VIRIATO: A Lenda

Viriato: um primeiro líder que afinal não foi quem se pensa
Por Ricardo Raimundo
Quem reconhece o nome de Viriato associa-o ao pastor natural dos montes Hermínios, atual serra da Estrela, que lutou bravamente contra os conquistadores romanos. Até 1968 esta personagem preenchia a primeira página dos manuais escolares de História de Portugal. Em Viseu, local onde se pensava ter nascido o valoroso guerreiro, uma extraordinária estátua mandada erigir em 1940 assinala os feitos gloriosos daquele pastor que, durante anos, resistiu à ocupação romana.
Associar Viriato a Portugal é, para um português, tão natural como aceitar tranquilamente que lhe chamem «lusitano» ou «luso». É uma daquelas personagens sempre presentes na memória coletiva nacional.
Em boa verdade, esta associação entre Viriato e Portugal não passa de uma apropriação e construção que se foi fazendo desde o século XVI até quase aos nossos tempos e só posta em causa por muito poucos. Vejamos as informações disponíveis sobre esta matéria.
As primeiras fontes a mencionarem Viriato surgem no século I a. C.65, da autoria de Possidónio e Diodoro. Segundo Carlos Fabião terá sido o primeiro destes historiadores a descrever Viriato como um herói puro e justo, porque nasceu e viveu em ambientes selvagens, não corrompidos pela decadência que a civilização acarreta. Já Diodoro terá ajudado a transmitir a imagem construída por Possidónio.
Apesar de considerar estas fontes pouco sólidas, Fabião afirma que do cruzamento dessa primeira historiografia com os posteriores autores greco-latinos será possível concluir que Viriato teria nascido na Lusitânia, junto ao oceano. Não existe pois qualquer referência ao «monte Hermínio» associado a Viriato ou às Guerras Lusitanas.
As fontes romanas descrevem estas guerras, situando-as na atual Andaluzia espanhola, numa região muito mais próxima da civilização e dos núcleos urbanos mediterrânicos que do ocidente peninsular mais selvagem. Aí, na zona central e meridional da atual Espanha, Viriato parece ter sabido movimentar-se com mestria e conhecimento da região, tanto que obteve inúmeros sucessos militares. Isto parece assim colocar em causa a tese de uma origem mais ocidental (serra da Estrela) e selvagem do chefe dos Lusitanos.
A literatura desenvolvida em torno de Viriato, enquanto herói, foi sem dúvida o modo de transmissão do mito e o alimento da memória coletiva daí proveniente. Esse movimento terá sido iniciado no século XVI, em pleno renascimento e florescimento humanista em Portugal, especialmente pela ação de Sá de Miranda e Luís de Camões.
Para Sá de Miranda, Viriato é o arquétipo moral de Portugal, anterior à dissolução dos costumes sociais causados, na opinião do autor, pela expansão portuguesa e riquezas fáceis trazidas do Oriente. Camões, por seu lado, atribui a Viriato o papel de patriarca heroico militar dos Portugueses, figura muito útil tendo em conta o pendor ideológico da sua obra maior, Os Lusíadas.
Mais tarde, Frei Bernardo de Brito, na sua obra Monarquia Lusitana, durante a perda da independência nacional, e Brás Garcia Mascarenhas, em Viriato Trágico (1699), durante a Guerra da Restauração, ligam diretamente os Portugueses a Viriato, já sem o assumirem como símbolo ou arquétipo como Camões e Sá de Miranda. De notar que estas duas obras épicas e de forte sentido nacionalista demonstravam descrições fantasiosas de Viriato, especialmente a segunda, tendo Brás Garcia de Mascarenhas inclusivamente sido inspirado pela sua própria vida e experiência na Guerra da Restauração para materializar a tragédia de Viriato.
Associado ao romantismo do século XIX, desenvolveram-se tendências populares celtizantes, que no caso nacional reforçou, a partir de 1870, o mito de Viriato e dos Lusitanos. A monarquia constitucional e mais tarde o regime republicano voltarão a adaptar Viriato aos seus intentos ideológicos e políticos66.
Estas tentativas literárias de busca de antepassados famosos viram-se frustradas em meados do século XIX, por Alexandre Herculano, que rejeitou qualquer relação de continuidade entre os Lusitanos e os Portugueses, tese que foi sistematicamente repetida em todos os manuais e programas escolares portugueses dos finais do século XIX e primeira metade do século XX, que se referem à resistência lusitana e ao episódio de Viriato como um fenómeno hispano. Contudo, esta tese foi recusada por J. Leite de Vasconcelos, que continuou a proclamar a relação e a continuidade entre Lusitanos e Portugueses.
Quem mais contribuiu para a apropriação portuguesa da figura de Viriato foi um alemão, de seu nome Adolf Schulten, com o seu trabalho Viriato, traduzido para português em 1927, num momento em que também em Espanha se reclamava a herança do herói lusitano. A obra voltou a conhecer nova reedição em 1940, por altura da comemoração do centenário da nacionalidade. A sua ideia de associar o antigo mundo lusitano a Portugal e de vincular concretamente Viriato à serra da Estrela, numa altura em que do outro lado da fronteira se reclamava igualmente esta figura heroica, gerou no meio científico português a profunda convicção de que, se dúvidas existissem sobre a sua origem, deveriam cessar após esta opinião de uma pessoa não apenas neutral, como, acima de tudo, autorizada: «A sua pátria era por certo a serra da Estrêla.»67 A determinada altura, Schulten escrevia: «o nome e a fama do herói tornaram-se propriedade patriótica da nação portuguesa»".
Após 1968, a veneração que o Estado Novo e particularmente o seu líder, António de Oliveira Salazar, nutriam pela figura de Viriato desapareceu. Foi difícil conciliar a identidade nacional, herdeira da romanização, com um Viriato opositor a Roma. Esse paradoxo aprofundou-se ainda mais com a guerra colonial, pois Viriato simbolizava a resistência indígena perante o imperialismo estrangeiro, nesse caso o português.
Mas o carinho dos Portugueses por Viriato permaneceu e o desejo de conhecer em pormenor mais aspetos da sua vida continuou a interessar a historiografia, que continua em busca das respostas às principais questões.
Perante o atual estado da questão, podemos questionar: o que se sabe então de Viriato? A verdade é que muito pouco. O nome Viriatus/Viriato deriva do ibérico viria, que significa «pulseira, bracelete», uma abreviatura do celta viriola. Viriato é o portador dos viria (pulseiras) no braço'.
A maior parte dos atuais historiadores consideram-no originário, não dos montes Hermínios (serra da Estrela) mas sim de uma região a sul do Tejo, nas encostas montanhosas da submeseta meridional com a cordilheira Bética, onde é muito possível que tivesse ocorrido o seu nascimento.
Esteve entre os lusitanos massacrados por Galba e participou na incursão de 147 a. C.; casou com a filha de um rico terra-tenente indígena e instalou-se, durante a guerra com os romanos, em diferentes cidades das regiões meridionais. Estes dados sugerem uma efetiva familiaridade com o mundo mediterrânico peninsular, pouco consentânea com uma procedência das distantes regiões da fachada atlântica do atual território português.
Todos os sucessos do conflito com os romanos são localizáveis na Andaluzia ou nas regiões meridionais da meseta hispânica, onde Viriato parece movimentar-se com grande desenvoltura, demonstrando um bom conhecimento de toda a região.
Parece pois evidente que a imagem de Viriato como um selvagem puro e justo, transmitida por Possidónio e Diodoro, não correspondia à realidade. Para eles, o caudilho lusitano mais não era do que um pretexto para a transmissão de uma determinada visão do mundo e dos homens. Deve reconhecer-se que não se possui, para lhe contrapor, outra imagem de Viriato, baseada em fontes fidedignas. Não se justifica, porém, que se continue a transmitir acriticamente o mito tradicional.
A memória coletiva portuguesa persiste em relembrar Viriato, sentindo-se honrada na ligação que estabelece com esse símbolo e arquétipo nacional. Ainda que a historiografia, já desde o século XIX, tenha definido a história de Viriato e a sua ligação aos Portugueses como mítica, este não desaparece da nossa memória coletiva. Tal como resistiu à ocupação romana, também ele resiste à historiografia.
Notas:
65 Cf. Carlos Fabião, «O passado proto-histórico e romano», História de Portugal, direção de José Mattoso, vol. i — Antes de Portugal, coordenação de José Mattoso, Lisboa, Editorial Estampa, 1997, p. 203.
66 Amílcar Guerra, «Viriato mítico», Factos Desconhecidos da História de Portugal, Lisboa, Selecções do Reader's Digest, 2004, p. 28.
67 Adolf Schulten, Viriato, Porto, Edição da «Renascença Portuguesa», 1940, p. 37.
68 Idem, ibidem, p. 81. 69 Mauricio Pastor Muãoz, Viriato. O Herói Lusitano Que Lutou pela Liberdade do Seu Povo, edição revista e aumentada, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2006, p_ 43_
(Episódios da História de Portugal – Que não aconteceram bem assim…., Ricardo Raimundo. Manuscrito, 2016)
Imagem: Pintura representando Viriato, obra do pintor Eugnio Oliva, 1881.