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TEMPOS DE CÓLERA

A Humanidade é uma revolta de escravos (Alberto Caeiro, Poemas)

TIMOR-LESTE: O Massacre

13.12.23 | Manuel

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Texto de Noam Chomsky

Pensemos em Timor-Leste, território onde ocorreram alguns dos piores massacres cometidos sobre as populações desde o Holocausto, ao que parece graças ao apoio dos EUA e da Grã-Bretanha (ajudados por outros, muito certamente), nomeadamente através de apoio diplomático, assistência militar essencial e falsificações e negações igualmente fundamentais. Não deveria ser necessário analisar os factos, cuidadosamente suprimidos durante os piores dias dos massacres (numa situação em que acabar com eles teria sido muito mais simples e não acarretaria custos suplementares), e que muitas vezes ainda continuam a ser negados...

Após 25 anos de horror, foram finalmente tomadas algumas medidas para permitir que o povo torturado do território de Timor-Leste pudesse exercer o direito à autodeterminação que tem vindo a ser defendido pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e pelo tribunal Penal Internacional.

O governo Indonésio acedeu a que se efectuasse um referendo, em agosto de 1999, no qual os timorenses poderiam escolher ou rejeitar a “autonomia” no seio da Indonésia. Era quase um facto consumado para todas as partes envolvidas que se o voto fosse minimamente livre, as forças apoiantes da independência acabariam por vencer. O exército de ocupação indonésio (ABRI/TNI) movimentou-se de imediato para evitar esse resultado. A primeira medida foi a constituição e a organização de forças paramilitares destinadas a matar, torturar e aterrorizar a população, ao mesmo tempo que o ABRI adoptava uma atitude de “negação plausível”, que rapidamente entrou em colapso face à presença de vários observadores estrangeiros (nomeadamente os jornalistas australianos, o Ministro dos Negócios Estrangeiros irlandês, os trabalhadores das organizações de assistência humanitária, etc.), que denunciaram de imediato que o ABRI fornecia armas e concedia treino militar aos assassinos, permitindo-lhes igualmente a movimentação e a acção em total liberdade.

Só em Abril de 1999, deverão ter sido massacrados mais de cem pessoas, mais do dobro do número de pessoas mortas em Racak, incluindo aproximadamente sessenta pessoas mortas numa igreja de Liquiçá, a 6 de Abril, segundo números fornecidos pela Fundação para os direitos Humanos e Legais, de Díli, que apresentou uma lista com todos os nomes das pessoas falecidas. Milhares de pessoas foram obrigadas a fugir a um ataque terrorista acabando por se refugiar numa igreja, que foi atacada por soldados e paramilitares, cujo objectivo era “assassinar todas as pessoas que estavam no interior da igreja”, segundo escreveu o pároco num jornal local.

(.....) Suai. Díli.

As milícias do ABRI são “esquadrões da morte bem organizados, orientados por um poder secreto, ou parcialmente escondido – expressão pública de uma inteligência secreta e calculista”. O mais importante especialista australiano em questões relativas ao exército indonésio afirma que as milícias “na sua essência [são] uma extensão do TNI [ABRI]” secretamente organizadas em Outubro de 1998 “para implementar uma guerra em representação do exército contra as forças de independência”.

“A população de Timor-Leste pede desesperadamente ajuda mas, mais uma vez, continua a ser abandonada pela comunidade internacional”, observou, com toda a exactidão, o comentador australiano Andrew MacNaughtan. Mas não devido à falta de informações. O Conselho de Segurança reuniu-se depois de uma “chacina sangrenta” ocorrida em Díli, em meados de Abril, para ouvir um relatório do seu enviado especial a Timor-Leste, após o que o Brasil e o Japão (que tradicionalmente era um apoiante entusiástico do Governo indonésio) apelaram para que fosse exercida alguma pressão sobre a Indonésia de modo a acabar com a violência...

Com e que os guardiões da virtude responderam às últimas fases das atrocidades indonésias que há muito apoiavam? O novo Partido Trabalhista assumiu o governo com uma “política Externa ética” sob a orientação de Robin Cook que anunciou: “assumimos um forte compromisso no sentido de não permitirmos a venda de armas a regimes que possam utilizá-las para a repressão ou para a agressão”. Mas “não impede a venda de veículos blindados a um regime com um dos piores historiais no que diz respeito aos direitos humanos, segundo afirmam algumas fontes”.

O governo britânico aumentou gradualmente, e de imediato, as vendas de armas à Indonésia, concedendo cinquenta e cinco licenças de exportação de material militar, ao mesmo tempo que “reconhecia que o equipamento britânico estava a ser usado contra os manifestantes” pró-democracia na Indonésia. “Algumas das autorizações incluiam armas de pequeno porte, metralhadoras, bombas, agentes químicos usados para o controlo de motins e também agentes tóxicos, sistemas de vigilância, ‘produtos blindados’, equipamento electrónico especialmente concebido para uso militar, e aviões”; o Governo concluiu igualmente a entrega de aparelhos de combate Hawk, destinados ao uso em qualquer tipo de terreno e que eram os mais aguardados. “O Partido Trabalhista exporta mais armas e outro tipo de equipamento militar para a Indonésio do que o Partido Conservador, apesar da muito publicitada ‘política externa ética’ de Robin Cook”, anunciou a imprensa, ao passo que “as vendas de armas de pequeno porte, incluindo metralhadoras, atingiram mesmo o dobro com o Governo Trabalhista”.

Como justificação, o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico citou algumas melhorias na situação de Timor-Leste. As armas britânicas são usadas para esmagar as desordens em Timor-Leste, comunicou um adido da defesa indonésio na televisão britânica, tal como acontece na própria Indonésia. Os fabricantes de armas “têm provavelmente mais facilidade em aprovar as respectivas licenças de exportação com o Partido Trabalhista do que acontecia com o Partido Conservador”, escreve John Pilger: “Menos de um por cento das candidaturas foi recusado” durante o primeiro ano do Partido Trabalhista no poder. Uma política externa ética (é) excelente... Quanto aos EUA, Clinton assinou legislação no congresso para banir o uso de armas dos EUA em Timor-Leste e a formação e treino do ABRI. Mas sem um controlo cuidadoso a sua assinatura não vale nada, tal como ficou demonstrado no passaso quando Clinton recorreu a vários dispositivos para escapar às restrições do Congresso relativamente ao treino concedido aos oficiais indonésios, provocando enorme irritação no Congresso, mas poucos reparos em outras paragens.

Não se ouviu qualquer apelo dos Novos Humanistas para a retirada das forças militares indonésias ou para o envio de uma força significativa de observadores da ONU. Bem pelo contrário. Parece até que impediram o envio dessa força, Segunda informa Farhan Haq, das Inter Press Service (IPS), a partir das Nações em de Nova Iorque: “As esperanças da ONU de enviar rapidamente monitores da polícia para conter a situação cada vez mais volátil em Timor-Leste atingiram um novo impasse, com o Presidente Bill Clinton a ver-se forçado a adiar a aprovação desse envio pelos EUA até consultar o Congresso”.

(...)

Atara

Fundação para os Direitos Humanos e Legais de Díli descreveu a “atmosfera de medo” como a pior desde o período que mediara entre 1975 e 1989, “quando o território atormentado pela violência permanecera fechado aos estrangeiros”. “Todos os dias têm sido marcados pela violência, por raptos, torturas, mortes, saques e fogo posto direccionados contra os habitantes de Timor-Leste, em todo o território”, comunicou a Fundação.

(...)

  1. J. Langguth (antigo correspondente do New York Times) manifestou a sua irritação durante a primeira grande discussão sobre a chacina indonésia apoiada pelos EUA em Timor-Leste após vários anos de governo e de falsidade da imprensa, e depois do silêncio completo – literalmente, completo – enquanto a limpeza étnica e as atrocidades atingiam o seu ponto alto em 1977-78, alcançando níveis que muitas pessoas consideram ser de genocídio, com um total de aproximadamente duzentas mil pessoas mortas, mais de um quarto da população. Langguth objectou, com bastante clareza, que “se o mundo se virasse de imediato para Timor, não serviria de nada para melhorar a situação de um único habitante do Camboja”.

(O Novo Humanismo Militar – Lições do Kosovo, Noam Chomsky – Campo das Letras, 2001)

Imagem: UC