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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

Sebastião Salgado alerta Europa para o “fim da Amazónia” se assinar acordo de livre comércio com a América do Sul

18.12.25 | Manuel

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Por Jordi Sabaté 

Sebastião Salgado e a sua exposição ‘Amazônia’ no espaço Drassanes em Barcelona com imagens em grande formato da floresta amazônica e seus habitantes de  (3 de dezembro de 2024).

A Amazônia é o território banhado pelo maior e mais longo rio do mundo, o Amazonas, que em seus 6.400 quilômetros de percurso até o mar transporta um quinto da água doce do planeta na forma líquida. É um ecossistema de selva virgem que abriga a maior biodiversidade da Terra, bem como algumas das comunidades humanas menos contaminadas pela civilização.

Mas além do seu valor genético e cultural, a Amazônia tem um valor ambiental incalculável como reguladora das chuvas em todo o mundo e, portanto, como estabilizadora das mudanças climáticas. A desflorestação das suas florestas para as converter em campos de cultivo ou pastagens para o gado põe seriamente em perigo a sua função ambiental.

Para chamar a atenção para este facto, o famoso fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado organizou a exposição  Amazónia , que traz a Barcelona de hoje até 20 de abril de 2025. Nela mostra imagens tanto das paisagens amazónicas como de algumas das tribos que as habitam.

Um alerta contra o livre comércio e o consumismo

Salgado, que culpou o consumismo pelos problemas da Amazônia, aproveitou a apresentação da exposição para expressar sua rejeição a um futuro acordo de livre comércio do Mercosul entre a Europa e a América Latina, que, embora não tenha sido assinado no momento , está atualmente em debate nos parlamentos dos países de ambos os blocos.

Para Salgado, o acordo colocaria em risco a Amazônia, um território que “é maior que toda a Europa”. Alerta que, caso o acordo seja assinado, a selva amazônica “será desmatada e utilizada para criação de gado e lavouras” e garante que “17% (da referida selva) já está desmatada”. Nesse sentido,  como afirmou há algumas semanas  a jornalista e escritora brasileira Eliane Brum, grande divulgadora da riqueza cultural e biológica amazônica e ativista contra a crise climática, “especialistas alertam que se chegar a 20%, não haverá possibilidade de reverter os danos ao ecossistema.”

“Se matarmos a Amazônia, matamos a vida no planeta e, claro, a nossa espécie”, diz Salgado. O fotógrafo, com uma ênfase dramática e severa, teme que os políticos acabem por assinar o acordo porque “isto implicará que a procura de produtos hortícolas e pecuários da Europa em relação à América Latina disparará”. “Você sabe de onde virá a terra para cultivar mais terras e criar mais gado para ter produtos baratos?” Salgado se pergunta e responde imediatamente, balançando a cabeça enfaticamente: “Sem dúvida da floresta virgem, que vai desaparecer”.

Mais de 200 fotografias e músicas de Jean-Michel Jarre

A  exposição Amazônia  está instalada no espaço expositivo do Drassanes Reials, em Barcelona, ​​e apresenta mais de 200 fotografias, em grande formato e contraluz, tiradas ao longo de nove anos por Salgado.  Amazônia  é complementada por sete filmes e uma ambientação sonora composta especialmente para o projeto pelo músico francês Jean-Michel Jarre.

Para montar as composições, Jarre recorreu ao arquivo de sons da selva amazônica localizado no Museu Etnográfico de Genebra. Quanto aos filmes, são compostos por sete vídeos que mostram imagens da vida das comunidades indígenas amazônicas, ao mesmo tempo em que oferecem depoimentos de nove lideranças dessas tribos.

A curadoria da exposição é Lélia Wanick, sócia do fotógrafo que desde o início da carreira é responsável pela gestão e exposição do trabalho de Salgado. Wanick explica que  Amazonia  já visitou diversas cidades e que “na semana passada também estreou em Cingapura”. Antes, viajou para Londres e passou por Madrid, de onde vem a atual produção de Barcelona.

Wanick destaca ainda que “trata-se de uma exposição com placas em relevo que permitem aos cegos apreciar as informações contidas nas imagens de Sebastião. Adicionalmente, os visitantes podem obter óculos de realidade aumentada que permitem sobrepor informações complementares às imagens que estão observando, além de ouvir as explicações através de fones de ouvido.

Imagens de grande formato

O formato das imagens, com vários metros de largura, mostra a cor fotográfica a preto e branco característica das obras de Salgado, o que lhe permite realçar formas, luminosidade e reflexos, mostrando sempre o contraste entre a água e a densa vegetação envolvente.

Ele também recorre frequentemente à fotografia aérea, o que explica ter conseguido fazer graças aos helicópteros do Exército Brasileiro. Assim, pendurado por cordas na porta aberta destes armazéns, Salgado revela – e assim pode ser visto na exposição – que conseguiu fotografar tempestades espetaculares na interminável planície de selva amazônica. “Mas o que mais me orgulha é ter trazido para a exposição algo totalmente desconhecido como as montanhas da Amazônia, que constituem os níveis mais altos do território brasileiro”, acrescenta.

Em várias imagens você pode ver esses maciços rochosos e as espetaculares cachoeiras que deles partem. Sobre a recorrência da água em suas imagens, o artista, que aos 80 anos permanece em excelente forma física e emocional, destaca que “as únicas duas formas de abordar a Amazônia é pela água e pelo céu, porque as  florestas  são tão densas que é impossível penetrá-lo.”

Um país de água

Mas o fotógrafo esclarece que principalmente este território é um país de água, um território atravessado por rios que deixa inúmeras ilhas de selva onde vivem até 133 tribos étnicas que falam tantas línguas, por isso o define como uma reserva tanto de animais e diversidade animal como humana. Conclui, portanto, que a principal forma de locomoção neste vasto território é navegando pelos seus rios e afluentes.

Ele ilustra essa afirmação com uma anedota: “A primeira vez que entrei na Amazônia foi num navio que saiu de Manaus; Navegamos 21 dias e então o capitão nos disse que tínhamos que voltar se não quiséssemos ficar sem gasolina.” Fizeram-no em mais 21 dias de regresso.

“No total, passamos 42 dias viajando pela Amazônia, mais do que levaria para navegar de Barcelona a Tóquio e voltar”, enfatiza com seu discurso eloqüente e sedutor. Destaca também a importância do ecossistema fluvial amazônico, revelando que “enquanto aqui uma enchente pode elevar o nível da água até três metros, lá pode chegar a 27 metros”.

Ele acrescenta que parte importante da floresta amazônica “fica inundada há quase seis meses”, mas também destaca a presença do que chama de “uma Amazônia aérea”, em referência à água que evapora da selva e forma enormes nuvens carregadas de água que entra na circulação planetária, influenciando o regime global de chuvas. Ele garante que “estima-se que cada árvore da selva possa evaporar até 1.200 litros de água por dia”.

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Sebastião Salgado conversa com os presentes na apresentação da exposição ‘Amazónia’. Jordi Sabate

Convivência com comunidades indígenas

Salgado também expõe na  Amazônia  inúmeras fotografias do cotidiano de algumas tribos amazônicas, com seus membros em diversas atividades que incluem a caça ou a pesca. Há muitas imagens de meninas e meninos que olham para a câmera entre a indiferença e o desafio. Salgado explica que não foi fácil chegar a estas aldeias isoladas na selva impenetrável.

“Antes de mais nada é preciso solicitar a visita da Funai, a Fundação Nacional do Índio do Brasil, que é uma fundação pública vinculada ao Ministério do Interior e que conseguiu que cerca de 25% do território amazônico seja floresta indígena protegido pela Constituição”, explica.

De lá, um integrante da Funai irá até o território da etnia em questão e perguntará se aceita a visita de Salgado. “Pode levar uma ou duas semanas até que eles se reúnam e decidam democraticamente se me aceitam ou não”, revela. Começa então uma viagem fluvial que pode durar semanas e durante a qual o curso do rio se estreita, de modo que embora comecem com embarcações fluviais, terminam com barcos a motor.

“Uma vez na área, é preciso passar por uma quarentena definida pela Funai para eliminar qualquer vestígio de germe que possa afetar os indígenas, porque eles não têm anticorpos contra as nossas doenças”, acrescenta Salgado, que conclui que a abordagem é sempre complexo e escrupuloso. “Tenho que trazer um tradutor, tenho que trazer um antropólogo que trabalha com essa comunidade e que conhece seus costumes e também alguém da Funai para supervisionar tudo”, finaliza.

Imagem: Xamã yanomami em ritual durante a subida para o Pico da Neblina, Estado do Amazonas, Brasil, 2014 – Sebastião Salgado. (Fonte).

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