Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

NATÁLIA CORREIA — CEM ANOS

13.09.23 | Manuel

 natalia c.jpg

NATÁLIA CORREIA

Natália de Oliveira Correia nasceu em 1923 na ilha de São Miguel (Açores), vindo criança para Lisboa, onde fez os seus estudos liceais.

Frequentemente arrumada pela crítica no cacifo surrealista, tem a autora a esclarecer que, se semelhante arrumo quadra à comunidade dos nossos fazedores de génios, de forma alguma define a sua poesia. Trata-se de um equívoco em que facilmente resvalam quantos não discernem a poesia senão através de esquemas. A verdade apresenta um aspeto totalmente inverso desta interpretação. Entendendo a poesia como substância mágica desorbitada da sua funcionalidade primitiva, que o poeta desespera por restituir  sua natureza orgânica primordial, a fim de a tornar eficaz na recriação do Mundo, por esta linha, «ante» e «pós» surrealista, se presta a poesia de Natália Correia a ser integrada num movimento que não inventou mas apenas focou esta intrínseca constante do fenómeno poético.

Publicou teatro, ensaio e os seguintes livros de poesia: Poemas (1954), Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958), Comunicação (1960) e Cântico do País Emerso (1961).

O erotismo, como ressumbração de uma vivência amorosa individual, esta longe de caracterizar a obra desta poetisa. Todavia, no sentido lato de um universo erotizado, animado pela impaciência genesíaca de sucessivamente se exceder, é-lhe gradual o desenvolvimento da perspetiva erótica, que se afirma, sobretudo, em Cântico do País Emerso. Esta evolução corresponde a um aprofundamento do mistério telúrico da mulher, que é a própria jornada da sua poesia, resultando no comprazimento de se observar como força genesíaca, deslumbradamente atuante na cópula primordial que a terrena espelha.

COSMOCÓPULA

I

Membro a pino

dia é macho

submarino

é entre coxas

teu mergulho

vicio de ostras.

II

O corpo é praia a boca é a nascente

e é na vulva que a areia é mais sedenta

poro a poro vou sendo o curso de água

da tua língua demasiada e lenta

dentes e unhas rebentam como pinhas

de carnívoras plantas te é meu ventre

abro-te as coxas e deixo-te crescer

duro e cheiroso como o aloendro.

(Inédito)

(“Antologia de Poesia Portuguesa – Erótica e Satírica” de Natália Correia. Ponto de Fuga, 2019)

*

DA CLARA À NEGRA CIÊNCIA

Uma laranja cai

E o chão impede

Que ela infinitamente caia.

Impedimento

Ou o invento

De uma ciência

Que já foi gaya

E agora é triste-

Mente astronómica.

Raios a partam

A bomba atómica!

*

DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO

Num pais de beberrões

Em que reina o velho Baco

Se nos tiram os canjirões

Ficamos feitos num caco.

 

E querem os deputados

Com um ar de beatério

Que fiquemos desmamados

Quais anjos num baptistério.

 

Se o verde e o tinto são

As cores da nossa bandeira,

Ai, lá se vai a nação

Se acabar a bebedeira.

 

De abstemia não se faça

A lex neste plenário

Que o direito à vinhaça

Esse é consuetudinário.

*

NO SERVO ANINHA—SE O DÉSPOTA

A um deputado do PSD, ferozmente anti-comunista que, no seu fanatismo partidário, batia o mais grosseiro estalinista

Do pequeno-burguês tem, na medula,

A vérmina sabujo-partidária.

A fossanguice teimosa tem da mula

Em estalinismo de instrução primária.

 

Só perante o patrão é mole, é lula

Sua mínima alma funcionária.

Mas com a vara na mão, o vilão pula

E dá ordens em couces de alimária.

 

Comigo tal marmanjo baixe a bola

Que a palmatória desse mestre-escola

Eu lha faço engolir pelo bocal

 

Por onde expulsa asneiras a vapor;

Pois versos não me faltam nem humor

Para, com sátiras, forrar este animal.

*

«O acto sexual é para fazer filhos»

disse ele

Um poema de Natália Correia

A João Morgado (CDS)

 

«O acto sexual é para ter filhos» — disse, com toda a boçalidade, o deputado do CDS no debate anteontem sobre a legalização do aborto. A resposta em poema, que ontem fazia rir todas as bancadas parlamentares, veio de Natália Correia. Aqui fica:

 

«Já que o coito — diz Morgado —

tem como fim cristalino,

preciso e imaculado

fazer menina ou menino;

e cada vez que o varão

sexual petisco manduca,

temos na procriação

prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,

lógica é a conclusão

de que o viril instrumento

só usou — parca ração! ­—

uma vez. E se a função

faz o órgão — diz o ditado —

consumada essa excepção,

ficou capado o Morgado.»

in Diário de Lisboa, 5 de Abril de 1982

*

UMA SÓ VOZ DE INUMERÁVEIS BOCAS?

De Eva a mulher astronauta

vivo todas as idades,

um fausto de lua lauta

no brilho das brevidades.

 

Canta-me um louco na pauta,

demónios e divindades

compartilham essa flauta

das minhas variedades.

 

O universo inventado

de noutros me perceber.

Tanto tempo utilizado

numa manhã, por nascer!

 

Sujeitos a estranhas leis

com a sua loucura a sós

solitários como os reis

os poetas dizem: nós.

 

E pela mesma magia

que ainda ninguém entendeu,

no côncavo da poesia

um deus que falta diz: eu.

 (“O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Natália Correia. Projornal, 1993)