos ciganos a respeito da fraternidade com animais. Não. Eu sou contrário à matança de homens.

– E, no entanto, mataste.

– Sim. E voltarei a matar. Mas se escapar com vida hei-de fazer o possível por viver de modo a não fazer mal a ninguém, a fim de ser perdoado.

– Por quem?

– Quem é que sabe? Desde que não há Deus, nem Filho, nem Espírito Santo, quem pode perdoar ? Eu não sei.

– Então já não tens Deus?

– Não, homem. E certo que não. Se houvesse Deus ele nunca permitiria que visse o que tenho visto com estes que a terra há-de comer. Podemos deixar-lhes o Deus.

– Eles reclamam-no.

– É claro que Ele me faz falta, pois fui educado com religião. Mas agora um homem tem que ser responsável por si.

– Nesse caso és tu que tens de perdoar-te pelas mortes feitas.

– Creio que sim – concordou Anselmo. – lá que pões a questão nesse ponto, parece-me que deve ser assim. Mas, com ou sem Deus, estou convencido de que matar é pecado. Para mim tirar a vida de outra pessoa é coisa de muita gravidade. Fá-lo-ei sempre que for necessário, mas não sou da raça de Pablo.

– Para vencer uma guerra é preciso matar os inimigos. Isto sempre foi uma verdade.

– Está claro. Na guerra temos de matar. Mas eu tenho ideias muito esquisitas – volveu Anselmo. Os dois continuaram a subir na escuridão, muito próximos um do outro; o velho falava mansamente voltando a cabeça de quando em vez.

– Eu não mataria nem um bispo. Não mataria qualquer espécie de proprietário. Obrigá-los-ia, sim, a trabalhar no campo, e nas montanhas diariamente, como nós trabalhamos e pelo resto das suas vidas. Então saberiam para que tinha nascido o homem. Teriam de dormir onde nós dormimos. Comer o que nós comemos. Mas antes de mais nada, teriam que trabalhar. Haviam de aprender.

– Deste modo sobreviveriam e voltariam a escravizar-te.

– Mas não é matando-os que eles aprenderão – respondeu Anselmo. – Tu não podes exterminá-los porque da semente nasceria ainda mais ódio. A prisão não adianta nada. A prisão só faz aumentar o ódio. E o que os nossos inimigos precisam é de aprender.

– Mas apesar disso tu mataste.

– Sim – respondeu Anselmo. – Matei e voltarei a matar. Mas nunca por prazer e considerando isso um pecado.

– E a sentinela? Divertiste-te muito ao fingir que ias matá-la.

– Sim, mas brincava. E matarei a sentinela. Sim, considerando isso uma obrigação e pensando na nossa missão. Mas sem prazer.

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Fuzilamento de trabalhadores comunistas pela tropa nacionalista de Franco, em Llerena, perto de Badajoz, Estremadura. Data provável: 5 ou 6 de Agosto de 1936. (Foto de colecção particular, retirado do "Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola" de Tiago Barbosa Ribeiro)

(“Por quem os sinos dobram” de Ernest Hemingway. Edição Livros do Brasil. Lisboa).

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Ernest Miller Hemingway (Oak Park, 21 de julho de 1899 — Ketchum, 2 de julho de 1961). Escritor. Trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola (1936–1939). Esta experiência inspirou uma de suas maiores obras, Por Quem os Sinos Dobram. Ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), instalou-se em Cuba. Em 1953, ganhou o Prémio Pulitzer de Ficção, e, em 1954, ganhou o prémio Nobel de Literatura.