Portugal devorado pela crise arrisca-se a desaparecer

Em Portugal, país periférico, dirigido por uma burguesia rentista e subsidiária, tem e verá agravar-se rapidamente uma situação já de si dramática: dívida pública de mais de 120% do PIB, fraco crescimento do PIB, será metade do previsto (agora justificado pela guerra), forte dependência alimentar (70% dos produtos importados), enorme dependência energética(importa-se 80% da energia), sem soberania monetária. E as expectativas, ao contrário da propaganda do governo de maioria absoluta, são mais do que péssimas: Galp sobe preços da eletricidade e do gás natural a 15 de abril (3%); FAO prevê subida de 21,5% do preço do trigo em 2022 no pior cenário; Preço dos combustíveis em Portugal acima da média UE; INE confirma inflação de 4,2% em Fevereiro, transportes e restaurantes lideram subidas. Contudo, Portugal prevê aumentar a despesa com a Defesa, ou seja, rearmar o país, alinhando com o resto da Europa na corrida armamentista depois do tiro de partida dado pela Alemanha. Os especialista da área, a exemplo dos especialistas da pandemia, defendem para além de mais dinheiro a reintrodução do recrutamento obrigatório.
Para não perder o hábito, a burguesia indígena, seguindo o roteiro da pandemia, reivindica mais apoios do estado. O chefe da CIP exige descida do ISP, IVA e do IRC (o ideal dos patrões, não pagar impostos!) e mais uns milhões a fundo perdido, o mesmo aquando da pandemia. Os patrões do sector dos transportes, alegando prejuízo de 70 milhões de euros devido à subida do preço dos combustíveis, exigem reforço dos apoios que já existem. Os donos dos hipermercados consideram inevitável o aumento do preço dos principais produtos alimentares, começando já a fomentar o açambarcamento do óleo de girassol, uma boa maneira de acelerar a inflacção. Perante o alarido dos rentistas que agora não se queixam de haver "muito estado" nem das eventuais respectivas "gorduras", o governo vai prometendo linhas de crédito, no imediato 400 milhões de euros para as empresas mais dependentes da energia dos combustíveis e já admite regresso ao lay-off simplificado devido à crise energética. Não esquecer que o lay-off a pretexto da pandemia foi pago com os dinheiros da Segurança Social.
Enquanto isso, o desemprego vai começar a disparar: a empresa espanhola A Megasa, que controla a Siderurgia Nacional no Seixal e na Maia, e emprega 700 trabalhadores, suspende a atividade devido ao “agravamento da crise energética provocada pela guerra”. Será o novo mantra. Mas com lenga-lenga ou sem ela, os ingredientes para um agravamento da crise económica capitalista vão-se reunindo: estagnação económica, elevada inflacção e aumento do desemprego. E todas as medidas aplicadas pelo governo, desde alívio dos impostos directos sobre as empresas ou indirectos aos financiamentos a fundo perdido ou a linhas de crédito não passam de panaceias, porque a ruína da maioria das pequenas e médias empresas é irreversível e inevitável. O capital para poder continuar a acumular-se terá de se concentrar num número cada vez menor de mãos, faz parte da sua natureza e da sua dinâmica, caso contrário acaba. E com a baixa drástica, em média, dos lucros e com o excesso de produção que o mercado não consegue escoar por falta de poder de compra, a guerra torna-se como o único meio dos capitalistas resolverem os seus problemas.
Um país a atravessar uma crise económica grave, que irá rapidamente assumir proporções jamais vistas, com uma elite parasitária e inútil que vive esencialmente à custa do estado e do povo, sem soberania económica ou política, com uma população envelhecida, com um índice de natalidade a diminuir de ano para ano, liderado por uma classe política medularmente corrupta, centrada no enriquecimento pessoal fácil e rápido, não pode ter outro fim se não desaparecer um dia destes. Será uma questão de tempo, caso o povo não se revolte.