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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

Ruínas de Coimbra e o Teatro Sousa Bastos

24.02.24 | Manuel

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Quem dê uma volta pela cidade de Coimbra, e ande há algum tempo por estes lados, constata com grande tristeza que as casas velhas e arruinadas, apresentando sinal evidente de abandono completo, são mais que muitas e têm aumentado com o passar do tempo. São edifícios, uns, antigos e até com interesse arquitetónico; outros, não muito velhos, mas em estado avançado de degradação; e, ainda outros, de referência histórica, que qualquer dia ruirão em cima das pessoas que tenham o azar de passar no momento. Encontram-se em zonas centrais da cidade, Baixinha e Alta, e, para o objectivo destas duas linhas que escrevemos, salientamos três (ou quatro): duas casas medievais, uma perto da Igreja de Santiago, à Rua Sargento-Mor, junto à qual se encontra uma placa identificativa; outra, que pensamos que seja também medieval pela semelhança com a anterior, por detrás da Fonte Nova, na rua de Montarroio. Uma terceira, da qual iremos falar um pouco, o edifício do antigo Teatro Sousa Bastos, do qual só existem as paredes exteriores que, por mero milagre, ainda não caíram. Estes três casos falam por si sobre o estado calamitoso da cidade de Coimbra quanto a edifícios e habitação, estado que vem de há muito atravessando as diversas vereações, socialistas, na maior parte do tempo, e PSD e associados.

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 Casa Mediveal, Rua Sargento-Mor (Foto do autor MC, 2024)

Quem é um pouco mais velho ainda se encontra bem lembrado dos filmes que passavam naquela sala, já mais de cinema do que teatro em fase mais tardia, típica de bairro popular, e também estudantil, filmes geralmente de acção, onde predominavam as coboiadas e cuja acção muitas das vezes passava facilmente da tela para a sala, com o pessoal em quase batalha campal; nessas alturas a polícia, vamos lá ver porquê, nunca se encontra presente. O Cine-Teatro Sousa Bastos era bem conhecido em toda a cidade e constituía sem dúvida um ícone incontornável, assim constituía dever da Câmara Municipal intervir, apesar do edifício ser de propriedade privada, quando este deixou de ter a sua função e foi atirado propositadamente para o abandono, tomando posse administrativa do mesmo. Nem que fosse numa primeira fase posse meramente administrativa e não expropriação invocando interesse público, coisa que poderia ter feito na justa medida em que seria legal e haveria mais do que argumentos para o fazer.

Esta possibilidade foi levantada, tendo-se formado um movimento em meados da década de 90 do século passado, “Movimento Salvem o Sousa Bastos”, que dinamizou o processo fazendo com que a questão fosse levada a discussão em reunião da Assembleia Municipal. Foi em Fevereiro de 1996, cuja notícia sai no jornal local “Diário de Coimbra” de 14 desse mês, onde se ficou a saber que a reunião foi manipulada e boicotada pelo então presidente da Câmara, o socialista Manuel Machado, o homem que mais tempo esteve à frente de uma câmara, quer como presidente quer como vereador, talvez o maior dinossauro vivo do poder autárquico, a quem os especuladores imobiliários, agentes, patos bravos e novos ricos, devem estar eternamente gratos.  

Nessa sessão da Assembleia Municipal, o homem argumentou que o Teatro Sousa Bastos não daria um bom teatro municipal devido à área, reduzida, e à localização, difícil acesso; o alvará e a licença de utilização já teriam caducado; sendo propriedade privada, o proprietário teria o direito de apresentar um projecto para a reconversão que melhor entendesse, projecto que já estaria na câmara em fase de pré-aprovação, estaria somente à espera de parecer do IPPAR relacionado com a prospeção arqueológica; compromete-se (diz) em agendar uma reunião entre o Movimento Salvem o Sousa Bastos e o proprietário para possível . Entretanto, a reunião foi-se alongando no tempo, os deputados foram saindo discretamente, e quando chegou o momento de votação das duas moções apresentadas, uma pelo presidente da Junta de Freguesia de Almedina e a outra pelo grupo parlamentar da CDU, Machado deu a cessão encerrada por falta de quórum, e nada fica decidido.

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 Casa com característica medieval, Rua de Montarroio (Foto do autor MC, 2024)

Alguns aspectos que devem ser salientados para se perceber esta negociata, e os negócios em família do PS em geral. Nomeadamente, conhecer os outros protagonistas envolvidos no processo: a Reitoria da Universidade de Coimbra, a Secretaria de Estado da Cultura, a empresa compradora e a família Mendes Abreu. A aquisição do Teatro Sousa Bastos foi feita por uma empresa privada, da qual fez parte como sócio Mendes Silva, ex-presidente da Câmara Municipal de Coimbra (entre Janeiro de 1983 a Dezembro de 1985, como independente pela lista do PS) e quando ainda vigorava o acordo entre as três entidades oficiais: Câmara, Secretaria de Estado e Reitoria. Nada fizeram para tomar conta do imóvel e deixaram campo aberto para a sua alienação alegando dificuldade de aprovação da verba para esse efeito.

Em 1989, o Teatro Sousa Bastos, ainda de pé, era utilizado pela Cooperativa de Teatro Bonifrates e o alvará ainda se encontrava em vigor, mas na posse da família Mendes de Abreu, por coincidência proprietária do outro teatro privado na cidade, o Teatro Avenida. Este teatro foi demolido dando origem ao actual centro comercial Avenida, que, passado todo este tempo, ainda possui metade das lojas às moscas. Ora, Judite Mendes de Abreu, da família com o mesmo apelido, foi eleita presidente da Câmara Municipal de Coimbra, em Dezembro de 1976, e presidente da Assembleia Municipal, em 1983, sempre como independente nas listas do Partido Socialista. O seu nome foi atribuído a uma das salas do edifício dos Paços do Concelho pelo actual presidente, em Janeiro de 2022.

O presidente José Manuel Silva, eleito por uma coligação variada de sete partidos, desde o PSD, CDS ao RIR e Volt, “Juntos Somos Coimbra”, foi recentemente questionado pela imprensa sobre o destino do Teatro Sousa Bastos, agora reduzido a quatro paredes em risco iminente de ruir, admitiu a possibilidade, vaga e remota, de posse administrativa do edifício por parte do município, “sem precisar em que termos e condições” (da imprensa). Parece que não se terá rido nem engasgado, sabendo bem que o facto está consumado e não faltará muito tempo para os serviços camarários desbloquearam o processo de construção de um edifício de seis andares, mais um mamarracho; agora, já não se coloca a falta de área para construção, onde caberão “32 frações, 30 T0 e 2 T1, destinadas a residência de estudantes”. Será um edifício em plena zona histórica da cidade, considerada Património Mundial da Humanidade, bem como a Rua da Sofia, em 2013.

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Casa da Nau, edifício do Séc. XV, onde ainda se encontra a Real República Prá-Kys-Tão, mas prestes a ir ao fundo, situada diante do Teatro Sousa Bastos (Foto do autor MC, 2024) 

Em 2019, seis anos depois da nomeação pela Unesco, Carlos Fiolhais manifestara a sua tristeza quanto ao abandono de alguns edifícios, de referência pelo seu passado e tamanho, na Rua da Sofia. Carlos Fiolhais desabava nestes termos: «Jorge de Sena, que faria 100 anos em 2019, escreveu sobre a Sofia um poema satírico inserto no livro Dedicácias. Não a poeta Sophia, que foi exactamente sua contemporânea (também faria cem anos este ano) e com quem ele manteve correspondência. Mas sobre a rua da Sofia em Coimbra. O engenheiro civil, feito poeta, romancista e crítico literário, refere a Rua da Sofia como símbolo do provincianismo cultural português. O poema começa assim “Sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia, / mas andou na rua da Sofia”, terminando ”Não há filosofia/ que salve quem andou na rua da Sofia.” Se Sena vivesse agora e passeasse como eu fiz nestes dias natalícios pela rua da Sofia, na Baixa coimbrã, ficaria ainda mais ácido…» (10 de Janeiro de 2019, De Rerum Natura).

Desde 2019 a situação de Coimbra só se tem agravado… e muito. E, infelizmente, não é só na Rua da Sofia e na Alta de Coimbra, zonas que deveriam ser objecto de uma atenção e cuidados redobrados pelo facto de constituírem Património Mundial da Humanidade, mas toda a cidade em geral. E, então, em questão de limpeza e higiene do espaço público nem vale a pena falar, pelo menos para já.

Imagem de destaque:  Edifício, ou o que resta dele por incúria alegadamente intencional, do Teatro Sousa Bastos, que foi inaugurado em 15 de Junho de 1914. Este teatro, por sua vez, teve origem em um outro, Theatro de D Luiz I, inaugurado em 22 de Dezembro de 1861. Assim se vai destruindo a História Cultural da Cidade de Coimbra pela ganância. (Foto do autor MC, 2024)

Bibliografia:

- Blog Restos de Colecção

- Coimbra Colectiva

- De Rerum Natura

- “Diário de Coimbra”, 14 de Fevereiro de 1996.

Coimbra, 24 de Fevereiro de 2024