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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

O Património Genético Português - A História Humana Preservada nos Genes

31.10.25 | Manuel

 Por Por Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiroarabes.jpg

Os genes berberes e árabes 

Existem linhagens mitocondriais presentes na população portuguesa e ausentes no resto da Europa designadas por U6. Este haplogrupo foi nomeado Berbere, uma vez que a sua distribuição se restringe ao Norte de África, onde a sua frequência ronda os 10-20%, sendo esporádica no Médio e no Próximo Oriente e na Ibéria. Pensa-se que este haplogrupo é uma reminiscência do povo ancestral berbere, que habitava o Norte de África antes da conquista árabe, no século VII. Na actualidade ainda existem algumas populações berberes nos países norte-africanos, sempre em comunidades reduzidas e mais ou menos isoladas, dedicando-se a actividades tradicionais como a agricultura, a pastorícia e o artesanato. Alguns destes grupos mantêm uma linguagem berbere, enquanto outros já adoptaram o árabe. Geneticamente, e mesmo em termos culturais (arqueologicamente), o Norte de África é muito mais aparentado com a Eurásia do que com a África subsariana. Tudo indica que a colonização do Norte de África foi efectuada por migrações Back to Africa» do Homem Moderno, a partir do Próximo Oriente, através do Levante, numa época comum à migração para a Europa, há cerca de 40.000 anos. Neste caso, parece que a rota mais a Sul, através do Mar Vermelho, não participou nesta migração «Back to Africa» colonizadora do Norte de África.

Deste modo, muito do património genético do Norte de África é comum ao da Europa, podendo existir linhagens diversas em ambos os lados do Mar Mediterrâneo, mas que descenderam de um ancestral comum no Próximo Oriente. É o caso da linhagem U6, que se dispersou no Norte de África, enquanto a sua irmã U5 se dispersou na Europa. Torna-se assim muito mais difícil destrinçar geneticamente as influências norte-africanas na constituição genética portuguesa, pela partilha da maior parte do património genético fundador. Ficámos limitados a essas linhagens que tiveram uma evolução divergente nos dois lados do Mediterrâneo, da qual o U6 é o melhor exemplo até ao momento. Com os desenvolvimentos recentes da análise do ADN mitocondrial, é de prever que novas achegas sejam possíveis num futuro próximo para outras linhagens.

A observação do haplogrupo U6 quer no Médio e no Próximo Oriente, quer na Ibéria, indica a troca de linhagens com o Norte de África. Em Portugal, o U6 atinge as seguintes frequências: 5% no Norte, 3% no Centro e 2% no Sul. Apesar de estas frequências parecerem muito baixas, não se deve esquecer que a frequência do U6 no Norte de África é também muito reduzida, entre 4% a 28%. Corrigindo para estes valores no Norte de África, uma frequência de 5% em Portugal representaria no mínimo 14% e no máximo 20% de aporte norte-africano.

Quando se compara a diversidade das linhagens U6 observadas em Portugal, elas são bastante divergentes entre si, parecendo indicar uma entrada recente. Seria tentador estabelecer o domínio islâmico de Portugal, desde o século VIII até ao século XIII, como o movimento mais provável para a entrada aparentemente recente dessas linhagens U6. Simplesmente, o gradiente de frequências é oposto ao que seria de esperar, dada a mais forte e longa influência islâmica no Sul do país. Como é que se poderia explicar essa maior frequência de linhagens norte-africanas no Norte de Portugal? As hipóteses são muitas, as certezas inexistentes. Muitas evidências históricas podem ser apontadas, quer favoráveis, quer desfavoráveis.

Em primeiro lugar, poder-se-ia apontar para um enviesamento no tipo de cruzamento misto. Durante o domínio islâmico eram feitos numerosos raides, quer de cristãos a islâmicos, quer de islâmicos a cristãos, com conversão dos prisioneiros a escravos. Seria então mais predominante o cruzamento de homem cristão com mulher islâmica no Norte, que sempre teve pouquíssima influência islâmica, e de homem islâmico com mulher cristã no Sul. Outra curiosidade é a existência de mourarias, guetos de islâmicos onde a endogamia religiosa seria fortíssima, apenas no Sul; no Norte estão é referidas algumas doações de terras a casais islâmicos pura a formação de uma comunidade numa região despovoada.

Em segundo lugar, pode ter sido uma migração mais antiga, ou várias ao longo do tempo, a responsável pela Intrusão de U6. Apenas 15 km separam as Colunas de Hércules, entre Gibraltar e Ceuta, e os contactos entre os dois lados devem ter sido frequentes e contínuos. Alguns dados novos de ADN mitocondrial têm mostrado que os haplogrupos que se expandiram a partir da Ibéria para o resto da Europa, após o Último Máximo Glaciar, também atingiram o Norte de África, atestando a passagem destas linhagens da Ibéria para o Sul. É credível que movimentos antigos, do Norte de África para Norte, também tenham ocorrido. Mas a baixa frequência de U6 não permite uma datação precisa, excepto nas Canárias.

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As Canárias, ao contrário dos Açores e da Madeira, estavam habitadas, quando os ibéricos lá chegaram, por um povo denominado Guanches. Estes eram prováveis descendentes dos berberes do Norte de África e datações arqueológicas indicam a sua chegada ao arquipélago há cerca de 2500 anos. Existe um grupo tipicamente canário dentro da linhagem U6 (denominado U6b1), que acumulou diversidade específica neste arquipélago, atingindo uma frequência de 8% na população actual. A datação dessa diversidade aponta para um tempo de expansão de 2800±900 anos, dentro das estimativas apontadas pela Arqueologia.

A frequência de linhagens maternas U6 na Madeira e nos Açores é baixa, 3,9% e 1,7%, respectivamente.

Para a componente genética masculina, os primeiros trabalhos baseados num pequeno número de marcadores apontavam para uma influência norte-africana crescente de Norte a Sul de Portugal. No entanto, a descoberta de novos marcadores, que permitiram uma melhor caracterização molecular das linhagens paternas, mostrou posteriormente haver uma homogeneidade na distribuição da linhagem paterna do Norte de África (designada E3b1b) em Portugal continental, na Madeira e nos Açores, rondando os 5-6%, quando nas populações do Noroeste de África atinge aproximadamente 75%.

A aceitarmos movimentos pré-históricos para a introdução das linhagens norte-africanas em Portugal, estaremos a desvalorizar o domínio islâmico em termos genéticos e demográficos?

Podia alegar-se uma maior proporção de machos conquistadores vindos do Norte de África a acasalar com nativas, mas há documentos históricos que atestam a vinda de um primeiro contingente masculino, em grande parte berbere, seguido pelas suas famílias. Os Árabes, que no espaço de um século conquistaram todo o Norte de África e que iniciaram a invasão quase totalmente bem-sucedida da Península Ibérica, seriam uma elite menos numerosa nesses exércitos que atravessaram o Mediterrâneo. Há ainda documentos que atestam que as terras menos férteis do Norte de Portugal teriam sido atribuídas aos berberes, ficando os Árabes com as terras mais rentáveis do Sul. Esta evidência, a ser verdadeira, poderia explicar a maior proporção da linhagem U6 no Norte de Portugal, remetendo os Árabes para o Sul, a fim de fundarem os importantes Alcazares, como Beja, Évora, Santarém, Lisboa, em domínio mais organizado, social e culturalmente, e com a prática da poligamia tradicional dos grandes soberanos árabes.

(...)

Como o caso ja referido daquela família de Mértola, que possui uma linhagem berbere e uma linhagem mais frequente no Pr6ximo Oriente, o ADN dos restantes naturais do concelho de Mértola revela ainda hoje uma maior percentagem de linhagens U6, as ditas linhagens berberes, relativamente ao resto do País — por volta de 9%, chegando a ser mais elevada do que em certas povoações actuais berberes e árabes do Norte de África. Além desta maior frequência das linhagens berberes, as linhagens características do Próximo/Médio Oriente também estavam presentes numa frequência muito mais elevada em Mértola do que no resto do País (33% versus 11%), com redução das linhagens subsarianas em Mértola (6%) relativamente ao resto da região sul (11%).

Estas mais elevadas frequências de linhagens norte-africanas e do Próximo/Médio Oriente na população actual de Mértola parecem atestar a importância passada deste local do Sul de Portugal para a entrada de gentes e seus genes do mundo mediterrânico. O importante porto fluvial que Mértola constituiu para Fenícios, Cartagineses, Romanos e Islâmicos, no centro de uma importante rede de minas de minério (como as minas de São Domingos, um grande centro de extracção de pirite cúprica) fez de Mértola um enclave interessante para o estabelecimento de algumas famílias do Norte de África e do Próximo/Médio Oriente. A sedentarização destas famílias seria a chave para o estabelecimento das rotas comerciais mediterrânicas. Talvez a partir de Mértola se espalhassem a cultura e o comércio das novas gentes aqui chegadas para o resto do País. Como Mértola, existiriam outros entrepostos portugueses, mas aquela localidade alentejana permaneceu suficientemente homogénea ao longo dos tempos, de modo que esse sinal genético de outras eras permanece no património genético actual. O tema está longe de estar esclarecido, mas torna-se cada vez mais claro que uma visão simples das invasões islâmicas não se aproxima de modo algum da realidade.

Continuação de O Património Genético Português - As influências de África e do Mediterrâneo: escravas, mouras e judias

(O Património Genético Português – A história humana preservada nos genes. Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro. Gradiva, 2009).