Sócrates e a crise económica e financeira de 2008

Quando Sócrates se disponibilizou para apoiar a banca em cerca de 20 mil milhões de euros, enquanto congelava os salários dos trabalhadores, e, em relação aos funcionários públicos, eram salários e carreiras profissionais. Neste momento encontra-se a prestar contas perante a justiça não por estas medidas gravosas, mas por eventual favorecimento de amigos envolto em corrupção. Será mais vingança de alguém que se sentiu prejudicado por não ter beneficiado dos seus prestimosos favores. No tribunal do povo este ex-primeiro não é mais corrupto do que todos os outros já passados, presentes ou futuros, porque todos governaram em benefício das elites e não de quem trabalha, teve somente azar, deixou-se apanhar. Republicam-se duas pequenas crónicas escritas em tempo do consulado socrático.
Sócrates socorre a banca portuguesa em 20 mil milhões de euros
O primeiro-ministro, fazendo eco da resolução de Paris, vem acudir aos banqueiros especuladores e ladrões com um fundo de garantia de 20 mil milhões de euros. Dinheiro que, antes do mais, deveria servir para o aumento dos funcionários públicos e dos trabalhadores assalariados portugueses em geral, e para as pensões de reforma; dinheiro que não será emprestado mas dado, não para os pequenos aforradores que possuem as suas economias nos bancos, mas para os grandes banqueiros, para não verem baixar os lucros e as suas imensas fortunas; ou seja, para “os bancos suportarem a economia”, como afirmou o presidente francês à saída da reunião de salvamento do grande capital europeu.
O capitalismo treme, no entanto, é o Estado, através dos dinheiros dos contribuintes, que vem salvar a economia dos banqueiros e dos grandes capitalistas, contrariando o que sempre temos ouvido que a economia de mercado se auto-regulava e que a intervenção do Estado era indesejável. Nomeadamente, o Estado Providência, que fazia com que os trabalhadores deixassem de lutar pelo seu futuro; concretamente, na questão da reforma ou do desemprego, seria uma maneira de convidar ao ócio e à irresponsabilidade (propaganda em que se enquadra a demagogia de Paulo Portas para se acabar com o Rendimento de Inserção Social). Com a crise dentro de portas, o Estado Social é desejável, não para os assalariados, mas para os ricos em ameaça de falência do seu sistema de exploração.
Com este fundo de garantia de 20 mil milhões de euros, a banca que actua em Portugal pode continuar a oferecer “confiança” – segundo as palavras do feliz banqueiro Fernando Ulrich – não só aos que nela colocam as suas economias como às instituições que gerem os muitos milhões de euros dos fundos de pensões e de saúde dos trabalhadores. Não se diz, porque não interessa, que as empresas que têm ido à falência, desde à norte-americana Enron aos bancos que neste momento não faliram porque os governos lhes puseram a mão, é a volatilização dos enormes fundos de pensões dos trabalhadores, o que representa muitos milhares de trabalhadores que não terão as suas reformas apesar de terem feitos os descontos para tal, assim como outros tantos desempregados.
Seria bom que Sócrates explicasse aos portugueses quanto ao destino dos dinheiros da Segurança Social que se encontram investidos nos bancos e companhias de seguros que estão em vias de falência nos EUA (há quem fale em 20% do total dos fundos da Segurança Social), para que não aconteça o mesmo com o ouro do Banco de Portugal, cerca de 15 milhões de contos (se a memória não nos falha) que desapareceram ao tempo do Tavares Moreira, nos idos de 80.
Sócrates, dentro do OGE de 2009, vem com outras medidas para contentar os capitalistas portugueses, mas, pelos vistos, nem eles nem o outro partido do “Bloco Central” ficaram satisfeitos. A redução do IRC, contrabalançado com as migalhas oferecidas com a 13ª prestação do abono para as famílias mais carenciadas, ou da linha de crédito de mil milhões para financiamento das PME não será suficiente para que muitas delas evitem a falência. Com ajuda estatal ou sem ela, grande parte das pequenas empresas têm a sentença lida, é a inevitabilidade do capitalismo, bem como os bancos que, na opinião do ex-responsável do BCP, Paulo Teixeira Pinto (que se “aposentou” com uma reforma de nababo paga pelos contribuintes), devem ser apenas quatro, os outros estarão a mais. É a concentração do capital, com o desaparecimento do pequeno capital que não consegue reproduzir-se de uma forma concorrencial.
A estagnação económica vem para ficar, segundo o prognóstico do FMI; na Europa, em 2009, o crescimento será de 0,2% (zona euro) e Portugal, como não poderia deixar de ser, não irá além do 0,1%; para este ano, prevê-se que o crescimento seja 0,6% em Portugal, e vamos lá ver! Estagnação, cujo fim o FMI não prevê para breve, e que será debelada (será?) quando “todas as perdas forem reconhecidas”, até “os bancos se recapitalizarem”, até que “o mercado recupere a confiança” – estagnação que será mundial, diga-se de passagem.
Engraçado é ouvir a mesma palavra da boca de todos os capitalistas, governantes e responsáveis do sistema burguês capitalista, político ou económico, e agentes assoldadados: “confiança”. Parece que a crise do capitalismo se trata de um problema do foro psicológico ou psiquiátrico; se assim fosse, os governos e os bancos deveriam contratar psiquiatra ou psicólogo clínico de renome para tratar da maleita. As bolsas entram no negativo, os bancos não têm liquidez e não emprestam dinheiro uns aos outros… porque há falta de confiança. As pessoas (aquelas que as têm, atenção!) vão correr aos bancos retirar as suas economias e colocá-las debaixo do colchão, afinal de contas, ainda o lugar mais seguro para o seu dinheiro; as empresas não investem; os consumidores não consomem – tudo por falta de confiança.
Os governos injectam dinheiros públicos na banca falida para criar confiança. Tudo se resume a “confiança”. No entanto, não sendo necessário possuir nenhum doutoramento ou até licenciatura (mesmo do género da do Sócrates), qualquer cidadão medianamente informado vê que é na dinâmica imparável do capitalismo pelo lucro (uma ânsia inesgotável) que se encontra a verdadeira causa da sua crise e da sua inevitável derrocada, que, bem vistas as coisas, nem deverá estar tão longe como isso. A ânsia do lucro, a necessidade de se reproduzir, caso contrário acaba – não esquecendo que o capitalismo é, antes do mais, uma relação social –, a necessidade de explorar os produtores de mais-valia até ao tutano, são as razões principais da sua ruína. Mais dia, menos dia, o fim do capitalismo é uma necessidade para toda a Humanidade.
Sócrates é amigo de banqueiros e inimigo figadal dos trabalhadores.
13 de Outubro 2008
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O Governo Sócrates/PS congela os salários dos trabalhadores do Estado
O ministro das Finanças depois de ter anunciado que não haveria aumento dos salários reais, ou seja, os aumentos seriam iguais à taxa de inflação (0,8%), veio agora dizer às massas que, para além do corte nas reformas, os salários dos funcionários públicos serão congelados durante este ano de 2010; isto é, não há aumento nominal sequer, ou ainda por outras palavras: irão diminuir em termos de poder de compra – uma fatia apreciável dos trabalhadores portugueses irá empobrecer um pouco mais!
A reacção dos sindicatos não se fez esperar, do lado da UGT veio a declaração, pouco convincente, aliás, de era uma medida “inadmissível”; do lado da CGTP, saiu a afirmação de que “as diferenças sociais irão aumentar”. Nada que não se estivesse já à espera, ambas centrais sindicais prometem luta, e a CGTP já tinha marcado uma manifestação para o próximo dia 5 de Fevereiro, como soubesse antecipadamente o que iria sair da cartola orçamental do Governo.
As razões da contenção das despesas com os trabalhadores do Estado é o sacramental défice das contas públicas, que, este ano, atingirá os 8,3%. Mas o orçamento há muito que vinha a ser cozinhado entre os partidos com assento na Assembleia da República. Cada partido da oposição faz o seu papel de donzela virgem e pura, enquanto o partido do Governo faz de vítima, agitando a “ingovernabilidade” como papão que devorará tudo e todos, a começar pelo povo que paga impostos e acabando nos partidos que inviabilizassem o sacrossanto orçamento.
O PS, depois de arrebanhar os votos ao povo português, e ter formado Governo com maioria simples, mantém a mesma política de tirar aos pobres para dar aos ricos, porque só se compreende o défice orçamental pelo aumento das despesas feitas não com os salários dos trabalhadores ou as reformas dos aposentados, mas com os milhões dados aos bancos (só à conta do BPN, a CGD entrou com 4 mil e 500 milhões de euros), às empresas privadas, aos grandes grupos económicos estrangeiros, às clientelas dos escritórios de advogados e de gabinetes de arquitectos por estudos e pareceres, que o próprio Estado pode fazer, e… aos grupos privados que entraram na Saúde como o negócio da China do século.
Os enfermeiros, que estão em greve por uma carreira digna e uma justa retribuição salarial, devem unir a sua luta a outros trabalhadores da função pública, e todos juntos deverão marchar a uma só voz e num mesmo passo. Os enfermeiros não estão sós! A situação só aparentemente não tem saída, há uma alternativa aos trabalhadores do Estado: lutarem na rua, com a união dos diferentes sectores profissionais num único caudal. Que se façam manifestações continuadas, e não apenas a 5 de Fevereiro, GREVE GERAL, e não greves de 1 dia para marcar o ponto, até o Governo ceder ou… então cair. O PS nunca deveria ser eleito para o poder da governação; sempre que o PS “governa”, a situação dos trabalhadores torna-se dramática.
O Governo PS/Sócrates é o inimigo público nº 1 dos trabalhadores portugueses.
28 de Janeiro 2010